quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Quando tentam calar a democracia

Parece agora mais do que evidente que não haverá referendo nenhum na Grécia. Entre os instalados no poder, há sempre súbditos obedientes que se prontificam para ceder: as ameaças do directório europeu bastaram para corroer o suporte parlamentar do Governo de Georgios Papandreou, que se viu obrigado a recuar.


Convencer toda aquela gente que manifesta nas ruas que já não aguenta mais doses da maldita austeridade que os condena à miséria a aceitarem pacificamente que lhes apaguem a luzinha que se acendia ao fundo do túnel vai agora ser tarefa impossível. Mais ainda se, para além de não haver referendo, também não forem marcadas eleições antecipadas e for constituído um Governo de “salvação” nacional.


Os “salvadores” que se esquecem que o poder que detêm lhes foi confiado pelo povo que se prontificam a espezinhar e não por outro amo qualquer manifestam total desprezo pela democracia. E, historicamente, quando a democracia deixa de poder fazer-se ouvir, quando a esperança morre e se generaliza a percepção de que há muito pouco a perder, costuma correr muito sangue. Já sabíamos que a irresponsabilidade leu os livros de economia errados. Nos de História, sabemos agora que nem lhes tocou.

3 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Gostei, Filipe! É tremendo o que está a acontecer ao povo grego e imprevisível, a sua reacção!

Francisco Vaz disse...

Assim é que está bem. Como podem os gregos, esse ignaro povo, desqualificado, mandrião, sem uma pinga de tradição cultural, essa cambada de brutos que sempre foram um arrabalde mal frequentado e selvagem da gloriosa e civilizada Europa, essa gentalha comprovadamente arruaceira e barulhenta, pretender – sem desencadear generalizada reprovação – decidir em referendo o que quer que seja sobre o seu futuro? Nunca. Em primeiro lugar porque, muito provavelmente, a Grécia não tem futuro; depois porque, mesmo que o tivesse, é uma evidência que os gregos não fazem a mais pequena ideia do que é bom para o seu desgraçado país. Os responsáveis europeus, instalados nos seus calmos gabinetes de Bruxelas, os homens confiantes, metódicos e ponderados que superiormente dirigem instituições tão prestigiadas como o BCE e o FMI, sabem muito melhor, infinitamente melhor, o que os gregos devem fazer.
Há uns séculos largos, um autor clássico falou, com justificado desdém, de um povo situado exactamente no extremo oposto da Europa que não se governava a si mesmo nem se deixava governar.
Lembram-se? Este tipo de gente, miserável e pouco agradecida, não aprende nunca.

Filipe Tourais disse...

É incrível o que está a acontecer ao mundo e toda a gente a tentar convencer-se de que não está.