quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A claque

Ontem à noite, antes mesmo do desfecho de mais uma “cimeira histórica”, e esta manhã, ainda estremunhados, todos fomos bombardeados com uma versão entusiasmada sobre “resultados palpáveis” que finalmente determinam uma saída para o momento difícil que a Europa atravessa. No meu zapping histórico de ontem, isto era o que se via em todas as estações. E, no meu momento zen histórico da manhã,, a euforia do comentador transportou a audiência directamente para uma vomitadora dos desce e sobe das bolsas mundiais. Subida histórica. Se amanhã descerem, não tem importância. O que importa é que quem ouça assimile que os santíssimos mercados gostaram da última trapalhada histórica.


Entre dois plops históricos, rebobinei os nomes das figuras que se foram perfilando no aplauso. Eram os mesmos que puseram o douto comentário ao serviço da consagração do Tratado de Lisboa como o trampolim para este presente seu resultado, o futuro mais risonho que vaticinaram para o presente de então.. A claque tem uma credibilidade à prova de realidade.


No meio disto tudo, nem uma palavra sobre pessoas, vidas, dificuldades. Todo o espectáculo está montado no pressuposto da aceitação geral de que o amanhã será pior do que o hoje e de que o depois de amanhã será ainda pior. Já estava. Carreguei no botão. O autoclismo encarregou-se de levá-los de volta a casa, num regresso histórico. Havemos de encontrar-nos outra vez, tenho a certeza. Haverá outras cimeiras e a claque faz parte do show. Detesto lombrigas.

2 comentários:

Anónimo disse...

Grande texto...

Arame Farpado disse...

Os principais resultados da cimeira europeia são os seguintes:
- Perdão de 50% da dívida grega detida por privados.
- Recapitalização da banca.
- Aumento do fundo de resgate financeiro para 1 bilião(?) de €uros.

Na minha opinião estamos perante um problema muito sério. No que toca ao perdão da dívida grega não estamos a dar uma grande prenda aos helénicos. Esta medida tem um potencial negativo muito grande porque por si não é solução, coloca a Grécia na lista negra dos mercado e sem capacidade de financiamento e parece-me sinceramente que são os preparativos para a saída da Grécia do euro.

Sobre os outros pontos, num âmbito geral o meu comentário é de que nada disto chega. Não chega não por ser pouco, embora seja, mas não chega sobretudo por ser errado.

Na minha opinião apenas se criou mais um mecanismo para protelar a situação, ao invés de a resolver. Permite, por exemplo, a compra de dívida directamente aos Estados nos mercados primários e secundários. É, na prática, uma nova linha de crédito para países com dificuldades sem no entanto resolver os motivos pelos quais os Estados chegaram a este ponto, o que significa, infelizmente e sem prazer o digo, que os problemas não acabaram e poderão ainda aumentar.

Se calhar estaria na altura de o BCE funcionar como um verdadeiro Banco Central por oposição a ser um mero agente de regulação da inflação na zona euro, sacrificando tudo para a manter abaixo dos 2% e com o fazê-lo de forma talibanesca e sem compensação, afogar a economia.
Sem crescimento económico todos os problemas estruturais desta união monetária são exponenciados e qualquer tentativa de resolução seguindo mais do mesmo está condenado, evidentemente, ao fracasso.

A saída que apontarão como inevitável e inultrapassável para tudo isto será o quarto ponto que faltou na conclusão da cimeira que esta madrugada terminou:
Federalismo, Governo Europeu e uma "espécie" de plano Marshall.

Acontece que, para concluir, pessoalmente não me revejo num projecto europeu que nasça desta forma e sobretudo com este catastrofismo que parece cada vez mais servir os planos de alguém.

Não me posso rever numa Europa que não vise uma Democracia Económica, uma Democracia Social, com integração dos Povos.

Não me posso rever numa Europa que se sustente no aumento da precariedade, à custa de uma trágica redução dos direitos básicos dos cidadãos com o único objectivo de salvaguarda do capital.

Mas também vai daí nunca ninguém me perguntou qual a Europa que quero e nem sequer, se quero fazer parte.

Tomei a liberdade de o linkar aos blogues da minha Ira Lusa.

Acredito que quantos mais formos a denunciar que este caminho nos leva ao abismo, mais hipóteses temos de que alguém nos ouça.
Cumprimentos.