quarta-feira, 9 de novembro de 2011

À mão de semear

Otelo Saraiva de Carvalho diz que, se o descontentamento que cresce nas ruas aumentar para lá do intolerável, pode bem produzir um novo golpe de Estado como o 25 de Abril. Entendo a frustração dos que fizeram o 25 de Abril para isto, mas não me parece que faça grande sentido a libertação de um povo que não sabe usar a democracia para se libertar pelos seus próprios meios. Temos o Governo e o Parlamento que o povo elegeu livremente. Somos e temos o que quisemos e soubemos.


Para além do mais, o 25 de Abril fez-se de um ideal colectivo que hoje, quem assistiu às reacções à greve do sector dos transportes de ontem, imediatamente percebe que ou está muito rarefeito, ou não existe de todo. O espectáculo foi o de sempre. Degradante. Mas ocorreu em circunstâncias especiais. E nem numa situação em que o preço dos transportes vai tornar-se proibitivo, nem no cenário em que muita daquela gente que protestava contra a greve vai ficar sem transporte público, nem a ameaça de desemprego e a realidade dos cortes salariais e da perda de direitos ser a mesma dos dois lados da greve fez acordar a solidariedade que faria uma vitória de todos.


Pelo contrário, o que vimos foi o pior de cada um a revelar-se, o instinto da sobrevivência servil a mostrar a enorme distância entre todos aqueles umbigos desordenadamente alinhados para produzirem um requiem desafinado pela cidadania que nunca chegaram a conhecer. Tinham quase todos cara de 24, não de 25 de Abril, caras de quem entende melhor a linguagem directiva da palmatória moralista que lhes aponte a glória de uma sardinha pobrezinha mas lavadinha para sete do que a da generosidade que lhes deixe o caminho livre para aprenderem a construir uma sociedade justa e para todos, onde não se empobreça a trabalhar.


Regressando à entrevista de Otelo, outro 25 de Abril, não me parece. Quando muito, um golpe, e não necessariamente militar nem forçosamente de cravos, de sinal precisamente contrário. Antes, porém, muita porradinha nas ruas. É o que sempre acontece quando se generaliza o sentimento de haver muito pouco a perder. Quando a política não resolve o que deve resolver, o desespero não costuma ser tão criativo como aqueles que dele sabem tomar partido. Estamos à mão de semear. Nisso estamos de acordo. E também tenho saudades da esperança.

2 comentários:

wipinho disse...

Meu caro, Otelo nao diz que o novo golpe de estado seria provocado pelo descontentamento nas ruas. Ele afirma claramente que o golpe deveria ser tomado se a insatisfacao MILITAR passar do razoável. Isto seria de chorar a rir se nao fosse tao grave. Ele afirma que os militares tem o poder de derrubar governos se naoe stiverem satisfeitos...

Filipe Tourais disse...

Ele fala em descontentamento nas ruas, presumo que não apenas pelos militares, mas o que diz também é verdade. Foi a parte do ridículo que preferi não comentar. Custa-me ver estes papelinhos.