quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Quando morre um amigo da Nação

Portugal e a Europa enlutam-se. O deposto ditador líbio Muammar Khadafi, amigo, entre outras, da diplomacia portuguesa , foi hoje morto em Sirte, anunciaram comandantes militares do governo de transição na Líbia. A vergonha não morre nem se apaga quando morre um ditador. Não morre e deve recordar-se, para que as memórias curtas não permitam reedições do tratamento de amigo que lhe foi dispensado pela nossa diplomacia a outros ditadores. Recordar, por exemplo, aqui e uma de muitas explicações para tanta devoçãoaqui.

3 comentários:

vinhas disse...

Khadafi foi sempre um querido! Evitou a entrada massiva de africanos na Europa. Mandava-os fazer o caminho de regresso a pé pelo deserto. Por isso ele era foi tão nosso amigo.
E agora estamos lá outra vez (a França e Inglaterra entenda-se a "ajuda-los" com esta chatice que é o petroleo.

bruno disse...

A Helena Damião também tem dois posts relevantes sobre este assunto no De Rerum Natura:
http://dererummundi.blogspot.com/2011/10/era-o-presidente-dum-pais.html

e

http://dererummundi.blogspot.com/2011/10/tudo-em-grande-plano.html

Um sobre como ele até há bem pouco tempo era perfeitamente apaparicado por todas as nossas elites, e outro sobre como, como já tinha acontecido com o Bin Laden, toda a sociedade ocidental parece esquecer-se dos seus valores.

Anónimo disse...

Khadafi afirmou desde o primeiro dia da agressão que resistiria e lutaria com o seu povo ate à morte. Honrou a palavra empenhada. Caiu combatendo. Que imagem dele ficará na Historia? Uma resposta breve à pergunta é hoje desaconselhável, precisamente porque Muamar Khadafi foi como homem e estadista uma personalidade complexa, cuja vida reflectiu as suas contradições. Três Khadafis diferentes, qu...ase incompatíveis, são identificáveis nos 42 anos em que dirigiu com mão de ferro a Líbia. O jovem oficial que em 1969 derrubou a corrupta monarquia Senussita, inventada pelos ingleses, agiu durante anos como um revolucionário. Transformou uma sociedade tribal paupérrima, onde o analfabetismo superava os 90% e os recursos naturais estavam nas mãos de transnacionais americanas e britânicas, num dos países mais ricos do mundo muçulmano. Mas das monarquias do Golfo se diferenciou por uma política progressista. Nacionalizou os hidrocarbonetos, erradicou praticamente o analfabetismo, construiu universidades e hospitais; proporcionou habitação condigna aos trabalhadores e camponeses e recuperou para uma agricultura moderna milhões de hectares do deserto graças à captação de águas subterrâneas. Essas conquistas valeram-lhe uma grande popularidade e a adesão da maioria dos líbios. Mas não foram acompanhadas de medidas que abrissem a porta à participação popular. O regime tornou-se, pelo contrário, cada vez mais autocrático. Exercendo um poder absoluto, o líder distanciou-se progressivamente nos últimos anos da política de independência que levara os EUA a incluir a Líbia na lista negra dos estados a abater porque não se submetiam. Bombardeada Tripoli numa agressão imperial, o país foi atingido por duras sanções e qualificado de «estado terrorista». Numa estranha metamorfose surgiu então um segundo Khadafi. Negociou o levantamento das sanções, privatizou empresas, abriu sectores da economia ao imperialismo. Passou então a ser recebido como um amigo nas capitais europeias. Berlusconi, Blair, Sarkozy, Obama, Sócrates receberam-no com abraços hipócritas e muitos assinaram acordos milionários, enquanto ele multiplicava as excentricidades, acampando na sua tenda em capitais europeias. Na última metamorfose emergiu com a agressão imperial o Khadafi que recuperou a dignidade. Li algures que ele admirava Salvador Allende e desprezava os dirigentes que nas horas decisivas capitulam e fogem para o exílio. Qualquer paralelo entre ele e Allende seria descabido. Mas tal como o presidente da Unidade Popular chilena, Khadafi, coerente com o compromisso assumido, morreu combatendo. Com coragem e dignidade.