sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Avançar é em frente

Quem quer uma mina de ferro em Torre de Moncorvo? A Rio Tinto parece que quer e está disposta a investir vários milhares de milhões de euros. O Governo também parece que quer, ao ponto de estar disposto a despender nas acessibilidades exigidas para o negócio uma quantidade bastante significativa de subsídios de férias e de Natal que roubou aos funcionários públicos, de RSI que retirou aos mais pobres entre os mais pobres e de subsídios de desemprego que subtraiu aos desempregados. Mas cria emprego, dirão os mais entusiasmados. Pois cria, empregos de alto risco pagos a salários cada vez mais miseráveis, para além de, porque o transporte do minério está previsto que passe pelo Douro, poder vir a destruir empregos na terceira região mais visitada por turistas em Portugal.


Como em qualquer negócio, há que pesar os custos e os proveitos económicos, sociais e ambientais, sem “achismos “ que desprezem as variáveis quantitativas e qualitativas envolvidas: será bom negócio deixá-los levar o nosso ferro e suportar o custo das acessibilidades que o possibilitarão a troco de 420 salários directos minimizados e 800 indirectos? A resposta, que passa por uma TSU que assumidamente pretendem diminuir drasticamente e pela ausência de qualquer componente tecnológica utilizável pela restante economia, conduz-nos à questão mais abrangente sobre o tipo de investimento estrangeiro que queremos em Portugal, se um que nos enriqueça a todos, se outro que se enriqueça do que os deixemos levar enquanto quiserem cá estar. E ainda agradecer que o façam. Já foi assim no tempo da quase escravatura, avançámos depois para uma sociedade mais justa que deixou de permiti-lo e, tudo o indica, recuamos novamente e… chamamos-lhe avançar. Mas avançar é em frente.

1 comentário:

Anónimo disse...

Laboratório Portugal
por JOSÉ MANUEL PUREZAHoje31 comentários



A direita que nos governa inventou um país de ficção para laboratório dos seus anseios de engenharia social e de experimentação económica. Se depois a realidade for trágica, culpa da realidade. Porque o que os livros que a direita que nos governa lê antecipam é a salvação, a ordem, a força. Tal como Friedman e os Chicago Boys no Chile de Pinochet, o que guia esta direita é uma fezada na recessão redentora (o "ciclo virtuoso", chamou-lhe Vítor Gaspar). E, numa mistura trágica entre transe místico e ansiedade juvenil de experimentar, esta direita prepara o sacrifício do País no altar das teses dos seus compêndios de discurso ideológico sobre a economia e sobre a sociedade. Promete o céu mas tem plena consciência de que o fogo alegadamente purificador trazido pelas suas obsessões é o do inferno. Para ela, pouco importa. É assim que os livros sagrados lhe mandam que se faça. E se, ao fundo, se adivinha o desastre, a direita que nos governa diz ao País que se comporte como personagem de tragédia grega que caminha para esse fim terrível guiada por um destino que se lhe impõe.

O primeiro sinal deste desvario foi a invenção das "gorduras". Meses a fio, a direita debitou a ladainha da cura dos nossos males pelo emagrecimento do Estado. Institutos atrás de institutos, serviços atrás de serviços, vinha aí uma depuração do aparelho de Estado com poupanças astronómicas que nos salvariam e musculariam a economia. Desmascaradas tantas fantasias de dieta revigorante, a verdade das coisas veio à superfície: do que a direita que nos governa quer realmente saber é de um Estado que é salários e pensões. O TGV que deixa de ser de alta velocidade e passa a ser de velocidade elevada, a trapalhada das Scut, os motoristas que saem e os ares condicionados que se apagam são adornos desta história. É ao osso que a direita quer ir. Ao osso que é o valor unitário do trabalho. Qualquer argumento lhe serve, mesmo uma mentira tosca como a da suposta superioridade dos rendimentos dos funcionários públicos por comparação com os do sector privado.

Depois veio a fantasia de que em Portugal se trabalha pouco. Fundamentação objectiva para essa apreciação foi coisa que a direita que nos governa dispensou porque o que queria era abrir caminho para mais uma experimentação. Ela aí está: mais meia horinha para cada um e uns feriadozinhos anulados e eis-nos na locomotiva da produção sacrificada contra a preguiça nacional. Mas a fantasia não vira realidade só porque se quer: sem reconversão da organização das empresas e da sua gestão e com o maior corte de que há memória na educação e formação, a produtividade adicional poderá até figurar nas estatísticas de Bruxelas, mas, na realidade, não acrescentará um milésimo ao que somos hoje. E, mais que tudo, é uma fantasia irresponsável: a sua única consequência real será o aumento do desemprego, como é óbvio, face à estagnação quer do mercado interno quer dos mercados exteriores.

A direita que nos governa está em estado de negação. Recusa-se a aceitar o que já toda a gente percebeu: que a realidade que as suas experiências nos trarão será de contínuo afundamento económico e de apodrecimento social. Negando, inventa: por exemplo, que teremos um aumento de exportações de 4,8% quando os nossos mercados de destino estão em contracção; ou que o desemprego subirá só 1% com o produto a descer o triplo. Tudo isto seria risível se não fosse de uma gravidade extrema. Porque, ao contrário do que dizem os livros que eles lêem nas faculdades, esta história não terá um happy end. No fim, as contas estarão mais desequilibradas (olhem a Grécia) e a exaustão a que estes experimentalistas nos condenam não nos permitirá retomar caminho.