sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Estúpidas garrafas

Não consegui dormir. Na cozinha, uma garrafa de água passou a noite aos berros, a gritar o que pensava sobre a mãe da garrafa de vinho que dormia ao lado. A estúpida da garrafa de água não percebe que o errado não é o vinho continuar a ser taxado a 6% e sim a água passar a ser taxada a 23%. As garrafas são piores que os animais, não têm qualquer tipo de solidariedade ou consciência colectiva. Não têm “nós”, não passam do “eu”: a garrafa de vinho parecia feliz por ser a de água e não ela própria a pagar os buracos do Alberto João e quejandos.


Mas descanse a garrafa de vinho. Calha a todos. Há uma auditoria à dívida portuguesa que, enquanto não for feita, há-de permitir, produzindo alternadamente alívio e felicidade, a desforra, a desforra da desforra, a desforra da desforra da desforra e assim sucessivamente. Há-de sempre aparecer mais um buraco, uma garrafa para pagá-lo e sempre, sempre, sempre uma desculpa para que quem enriqueceu a cavá-lo não seja descoberto. É duro ser garrafa e não perceber uma coisa tão simples. Enquanto houver garrafas assim, ninguém se pode dar ao luxo de dormir descansado.

1 comentário:

Anónimo disse...

No dia em que o Governo aprova o Orçamento de Estado, o tal que é o mais difícil de sempre, o que vai além do PEC IV, do memorando assinado com a troika, dos PECs apresentados no Verão, e vai mesmo além do Documento de Estatégia Orçamental apresentado há poucas semanas, sabemos que, afinal, a austeridade tem dias. Foi hoje publicada em Diário da República a Portaria que aumenta (de € 80 080 para € 85 228) a verba a ser paga por turma às escolas privadas com contrato de associação definida pelo anterior Governo e que faz parte do memorando de entendimento.



É preciso não esquecer que esta verba aumenta apesar de, entretanto, as obrigações da escola pública terem diminuído. É preciso não esquecer que esta verba aumenta no exacto dia em que serão aprovados cortes brutais na educação que foram, como muitas medidas do OE para 2012, divulgados selectivamente, até na imprensa internacional.



É absolutamente intolerável que no dia em que o Governo diz a todos os professores, a todas as escolas, a todos os pais que os cortes na educação são essenciais e inadiáveis, porque não temos dinheiro para tudo, nos diga que sim, que para alguns há mais dinheiro, mais dinheiro para menos serviço educativo; mais para menos. As brincadeiras montadas em campanha eleitoral compensaram.



É absolutamente inaceitável, mas não é tudo. As regras aprovadas pelo anterior Governo, que fazem parte de um acordo assinado com as associações do sector, definiam uma redução do número de turmas com contrato de associação, adaptando-as às reais necessidades. Esta redução foi baseada num estudo de rede que é público. Ora, o Ministério da Educação propõe um novo estudo, que adia para o próximo ano e, suponho, com isto terá adiado também os cortes já decididos. Feitas as contas: o Estado pagará mais dinheiro, para menos serviços e alguma desta despesa é duplicada.