terça-feira, 18 de outubro de 2011

O carrasco, os amansadores e uma credibilidade muito esquisita

O entrevistador forçou a pergunta e sugeriu 50 mil despedimentos. Vítor Gaspar optou por uma resposta cautelosa e disse que o valor dos cortes do subsídio de férias e de Natal equivaleria ao de 100 mil despedimentos, fazendo ainda a ressalva de que a medida seria inexequível porque , a ser tomada, não produziria efeitos orçamentais no imediato em virtude das indemnizações que haveria que pagar. E, no dia seguinte ao da entrevista, em toda a imprensa escrita, estações de televisão e rádio a mensagem é que “alternativa aos cortes nos subsídios seria despedir 50 a 100 mil funcionários, diz Vítor Gaspar”. O carrasco tem porta-vozes e nem precisa de fazer ameaças. O desmantelamento do nosso edifício social é um trabalho de equipa. Trabalham muito bem.


Temos, assim, que para consumo da resignação a equipa produziu um “têm muita sorte em ficar sem dois salários e manter o emprego”. Para a inquietação, fica a correlação entre os salários agora encolhidos e indemnizações por despedimento mais em conta. Para a economia em geral e para o comércio em particular, deixam uma quebra de vendas que será uma fábrica de desemprego em larga escala. E, a pairar no ar, deixam a promessa de um desastre ainda maior, a anunciar à hora do costume, às 20, uns dias depois da próxima “descoberta” de mais um dos muitos buracos que eles encobrem adiando a auditoria que esconde os 37 anos de poder absoluto para fazerem as trafulhices que os enriqueceram e continuam a enriquecer acima das nossas possibilidades. E entendamo-lo bem, foram e serão todas "reformas necessárias”, “medidas extraordinárias” e “sacrifícios essenciais” a bem de uma credibilidade muito peculiar que se constrói com o cimento da pobreza generalizada, com os tijolos de uma riqueza livre de impostos e cada vez mais concentrada e com os alicerces num passado que não lhes interessa seja conhecido. Andam a chamar credibilidade à roubalheira.

(editado)

1 comentário:

Anónimo disse...

O Ministro das Finanças fez ontem do cumprimento da lei uma falácia. Ciente de que a Constituição estabelece que qualquer corte salarial no Estado só pode ser temporário, Gaspar disse que a retirada de 2 meses de salário aos funcionários públicos é temporária, apenas "por imposição do quadro legal nacional". Tradução: tem que se dizer que é temporário para não haver encrencas legais com coisas menores como a Constituição da República; mas só para isso, porque o corte é definitivo.