sábado, 9 de julho de 2011

Ler os outros: "Afinal, os mercados não são amigos dos nossos aspirantes a liberais"

«Os nossos aspirantes a liberais passaram os últimos anos a desenvolver uma teoria complexa de uma enorme profundidade ideológica: as coisas são como são. E pronto, é isto. Os mercados são como são. E sendo como são, só lhes devemos estar agradecidos por serem assim mesmo. São eles que nos emprestam dinheiro. E, como explicou o nosso Presidente, que é, ele próprio, como é, não devemos aborrecer os mercados. Porque se os mercados são como são, se ficarem aborrecidos são muito piores. E da mesma forma que os mercados são como são, as agências de rating, está visto, limitam-se a ser as mensageiras da realidade. Ela própria indiscutível, por ser como é.

Os nossos aspirantes a liberais sorriem quando falamos de especulação e ataques ao euro. "Ui, que malandros são os especuladores!", dizem com ar trocista. Os nossos aspirantes a liberais desprezam quem diz que as agências de rating se dedicam ao tráfico de influências que vai destruindo economias. "Sim, matem o mensageiro em vez de tratar da doença!", acusam. As agências só fazem o diagnóstico, acreditam eles.

Os nossos aspirantes a liberais chegaram ao governo. Apresentaram um plano de privatizações muito catita. Disseram que iam mais longe do que já era muito distante. E os especuladores, que são como são, nem quiseram saber. E os traficantes de ratings, que são como são, estão-se nas tintas. Ao contrário do que nos diziam os nossos aspirantes a liberais, o problema não era a credibilidade de quem fazia as propostas. Ao contrário do que sinceramente pareciam acreditar, o problema nem eram as propostas. O problema é que no casino a casa ganha sempre. E ou se põe fim ao jogo ou se sai de lá depenado. Quem acredita que a solução está em Portugal pode começar a preparar a falência e a saída do euro. Quem ainda não percebeu que a especulação também ganha com a nossa falência vive noutro tempo, quando o jogo era bem mais simples. Também se aposta na desgraça alheia. E os que estão a atacar o euro não esperam de nós soluções. Esperam apenas que nos verguemos. Com Sócrates, Passos Coelho ou outro qualquer. Eles querem lá saber...

A classificação da Moody's é um escândalo? É injustificada? É pouco fundamentada? Mas alguma vez foi séria, justificada ou fundamentada? Será que ainda ninguém percebeu a que se dedicam estas instituições? Para quem trabalham e como ganham a vida? O mais perturbante nos nossos aspirantes a liberais não são as suas "soluções". É mesmo a sua candura.» - Daniel Oliveira, no Expresso Online.

O mais perturbante nos nossos aspirantes a liberais é o apoio incondicional que conseguem  através dos média que detêm  de um povo desprovido de memória e senso crítico. Até há um par de meses, quem ousasse questionar as agências de rating era radical de esquerda, maluquinho, utópico e irresponsável. Hoje, questionar as agências de rating é qualidade indispensável para ser um bom patriota. A inconsciência geral nem sente a falta que fazem os deputados que arredaram ou deixaram arredar da Assembleia da República. O país caiu nas mãos dos eleitos para nos roubarem tudo a que puderem deitar mão.

2 comentários:

incorporeo disse...

Hm... e o que é o oposto de "aspirantes a liberais"?
Já agora, que proposta positiva apresenta neste seu texto, pondo de lado a evidente amargura de quem perdeu algo?

Filipe Tourais disse...

Que tal governante, político? Os aspirantes a liberais não governam nem fazem política, põem tudo nas mãos dos interesses económicos. Quanto à amargura de perder algo, não hei-de ser o único a senti-lo quando, dentro em breve, se provar que o suicídio económico que se iniciou apenas serviu para enriquecer uma minoria empobrecendo toda a restante sociedade. A Saúde, a Educação, os direitos laborais, os salários, a produção, , o comércio, o emprego também vai sentir-lhes a falta.