domingo, 16 de outubro de 2011

Duplamente indignado

Porque entendo que a faca do poder continuará a entrar nos nossos salários e nos nossos direitos sociais e laborais como se fossem manteiga se as pessoas não demonstrarem a sua insatisfação, ontem juntei-me à manifestação de indignados que teve lugar também na minha cidade, Coimbra. Encontrei gente de todos os géneros e idades, em número que superou as minhas melhores expectativas. Gostei daquela comunhão que une as pessoas, gostei da forma pacífica como decorreu, mas detestei o discurso anti-democrático que, ao final, se instalou na assembleia popular, ou o que raio era aquilo. Expulsou-me dali. Fui para a manifestação com uma indignação do tamanho do mundo. Regressei de lá com duas.


E, sim, expulsou-me. A mim e a outros que se indignaram com a indignação que por ali se viu. Agora, estamos duplamente indignados. É que os discursos eram de uma pobreza, falta de cultura política, democrática e até histórica atrozes. Porventura, haveria para ali muito boas intenções, mas a ignorância fanfarronava-se, atrevida.


Confesso-o, não convivo lá muito bem com aquela tipologia de indignação que faz de Pedro Passos Coelho um sósia de Francisco Louçã, não nota qualquer diferença entre Paulo Portas e Jerónimo de Sousa e confunde o José Manuel Pureza com o Pato Donald. Não me revejo em falácias como aquela que, começando por transformar em heróis nacionais os 60 e tal por cento de portugueses que desprezam a democracia sempre que esta os chama para decidirem o futuro do país que deixaram chegasse ao estado em que está, rapidamente transforma depois os 500 que ainda ali estavam nessa maioria para legitimar o direito a exigir não percebi bem o quê e como. E tenho fortes suspeitas de que aqueles indignados de Coimbra também não.


Indigna-me esta indignação. Não corresponde a democracia nenhuma: é precisamente a face de um seu contrário. Também não é a solução: não saber e, sobretudo, a arrogância de não querer saber usar a democracia É precisamente o problema. Como tal, nos moldes em que decorreu em Coimbra, que foi a que presenciei, não contem comigo para outra. Voltarei a sair à rua, sim, quando o protesto seja convocado por quem sabe o que quer e tem um trajecto político merecedor do meu reconhecimento e da minha inteira confiança. Dar força a um movimento que é uma nebulosa que, com a habilidade necessária para capitalizar o desespero, pode transformar-se rapidamente na maior das perversões, estou fora. Precisamos de mudar, sim, mas para melhor. É na democracia que estão as respostas. E quem ainda não sabe vivê-la e não aprendeu ainda a usá-la está bem a tempo de se recuperar para toda a indignação que nos faz falta para reconquistar o direito a uma existência digna.

2 comentários:

Fernando Vasconcelos disse...

Subscrevo inteiramente. Não posso fazer uma avaliação em primeira mão do conteúdo das manifestações mas posso dizer-lhe que pelo que descreve teria exactamente a mesmíssima opinião. Não deitemos no entanto o bebé fora com a água, acreditemos que possa ter sido só azar ...

André Mano disse...

Ehpa!!! Finalmente!! Já começava a pensar ser o único a ver isso! Estive em Lisboa e foi precisamente isso que testemunhei! Análise perfeita e sintética! Também gostei muito da marcha e da comunhão, mas a verdade é que grande parte daquelas pessoas recusam a democracia... É como dizes: por no mesmo saco todos os políticos é de uma ignorância atroz... Vou divulgar, parabéns pelo teu blog.