quarta-feira, 1 de junho de 2011

A quem servem os abstencionistas e os "activistas" do voto branco e nulo?



voto em branco ameaça virar moda. Como qualquer moda, é frágil, superficial e passageiro. Mas como não gosto de modas, atiro-me ao desfile dos argumentos que pululam por aí:


1. "Não me identifico com nenhum partido". O voto em branco tem laivos de sectarismo. O eleitor não está disposto a aceitar um partido com o qual não se identifique em todas as vertentes e não perdoa os deslizes do passado. Por outro lado, por detrás do voto em branco está, muitas vezes, uma pretensa superioridade: "o meu voto é demasiado bom para ir para aquela gente".


2. "É uma forma de protesto contra a classe política medíocre". A classe política é uma construção nossa. Existe porque a maioria de nós abdicou da sua condição política, abandonando qualquer tipo de intervenção política e social, entregando aos políticos profissionais a tarefa de resolver os nossos problemas. Metemo-nos numa enorme alhada. E agora não só dizemos que a culpa é deles, como esperamos ingenuamente que, após uma chicotada de brancura, sejam eles a resolver o nosso problema.


3. "Serve para retirar legitimidade ao sistema". O voto em branco não tira nem dá nada precisamente porque vai vazio. O eleitor torna, de facto, o parlamento menos representativo, ao reduzir o número dos que escolhem os deputados da República. Mas ao mesmo tempo que tira representatividade aos escolhidos, reforça a sua impunidade na medida em que estes passam a depender de menos gente. Quanto menos legitimidade, melhor. Quanto pior, melhor. É um voto fraco, que não derruba nem elege ninguém.


4. "Quero ser independente dos partidos". O eleitor do voto em branco quer sentir-se puro e imaculado, para mais tarde poder dizer: "não tenho nada a ver com isto". Coloca-se à margem do problema como se o problema não fosse seu. Nosso. É bastante cómodo. Primeiro, não temos trabalho a escolher; e depois, não nos responsabilizamos pelas escolhas. É uma desistência. Decidam vocês que eu não sou capaz.


5. "O voto em branco é claro e transparente". Pelo contrário. É opaco. Não tem representantes, nem se sabe o que representa. Não vincula ninguém a nada. Quando o Parlamento tiver de votar a reforma da Segurança Social, a nacionalização de um banco ou a interrupção voluntária da gravidez, de que lado fica o voto em branco?


Enfim, sendo legítimo, o voto em branco imagina-se puritano. Recatado, gosta de se ver ao espelho. Vive bem com Deus e com o Diabo e, quando se chateia, o mais que diz é: "agarrem-me, se não eu desgraço-me". Acontece que de tão branco que é, torna-se maçador. Falta-lhe cor. Movimento. Dor. (daqui)

4 comentários:

Anónimo disse...

Desta vez não votarei, mas por uma razão diferente de todas essas. Eu QUERO que Portugal afunde. O edifício está muito mal construído. Quero que caia, e talvez dos destroços se construa algo mais sólido. Pode até sair algo mais torto, mas é um risco que estou disposto a correr.

Filipe Tourais disse...

O leitor é muito mais fino e inteligente, ultrapassa todas as explicações.

Abstencionista disse...

Há ainda um direito básico: o de não concordar e aceitar este pântano. E sendo assim tenho tanto direito quanto aos outros de votar em branco ou me abster. Mantendo integralmente a minha liberdade de criticar e agir, ao contrário do que pretendem muitos comentadores quando dão a entender que só os que votam tem direito depois de criticar! Só faltava essa.

Filipe Tourais disse...

De fora, sem se comprometer com mais nada do que com a tolice que lhe inspire o momento, e sem dar a cara, no anonimato, é fácil, muito fácil. Mas concordo consigo. A nossa CRP dá plena liberdade de expressão até aos imbecis. Vá lá à praia, que eu vou votar.