quinta-feira, 1 de setembro de 2011

De regresso: um Agosto bastante simbólico, em 4000 e tal caracteres

Seguindo um guião sufragado em Junho, o Verão decorreu conforme o previsto, aproveitando o tradicional amolecimento geral que anualmente ocorre durante as férias concedidas a uma consciência colectiva já de si bastante mole. termina como começou, com cortes e mais cortes. Durante a governação Sócrates, havia PECs, I, II, III, IV, trimestralmente, cada um deles era apresentado, socialmente mais regressivo e mais severo do que o anterior. Passos Coelho acabou com este costume. A regressão social e o empobrecimento da maioria operam-se agora sem aviso prévio, ao sabor da surpresa e a um ritmo mais acelerado. Uma alteração sobretudo no estilo. Recordem-se os mais saudosos, Sócrates também assinou o guião que está a ser seguido.



Alguns destaques:



1. Khadafi, que até há bem pouco tempo era um dos muitos amigos da diplomacia portuguesa e europeia que nos enchem de vergonha, foi finalmente deposto. A guerra civil decorreu com o apoio da NATO. Como tal, ainda mal se disparavam os primeiros tiros e jorravam as primeiras torrentes de sangue, já os grandes interesses económicos haviam negociado o melhor futuro para o petróleo do país. Junto ao seu.



2. Na União Europeia, prosseguiram os encontros históricos quinzenais e os telefonemas, igualmente históricos, duas vezes por semana, sobretudo entre Ângela Merkel e Nicolas Sarcozi, encontros e telefonemas esses que, apesar de históricos, continuaram a não produzir qualquer solução para o problema de uma especulação que vai gozando de total liberdade para enriquecer à sombra das remunerações das dívidas soberanas que tem a capacidade de fixar. Os juros da dívida grega roçam agora uns inimagináveis 42%. E nem os sinais de forte abrandamento da economia europeia, Alemanha incluída, com Portugal a encabeçar a lista das quebras, alteraram um milímetro a desorientação que continua a ser vendida como a cura milagrosa de uma quimioterapia administrada a um moribundo analfabeto.



3. Por cá, prosseguem as aulas práticas sobre voto útil.



Do lado dos ricos, à boleia, entre outros, dos alemães “Ricos a favor de uma taxa de riqueza” sobre o seu próprio património, o tema da tributação das grandes fortunas fez o seu caminho no debate político nacional. E, convirá esclarecê-lo, não se trataria de pôr os ricos a pagar a crise e sim de pô-los TAMBÉM a contribuir na medida das suas possibilidades. Indagado sobre o assunto, rompendo o silêncio da grande maioria de milionários que não se dignou a responder, Américo Amorim, o homem que se tornou o detentor da maior fortuna em Portugal, mercê de um empréstimo de 1600 milhões euros que contraiu e não pagou (escusado será dizê-lo, pagámo-lo todos nós) junto do BPN, que depois comprou por apenas 40 milhões, veio a terreiro afirmar-se como um simples trabalhador razoavelmente miserável como forma de recusa a abordar sequer a ideia. O Governo resolveu a questão mediatizando um aumento simbólico em sede de IRS e IRC que não renderá mais do que a décima parte do subsídio de Natal confiscado a quem vive do seu trabalho e não detém património que se veja. Confortavelmente sentado sobre o poder conferido pelos votos que lhe foram confiados pelos voluntários para se sacrificarem na vez dos ricos, Passos Coelho foi bastante claro: consigo no poder, Portugal será sempre um paraíso fiscal para o património dos mais ricos. E não estou a falar da Madeira, esse paraíso do despesismo laranja onde foi detectado mais um buraco, este no valor de metade dos subsídios de Natal do esforço nacional do não sabemos o quê.



Também houve alas práticas sobre voto útil carregadinhas de simbolismo do lado dos mais pobres. Por exemplo, a electricidade e o gás deixaram de ser considerados bens essenciais. Apesar do aumento de impostos, os portugueses contam com uma Saúde com um orçamento bastante esquartejado. Aumentou o número permitido de crianças por metro quadrado e por educador e o recurso ao voluntariado, forçado ou apenas imbecil, será permitido como forma de suprir eventuais insuficiências de pessoal. O Governo aumentou brutalmente o preço dos transportes públicos e, um mês depois de tirar com uma mão a todos, fez uma festa com as migalhas que resolveu dar a quase ninguém, dando a esta propaganda descarada o nome de "Programa de Emergência Social".


E fico-me por aqui. Já estamos em Setembro e o mês adivinha-se pródigo em novos e variados simbolismos. Isto vai começar a aquecer.


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