terça-feira, 5 de julho de 2011

Ler os outros: "Quem ganha quando a política perde?"

«A ideia de que há uma única solução para o país - a receita FMI de austeridade - instala-se e somos todos chamados a colaborar "a bem da nação". Sacrifícios, injustiça, desigualdade, recessão, tudo deve ser aceite com "espírito de missão". Porque discordar é entrar em "jogos políticos", que só interessam aos partidos. Essa coisa que, pelos vistos, é formada por não cidadãos não civis e que só se representa a si própria.
Fernando Nobre abandonou a Assembleia da República, fazendo votos para que um dia o parlamento se "abra à cidadania". O Governo assumiu funções dizendo ter dado voz à "sociedade civil". E na comunicação social multiplicam-se os apelos para que se coloque "a política de lado" e nos unamos todos no esforço de "salvação nacional".
Enquanto isso, enquanto se isola o debate político e os partidos, um grupo de cidadãos civis, formado pelos donos dos grandes grupos económicos em Portugal, é escutado nos debates televisivos sobre o estado da nação. Com receitas desinteressadas, diz-se, sobre o futuro do país. As receitas que devemos aceitar sem contestação ou sofreremos todos ainda mais. Diz o novo Ministro da Economia e do Emprego, vindo directamente da "sociedade civil", que somos todos "uma equipa", a oposição deve esquecer as divergências e os sindicatos dar as mãos às confederações patronais.
Importa pois esclarecer alguns equívocos: os partidos são formados por cidadãs e cidadãos; o poder político não está na mão de militares e calar a divergência e o pluralismo políticos é viver em ditadura. Tudo isto deveria ser tão óbvio que escrevê-lo seria inútil. Mas infelizmente não é assim.
Hoje os combates centrais em Portugal e na Europa são dois: contra a bancarrota e em defesa da democracia. De facto, um combate com duas frentes. Porque a política da bancarrota se fortalece à medida que a democracia enfraquece. É agora, que nos dizem que o momento é de calar, que teremos de falar mais alto e reagir; reforçando os movimentos e activismos sociais e a participação político-partidária. Este é um confronto essencial: política e democracia contra a ditadura dos poderes não escrutinados.» - Catarina Martins

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