quinta-feira, 9 de junho de 2011

Travão nesses umbigos

Depois da derrota de Domingo passado, anda para aí uma histeria colectiva a gritar pelo rolamento de cabeças no Bloco de Esquerda. É muito fácil partilhar as vitórias. Quando se ganha, ganhamos todos. Saber lidar com as derrotas é que não é para todos. E esta, que não é apenas do Bloco, é de todos a quem farão falta os deputados que o Bloco perdeu, começou quando a crítica deixou de ter utilidade construtiva e passou a servir apenas para fazer inchar umbigos que cresciam ao ritmo das palmas que iam arrancando os comentários de finíssimo recorte técnico dos seus portadores.


E não é que tenha alguma coisa contra o debate de ideias. Pelo contrário. Entre o que mais gosto no Bloco está a sua tradição de debate. Mas o debate tem locais próprios para ser feito. Por sinal, o último grande debate até ocorreu pouco antes das eleições e dele saiu uma liderança com uma legitimidade inquestionável.


Porém, saber-se-á como e pelas mãos de quem, o certo é que a imagem que passou na comunicação social foi a de uma liderança fragilizada e de um partido dividido. E o que é que fizeram aqueles bloquistas mais mediáticos? Não trataram de afastar essa imagem. Não somos todos obrigados a pensar da mesma maneira, pois não. Mas usaram daquele silêncio que também fala sem destruir? Não. Juntaram-se à tarefa de desgaste dos outros.


Ficou bem à vista que o bloco está incomparavelmente melhor servido de liderança do que de comentadores nos média. Todos vemos os dos outros partidos a fazerem o seu trabalho e, se discordam, fazem-no com o recato devido. Não estou a pedir cabeças. Apenas o respeito que merece quem tanto trabalhou, mais do que todos, por um bom resultado, se pedir o apoio que sempre fizeram por merecer for pedir demasiado.


O Bloco sofreu uma pesada derrota, é verdade. Mas entre as suas causas não estão nem um mau programa, nem propostas incoerentes ou de qualidade duvidosa, nem uma campanha mal feita, nem um trabalho deficiente dos seus deputados, muito menos falta de capacidades ou de competência. Isto é que deveria valer. Não valeu e perdemos. Agora, vamos assumi-lo, reflecti-lo, digeri-lo. Há muito tempo. E Seria tão bom se não continuássemos a perder oferecendo aos adversários o espectáculo que se vê por aí. Travão nesses umbigos. E deixemos as chicotadas psicológicas para o futebol.

5 comentários:

Anónimo disse...

Quem tirou eleitorado ao BE foram os homens da luta. Apesar de não serem candidatos, servem na perfeição para gritar o descontentamento e o BE tornou-se redundante.

Filipe Tourais disse...

Isso seria assim se o BE servisse apenas para expressar descontentamentos. Mas essa descoberta fica para quando os portugueses sentirem quem escolheram a entrar sobre os seus salários e sobre os seus direitos como faca quente em manteiga e não houver resistência suficiente que os trave.

Hugo Fonseca disse...

Caro Filipe,

Entao na sua opiniao o que fara, no futuro longinquo, o Bloco sentir necessidade de mudar as caras ou as caras sentirem necessidade de deixar aparecer outras?

Filipe Tourais disse...

As mudanças de caras só fazem sentido ou quando um projecto se esgota, ou quando quem o lidera deixa de ter base de sustentação, ou quando revela falta de capacidades, ou quando as próprias pessoas deixam de estar interessadas em liderá-lo. Ora, no Bloco, não se passa nada disto. O partido recupera de uma derrota política, não de uma derrota intelectual. Que neste campo, mais tarde ou mais cedo, a História há-de encarregar-se de demonstrar de que lado está a razão.

Francisco Clamote disse...

Filipe,já lá vai o tempo em que a "fé" movia montanhas. Cumps.