quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Silêncio, que se está a cantar o fado

"Acabaram os tempos de ilusões. Temos um longo e árduo caminho a percorrer, para o qual quero alertar os portugueses de uma forma muito directa: a disciplina orçamental será dura e inevitável, mas se não existirem, a curto prazo, sinais de recuperação económica, poder-se-á perder a oportunidade criada pelo programa de assistência financeira que subscrevemos", afirmou Cavaco Silva nas comemorações do 101.º aniversário da implantação da República, nos Paços do Concelh em Lisboa.


Ora aqui está mais uma intervenção riquíssima do nosso Presidente. Como sempre, levanta mistérios insondáveis e certezas que se reconfirmam. Começando pelas certezas, ao não dirigir uma única palavra a Alberto João Jardim, reconfirma que é o seu preferido para vencer as eleições do próximo Domingo. Continuam os tempos de ilusões e, logicamente, temos um longo caminho a percorrer. Um caminho de austeridade “republicana” que, por acaso, não sabia que era diferente da austeridade “monárquica” e que,, caso o divino não traga sinais de recuperação económica, estamos bem tramados se nada fizermos, porque, por vontade própria, eles não vão abandonar a santa austeridade que impossibilita essa recuperação.


E, agora, o mistério: estaria o PR a apelar à revolta popular? Cavaco sabe tão bem como nós que, tal como ele próprio, nestas ocasiões de aperto, o divino não se intromete em reedições do cavaquismo, seja na Madeira, seja lá onde for. Estamos por nossa conta. Resumidamente, isto foi o que quis dizer-nos neste 5 de Outubro o Rei do asfalto e dos fundos comunitários aplicados no enriquecimento de uma minoria

1 comentário:

Anónimo disse...

A rábula do bom aluno da Europa voltou em força. Desde logo, pela mão de quem a trouxera nos idos de oitenta: Cavaco Silva. Agora, diz o Presidente da República, é o tempo da "austeridade digna", mandamento máximo ajustado, sugere Cavaco, à convicção de que "acabaram os tempos de ilusões". Cavaco Silva diz sobre o tema duas coisas: primeira, que o caminho traçado pela troika é o caminho a trilhar, não tenhamos ilusões; segunda, que o caminho mandado trilhar pela troika cria uma ilusão de futuro mas, como acabaram os tempos de ilusões, conviria perceber que, sem crescimento, a troika nos afundará afinal mais e mais. Eis a quadratura do círculo no seu estado puro.

Angela Merkel faz também a apologia do Portugal-bom-aluno. Vejam Portugal - diz ela à Itália e à Grécia -, está a cumprir como deve ser os ditames de compressão dos salários e de encurtamento da economia. Assim é que é. Assim salvaremos o euro. Com milhões de europeus atirados para o desespero e para a indignidade, é certo, mas que havemos de fazer: acabaram os tempos de ilusões...

A rábula do Portugal-bom-aluno faz parte da estratégia de cordão sanitário à volta da Grécia. Nesta Europa autofágica que, sem outros horizontes que não sejam os da sua própria negação como projecto social, devora os seus mais frágeis, a dicotomia entre centro e periferia radicalizou-se. E o centro, a quem o Tratado de Lisboa deu a possibilidade de se assumir como directório governante, vai fazendo o ranking da periferia e tirando dele ilações. Ele há os cábulas, preguiçosos e, por isso mesmo, condenados a figurar na lista de Estados falhados - a Grécia - e há os bons alunos, reprodutores abnegados das doutrinas mais convenientes que assumem que, para eles, acabaram os tempos de ilusões e que agora chegou o tempo de agradarem a quem manda mostrando como são tão diferentes dos falhados - Portugal, para Cavaco Silva, para Passos & Portas e para Merkel. É um falso ranking: morrerão uns e outros. Mas aos últimos valerá entretanto a ilusão (ooops, ele há algumas que afinal convém manter) de que se salvarão. Eis a doutrina: salvamo-nos se formos bons alunos. Mesmo se aquilo que o professor nos ensina for a nossa destruição.

A juntar a esta efabulação ideológica, a rábula do Portugal-bom--aluno está a cultivar entre nós um discurso totalmente perverso sobre a chamada "paz social". É o rosto policial da dita rábula. Trazido por Passos & Portas, ele assenta nos relatórios das polícias e das secretas sobre o previsível incêndio das ruas, transformadas em lugar de tumulto. E, mais que tudo, formata-nos na convicção de que o que afunda os gregos é a mistura entre preguiça e tumulto, nunca a receita dos salvadores. Cultivemos pois a paz social, aconselham os arautos da rábula do bom aluno. É a paz da quietude, do assentimento bovino, aquilo que nos aconselham, a paz do quanto menos ondas melhor que a nossa política é o trabalho, o trabalhinho muito lindo. A paz de um tempo em que se acabaram todas as ilusões. Excepto uma: a liberal.

Pois eu, que sou um teimoso crente em ilusões, acho que um dia, quando se fizer a história do Estado social, do modelo social europeu, enfim, dos direitos sociais fundamentais, o rigor mandará que se conclua que a rua grega foi um baluarte de defesa dessa réstia de dignidade e que a quietude foi cúmplice dos seus agressores. E que a paz social verdadeira é muito mais a que defendem os insubmissos que teimam em não prescindir de um Estado amigo da dignidade do que a que querem os amigos dessa contradição nos termos que é a "austeridade digna".