quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A percepção e a reacção

Portugal mantém-se, em 2011, no mesmo 32.º lugar de 2010 no índice da percepção das populações em relação à existência ou não de corrupção nos respectivos países da tabela divulgada hoje pela Transparência Internacional (TI), organização não governamental que monitoriza a evolução da percepção de corrupção a nível mundial. Aqui, lê-se que a mediatização está a fazer com que os portugueses mudem lentamente de opinião sobre o fenómeno da corrupção no país, uma alteração medida pela subida de 0,1 pontos no índice de transparência que quantifica a sua percepção. Seria óptimo.


As sondagens, contudo, ao espelharem quer a mesma preferência resiliente pelos partidos que, ao longo dos últimos 30 anos, se têm visto envolvidos em esquemas de corrupção imaculadamente impune, quer a abstenção crescente verificada no mesmo período, obrigam-me a distanciar-me de tal optimismo. Pelo contrário, o que constato é que tais hábitos não se modificam nem com a austeridade selectiva que está a ser servida em doses crescentes para pagar três décadas de uma corrupção acima das nossas possibilidades transformada, diga-se, sem necessidade de grande sofisticação, em resignação pelo argumento oficial do “vivemos acima das nossas possibilidades” que vingou nas memórias maioritariamente curtas...


No mínimo, admitindo como verdadeira a tese de que a percepção de corrupção está a aumentar, ela de nada serve se não for acompanhada por uma alteração profunda da forma como os portugueses formulam as suas escolhas eleitorais: cada vez que há eleições, reconfirmamos que as notícias sobre corrupção têm um impacto quase nulo sobre os crónicos 80 por cento de votos que reúnem, no mínimo, os três partidos invariavelmente envolvidos em escândalos de corrupção e, paradoxalmente, também em participações em maiorias absolutas. E quem reage a tais notícias afastando-se do sistema e engrossando a abstenção, naturalmente que também não contará para este totobola até que, tal como os primeiros, junte à inicial a percepção de que o voto é a arma para penalizar a corrupção e para premiar a idoneidade. A cidadania tem ainda um longo caminho de aprendizagem à sua frente.

1 comentário:

Francisco Rocha disse...

Parabéns! A percepção do país real leva a que, cada vez mais, tenhamos uma atitude crítica com o mundo que nos rodeia, sobretudo quando se tratado país do Burro....