sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pato-bravismo 1970-2011

Durante anos, mercê da especulação imobiliária e de um desordenamento do território que remunerou interesses bem colocados junto do poder político, foram sendo construídas selvas de betão ao redor das cidades. O processo enriqueceu, entre outros, o especulador que conseguiu a alteração do PDM que, ao transformar o seu terreno agrícola no local ideal para construir, fez o seu preço multiplicar-se por uns milhares , o autarca com dotes de magia para operar a dupla transformação, o construtor, o fornecedor de materiais de construção, o vendedor do imóvel a menos de metade do preço praticado na cidade e múltiplo do seu justo valor, o banco que financiou as obras e as aquisições das belas habitações e os popós para chegar até elas, o vendedor dos ditos, a gasolineira e todos os que passaram a auferir uma renda proporcionada por uma auto-estrada que nunca se construiria não fosse o dia em que os dois primeiros descobriram como enriquecer distribuindo felicidade pelos (de outra forma) improváveis novos elementos da classe de "ricos" proprietários imobiliários. Uns ganharam muito, outros alguma coisita e outros ainda apenas uma vaidade efémera, uns metros quadrados num caixote, hoje deflacionados, uma dívida ao banco para o resto da vida e uma incerteza crescente quanto à capacidade de poder pagá-la. E perdemos todos os que hoje pagamos o restante da factura.


Agora que o negócio está concluído, os transportes públicos, se existirem, já não necessitam de ser baratos para tornar o produto atractivo e, pelo mesmo motivo, também já não é preciso que as vias de acesso sejam grátis. Está tudo ou quase tudo vendido. O Governo vai aumentar brutalmente o preço dos transportes e passará a cobrar portagens nas cinturas urbanas de Lisboa e do Porto. E os defraudados consumidores finais sentem-se ultrajados, protestam, mas apenas por este último capítulo de um negócio perfeito. Quem, um dia, se ocupe da árdua tarefa de contar a História do pato-bravismo não pode deixar de mencionar este assinalável pragmatismo tuga. Eu quase me esquecia dos muitos incentivos à compra de habitação própria e do crédito facilitado por aqueles que agora se queixam de ter enriquecido acima das nossas possibilidades. Não faz mal. Ficou para o fim.


Adenda: ver aqui o que aconteceu aos rendimentos de 15 ex-governantes, antes e depois do trampolim para a riqueza.





Sem comentários: