quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sim, farei greve


Durão Barroso, o tal português que os patrioteiros se orgulham de ver na presidência da Comissão Europeia, diz que quer vigilância apertada sobre o conjunto de países, entre os quais o seu, para além do período de reconfiguração social que os respectivos Governos acordaram implementar a troco de um empréstimo que alimenta os anteriormente contraídos a juros que crescem ao ritmo das suas recessões assim induzidas.


Azar. Durão Barroso escolheu mal o dia para repetir a fábula dos bons e dos maus alunos nas vestes do disciplinador que nem nos dias que correm serviriam ao fantoche tecnologicamente mais sofisticado. É que a Alemanha foi hoje ao mercado financiar-se e apenas conseguiu vender 3,664 dos 6 mil milhões de euros de obrigações a dez anos que pretendia no leilão desta manhã. Os mercados, tantas vezes usados como álibi para a implementação de uma agenda política de regressão social e concentração de riqueza, desta vez quiseram dizer à senhora Merkel que, com dívidas ao preço a que pôs a pagar países como o nosso (12 por cento), a Grécia (27 por cento) e com o promissor negócio proporcionado pelo galope dos juros italianos e espanhóis (7 por cento), os especuladores têm opções muito mais rentáveis do que os 1,98 por cento que a Alemanha pagou pela emissão de hoje. A França e a Bélgica também já vão a caminho do fosso. O euro já não escapa. É uma questão de tempo.


E isto a propósito da greve de amanhã. É óbvio que vou fazer greve. Estou farto de discursos moralistas que nos apontam o caminho da pobreza como meio de purificação dos pecados que não cometemos ao mesmo tempo que abrem o caminho da fortuna a delinquentes que, eles sim, tem responsabilidade na origem e nos desenvolvimentos da crise que vivemos. Sem o correspondente aos juros que Portugal paga pela sua dívida, o saldo orçamental seria positivo, cerca de +0,7 por cento do PIB. Com os juros é negativo em 7, 8, 9 ou o que eles quiserem por cento. E a dupla Passos Coelho e Paulo Portas não sabe fazer mais do que sacrificar o seu povo aos interesses que têm como porta-vozes Angela Merkel e Nicolas Sarkozy.


Vivemos acima das nossas possibilidades? Certamente que sim. Os impostos que pagamos dariam para termos serviços públicos e protecção social de luxo. Na sua vez, porque a Europa manda e eles obedecem sem um ai, temos juros da dívida de luxo. Com os lucros dos monopólios naturais teríamos serviços públicos e protecção social de luxo. Da mesma forma, na sua vez, porque eles querem, temos uma burguesia de luxo com direitos naturais de enriquecimento alargados quer por uma legislação laboral que nivela os rendimentos do trabalho pelo mínimo, quer pela completa isenção dos impostos que nos fazem pagar na sua vez, uma aristocracia republicana que, para cúmulo, ainda goza de inteira liberdade para fazer toda a espécie de falcatruas, com e sem paraísos fiscais.


Sim, faço greve. Este caminho que levamos vai ter que ser percorrido em sentido contrário e, quanto mais depressa for parado, menor e menos penoso será o regresso. Teria vergonha se ficasse de braços cruzados a ver o meu país a afundar-se. Sentir-me-ia um palerma se ficasse quietinho, a convencer-me que o caminho da Grécia não será também o nosso, à espera de ser ainda mais e mais apertado. Teria vergonha de não retribuir apoiando uma iniciativa organizada por quem, bem ou mal, não é hora de discuti-lo, tem como trabalho diário dar a cara por mim. Teria vergonha de fazer greve com o dinheiro dos outros. Teria vergonha de valorizar mais o salário de um dia de trabalho do que o direito perdido a um futuro. Sim, reclamo ter de novo o direito a um futuro. Tenho que fazer greve. Sim, farei greve. Que seja um enorme sucesso, para o bem de todos nós.

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