sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Gostei de ler: "A RUA"

«Ao longo de séculos, foi graças à sua germinação, defesa e refrescamento nas ruas e nas praças que a democracia assumiu depois os seus rostos institucionais. O parlamentar, por exemplo. Uma história da democracia que não faça jus a essa centralidade da rua na construção continuada da democracia é o primeiro passo para a sua desvitalização. Mais até: os discursos que cultivam uma suposta inimizade entre a rua e a democracia representativa são, de facto, pouco amigos da democracia. Venham de onde vierem.


Em Portugal, são essencialmente dois esses discursos que ensaiam uma contraposição entre a democracia representativa e a rua. O primeiro é o que glorifica a rua para anatematizar os representantes. É o terreno cultivado pelos populismos vários, que adormece a cidadania e a sua mobilização transformadora num desdém indiferenciado pelos "políticos", todos amalgamados na mesma narrativa de desqualificação pessoal e programática que, em última análise, tem a própria democracia representativa como alvo. Esse discurso, seja na sua versão de inflamação revolucionária seja na de regeneração moral da esfera política, faz as delícias de quem, à distância, manda a sério na política que decide, sem ter de prestar contas por ela e pelas suas consequências nem sequer de ir a votos. A candura com que quem lhe dá voz contrapõe os "políticos" às "pessoas" não gera menos que buracos negros políticos. Para essa antimatéria virar matéria serve-se um cocktail de apologia da multidão como novo sujeito político num copo de basismo sem programa nem horizonte. Mas o efeito da bebida não é melhor que o equívoco que ela quer fazer esquecer: em ambos os casos, são más notícias para a democracia.


O segundo discurso é o que glorifica a rua árabe, como antes glorificou a rua polaca ou moscovita, ao mesmo tempo que lança anátemas sobre a rua lisboeta, madrilena ou nova-iorquina, argumentando que enquanto aquelas lutaram corajosamente pela democracia estas não são mais que manifestações inconsequentes de subculturas juvenis. Em última análise, para quem perfilha este discurso, a rua que, em democracia, clama por mais democracia é antidemocrática. É, pois, um discurso de alta intensidade ideológica que assume com soberba a democracia como modelo cristalizado, de uma vez por todas, que, juntamente com mercado e Ocidente constituirão faces inseparáveis do mesmo universo de referências. Ora esse traço ideológico impede os seus arautos de compreender que o mercado é hoje uma ameaça maior para a democracia porque não só está a esvaziar o conteúdo útil da sua componente representativa como a está a privar de uma dimensão económica (os serviços públicos, os direitos sociais) sem a qual a democracia política conviverá com autoritarismo social. No seu profundo conservadorismo ideológico, este discurso não sabe ver na rua lisboeta ou na madrilena um contributo inestimável para o revigoramento da democracia. Porque, indisfarçavelmente, não quer esse revigoramento.


A rua - em Tunes como em Lisboa, no Cairo como em Washington - é mais do que aquilo que qualquer destes dois discursos lhe reservam. Mostrar que ela é esse lugar de respiração da democracia, contra os iluminados e conservadores que a querem sufocar, é o grande desafio feito aos movimentos sociais e aos cidadãos todos. E mostrá-lo com a força da não violência dobra-lhe o crédito. Porque lutar contra a violência social imposta pela austeridade, pela precariedade e pela regressão dos direitos de um modo que não a mimetiza por outros meios desarma definitivamente os seus detractores. Seja na rua, seja onde for.» - José Manuel Pureza

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