quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Gostei de ler: "Dì qualcosa di Sinistra"


Caiu o Carmo e a Trindade. Os céus tremeram. Uma onda de indignação varre os blogues de direita. Deputados vociferam furiosamente no Parlamento contra a infâmia. Comentadores na televisão revoltam-se com a pouca vergonha. Jornalistas apresentadores de serviços noticiosos perdem a compostura e reclamam, olhos faíscando de ódio. É o horror, o horror... um deputado do PS, Pedro Nuno Santos - ainda por cima, um provinciano - atreveu-se a dizer qualquer coisa de esquerda. De esquerda! Há rumores de que em Kyoto ter-se-à sentido um pequeno terramoto. E milhares de peixes-gato deram à costa na Ilha de Páscoa. E que disse ele? Que não devemos agachar-nos perante os nossos credores; que a única arma que iremos ter, daqui a uns tempos, é o não-pagamento da dívida. Extraordinário! Extraordinário também porque vemos a direita ser anti-patriótica, a governar contra os interesses da pátria, e a esquerda - até o PS, imagine-se - a querer defender o país do saque que se prepara. Chegámos a um ponto essencial da nossa História, quando os valores tradicionais se começam a inverter. É agora ou nunca. Daqui a uns meses, será tarde; quando não pudermos mesmo pagar, quando a economia portuguesa estourar, seremos como peixes numa rede acabada de ser puxada do mar, à mercê das gaivotas. Será que nessa altura alguém se vai lembrar das palavras deste deputado, efémero herói da nação?


(É claro que um vice-presidente do PS vir afirmar o que será inevitável é completamente inoportuno. O muro erguido na comunicação social e na opinião pública em favor da austeridade, do respeito e da responsabilidade sofreu uma brecha. A unanimidade dos partidos do arco do poder quebrou-se. Alguém veio dizer que poderá haver alternativa ao desastre para onde estamos a ser conduzidos. E isso fere. É uma ameaça. A violência espoletada é a consequência da fragilidade do fio que une este Governo aos portugueses. As manifestações, os protestos, os apupos vão começando a aparecer. Como disse o Presidente da República, "os portugueses chegaram ao limite dos seus sacrifícios".)» - Sérgio Lavos, no Arrastão.

2 comentários:

Vítor Fernandes disse...

Têm é que se por de acordo. Se for mesmo para não pagar a divida (o que eu apoio, diga-se de passagem), quero o meu dinheiro de volta. Nunca dei a ninguém uma prenda de Natal tão elevada e ainda por cima de contra-vontade.

Filipe Tourais disse...

Ele não disse para não pagarmos. Disse para ameaçar nestas condições não pagar. Fazer uma coisa que ainda não foi feita: NEGOCIAR. E nem é preciso ameaçar. Nestas condições absurdas, nunca pagaremos, é impossível. Eu acho incrível que algo tão evidente gere tanta polémica, mas o que resulta óbvio é o bom trabalho da comunicação social nesta propaganda. Podíamos estar a pagar tanto como pagam os bancos pela liquidez (a taxa de refinanciamento do BCE está actualmente em 0,5%) e, para além da dívida, estamos a pagar a engorda dos bancos. Tudo o que está acima de 0,5 é engorda dos bancos.