segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Bons samaritanos

Primeiro, os protagonistas. Uma empresa, daquelas que têm gente muito bem colocada no Estado para com ele poder fazer negócios tão maravilhosos como à prova de crime, tem uma fundação com fins caritativos aos quais chama de “responsabilidade social” e cuja missão é pôr uma ínfima parte dos saques assim obtidos ao serviço da reabilitação da sua própria imagem. E um Governo, com um sentido de Estado tão à prova da auditoria à dívida que exporia tais negócios como assegurado pela Justiça que controla, promove políticas que enchem de pobres as instituições que se dedicam a apaziguar os estômagos da revolta das vítimas da actividade que desenvolve conjuntamente com empresas com a tipologia da primeira.


Depois, os figurantes. São sucursais da riqueza e da pobreza geradas pelos dois primeiros, têm por função distribuir esmolas pelas suas vítimas e, para fazer esse trabalho, convocam um exército de voluntários que tapam com os elogios que recebem o remorso de ocuparem postos de trabalho que dispensariam outros tantos clientes da humilhação diária da esmola que lhes faz inchar a de outra forma insignificância.


E isto a propósito de quê? É que protagonistas e figurantes reuniram-se ontem para juntos fazerem uma festa muito bonita para que o mundo veja os exemplos de boas pessoas que são. Vivem à custa de todos os contribuintes, mas a festa não foi convocada para nos distinguir. Os nossos impostos servem para engordar as fortunas dos ricos, não para criar emprego ou garantir um mínimo de dignidade à pobreza. Para além do mais, como compreenderão, a partir do momento em que o nosso dinheiro está do lado de lá, boas pessoas são as que eles quiserem distinguir. Candidatam-se todos e todas que se disponham a ser uma peça desta engrenagem que gera os próprios pobres que alimenta depois. E, escusado será dizê-lo, esta fábrica de ricos e pobres agradece todos os donativos e votos que garantam o labor das suas boas pessoas. O triângulo auto-sustenta-se, mas garante-se com o sentido de pertença de quem se deixe cair na sua teia de negócios de idoneidade duvidosa, financiamentos partidários opacos e generosidades voluntárias glorificadas à custa do dinheiro dos outros. Do nosso.


Um pequeno detalhe adicional: todos os donativos que ponha nas mãos desta gente que depois se promove com o seu dinheiro é subtraído ao resultado das respectivas empresas que, como tal, pagam menos impostos, ou seja, caber-lhe-á a si compensar o que eles deixarem que pagar, ou com mais impostos, ou com um corte salarial patriótico. Põe-se a pagar pelo menos três vezes: as PPP, a esmola e a compensação da esmola, para além do que está a contribuir para a perpetuação do sistema.

2 comentários:

Francisco Rocha disse...

Será que não podemos fazer nada... custa-me a ver o país a esvair-se desta maneira.

Filipe Tourais disse...

Claro que podemos. No tema solidariedade, podemos ser solidários directamente, sem interposta pessoa. E fazer "qualquer coisita", como é bom de ver, por vezes é pior do uqe não fazer nada. Acho que temos de nos deixar de fitas de culpas que não temos e juntos exgirmos o direito a um futuro que nos roubaram.