sábado, 3 de dezembro de 2011

Deus que nos salve, porque o Estado encolheu


Palmas, choros , festa e hino nacional na chegada dos heróis do mar sãos e salvos às Caxinas. Na comunicação social, nem uma palavra sobre os cortes governamentais que permitiram que, em pleno séc. XXI, seis homens andassem quase três dias à deriva no mar por não terem à disposição da sua sobrevivência um sistema que os localizasse, muito menos sobre a feliz coincidência que os salvou, um helicóptero que os sobrevoou por acaso e não por estar ali destacado exclusivamente para aquela missão. O final feliz tinha tudo a favor para não o ser.


Ontem, escrevi que esta história, por um capricho da sorte, com final feliz, deveria constituir uma lição importante para que não voltasse a repetir-se. Os média preferiram entreter a informar. O seu propósito foi bem outro. A sua missão todos os dias se transforma escancarando o adultério que vai trabalhando também noutros finais subjectivamente felizes. A versão que hoje contam resume-se a seis homens que andaram 60 horas à deriva e foram salvos por uma mais do que evidente benevolência divina. Avé, sem lições a retirar. Deus que assuma as funções que eram do Estado. Aliás, em vez de inutilizar tempo com notícias, devemos mas é aproveitá-lo para trabalhar mais. Foi para isso que nascemos. O resto são luxos imerecidos.

3 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Eu nunca tive dúvidas de que nasci mesmo para trabalhar. Sem ironias. O meu conceito de trabalho continua intocado e intocável, mesmo agora que já me vai custando andar os 300 ou 400m que me separam do CJ e acredito que trabalharei até morrer, mesmo que ninguém - ou muito poucos... - percebam que eu continuo a fazer mais do que as próprias forças me permitem.
Gostei. Investimos na divina providência e poupamos nos recursos que poderiam evitar a catástrofe! E haverá quem aprove, sem sombra de dúvida! Talvez surja algum imposto excepcional sobre as orações e as súplicas... é bom ir prevenindo...

Filipe Tourais disse...

Eu também sinto o mesmo, Maria João. Mas é diferente nascer para trabalhar e nascer para carne para canhão. Foi com este sentido que utilizei a expressão. O trabalho só dignifica mediante certos pressupostos, nomeadamente as condições para desenvolvê-lo e um salário que permita melhorar e não piorar de vida a trabalhar.

Fernando Esteves disse...

Não concordo quando diz que é devido a cortes governamentais que este barco de pesca não tinha uma EPIRB. Quando o Sr. mete a sua famíla no carro para ir para o Algarve não o faz sem antes verificar os pneus, o óleo, etc, coisas que lhe garantem que vai em segurança. Aqui é a mesma coisa. Ir para o mar sem uma EPIRB é uma total atropelo à segurança y à vida das pessoas. A EPIRB é hoje um equipamento barato (compare-o com o custo de uma vida), há muitos modelos à venda. Pode inclusivamente optar por uma EPIRB que utilize o canal 70 em VHF, isto se andar junto à costa. A desculpa dos cortes é uma desculpa de mau pagador. A segurança custa dinheiro, pode ser a rubrica mais barata ou a mais cara do orçamento de uma eempresa marítima. A escolha é do gestor....