sábado, 4 de junho de 2011

Campismo fora do parque, em democracia

Três pessoas foram detidas esta tarde, por volta das 15h00, no Rossio, em Lisboa, quando participavam numa assembleia popular promovida pelo movimento Democracia Verdadeira Já. Segundo Renato Teixeira, da organização, a PSP alegou uma ocupação ilegal da Praça para apreender fotografias, material de som e boletins para um “referendo popular” que estava previsto acontecer ao longo do dia de hoje. “Sente-se representado no actual sistema democrático?” era uma das perguntas dos boletins.


Tenho profunda aversão por comportamentos que apenas revelam inaptidão para usar a democracia. No caso presente, estamos diante de dois exemplos. De um lado a polícia, a reprimir com uma violência exagerada um movimento que pacificamente faz dá uso à liberdade de expressão. Do outro, um grupelho de gente que, tão ocupados têm estado a fazer barulho, não tiveram tempo para ler os mais de 15 programas de outras tantas forças partidárias que a democracia lhes dá à escolha como destino para os seus votos nas eleições de amanhã.


O tempo não é elástico, pelo que até compreendo que eles, coitados, não se sintam representados por ninguém numa democracia que teimam em desconhecer e saber usar. E a democracia, desculpem lá, não é a vontade individual de 200 ou 300 almas. É colectiva. Tem regras. Uma delas é a da participação. Estes senhores e senhoras, ao não arriscarem por ninguém, nem mesmo por quem arrisca todos os dias por eles,, ao optarem por se porem à margem, arriscaram-se a que a polícia arriscasse por eles. Queriam espectáculo, protagonismo? Conseguiram. Nada mau para uma amálgama de inconsistências inconsequentes pejadas de imperativos estéticos.


Agora, palmas. E se até amanhã tiverem tempo para se inteirarem das diversas propostas que a democracia lhes oferece, se se dessem ao trabalho de se dirigirem a uma secção de voto durante o dia de amanhã, não seria nada mal pensado. Depois, se quiserem, criem uma nova ou juntem-se à força democrática com que se identificarem mais, mudem-na por dentro. Participem. Podem continuar a fazer barulho, mas, se não votarem, o barulho, só por si, de nada serve. Aprendemo-lo todos quando deixamos de ser bebés e a chantagem do choro deixa de resultar. Democracia verdadeira, já! Porque a vossa, para além de não ser nada democrática, resulta na perpetuação da distribuição de poderes no mundo que, dizem, só dizem, querer que mude.

14 comentários:

Anónimo disse...

Como sabe que não leram os programas?

Um burro como o senhor... disse...

"Is a democracy, such as we know it, the last improvement possible in government? Is it not possible to take a step further towards recognizing and organizing the rights of man?" (Henry David Thoreau, 'Civil Disobedience', 1849)

Anónimo disse...

A idade tem, de facto, o poder de limitar o sonho, velho conformado e formatado...

Filipe Tourais disse...

E como sabe que leram, se nunca se ouviram a debater nenhum deles? A transcrição que faz não será, com toda a certeza, parte de nenhum programa eleitoral de nenhum partido. Juntamente com os projectos de insulto, foi a forma que arranjou, assim à pressa, de se superiorizar. Sem assinar. Deve estar convencido que é um resistente na clandestinidade. Olhe, amigo, seja mas é como as pessoas. Deixe-se de lições de moral que usam o insulto e que não tem a hombridade de assinar e vá votar. Porte-se como um homenzinho ou mulherzinha que já há-de ter idade para isso.

Anónimo disse...

Ingénuo é quem pensa poder-se mudar um partido por dentro. De quem pensa que uma democracia formal corresponde necessáriamente a uma democracia efectiva. Que num país onde o capital se concentra em algumas pessoas só não faz quem não quer e quem se recusa trabalhar a troco de 400 euros é calão.

Anónimo disse...

As pessoas que melhor "usam" a democracia são as que têm secado a nossa economia.

Filipe Tourais disse...

Ingenuidade é pensar que já se sabe tudo e que quem não pensa como nós é sei lá o quê. Deixe lá, todos já fomos assim. Há-de aprender a lutar. Não deixe de o fazer.

Anónimo disse...

Recomenda que não se dê lições de moral dando lições de moral, é de rir. Não devemos ter a mesma concepção do que é ser Homem se para si para o ser é preciso abdicar de espírito crítico. Deve guardar o seu para comentar arbitragem de futebol ou as estratégias de markting dos partidos em campanha, que é o que é a política para si.

Filipe Tourais disse...

Já sei, lições de moral e espírito crítico é com o meu amigo resistente clandestino. OK. Eu quando for grande também quero ser um herói assim. A conversa termina aqui.

Fernando Vasconcelos disse...

Concordo em absoluto consigo Filipe. Além do erro de lógica o problema destas acções fora do sistema é que se esgotam no simples acto de contestação. Ou seja aglomeram pessoas com vontade de protestar pelas mais variadas razões mas que são incapazes de determinar qualquer plano de acção outro que não seja a simples contestação de "um sistema". Sistema relativo ao qual mesmo entre elas não seriam capazes de concordar com uma definição dos seus problemas e eventuais soluções . A mudança da democracia tem de ser feita por dentro e pode ser feita com coisas simples como por exemplo a mudança das regras de campanha eleitoral.

Filipe Tourais disse...

Exactamente, Fernando, não se percebe nem o que querem, nem o que não querem. Percebe-se a imitação dos movimentos do Maio de 68 e do Norte de África, forma e estética têm-nas. Mas conteúdo... Isto até pode parecer reacionário, mas apostaria que cada um daqueles umbigos estaria bem longe dali se tivesse um empreguito pago a 1000 euros. É o individualismo que vejo a passear-se por ali.

Anónimo disse...

Boa tarde,
não me parece sensato e digno de bom senso quem critica quem não conhece...Sr.Felipe e Sr. Fernando por acaso já foram ao Rossio tentar perceber o que se quer ou não quer?...sabem alguma coisa do que se passa ou conhecem alguèm de lá? já tentaram ler algo ou procurar?
eu arriscaria a dizer muito pouco ou nada, mas como vivemos numa democracia, são livres de criticar sem conhecer...felizmente, o que não quer dizer que por isso sejam pessoas de bom senso...
...e isso são duas coisas completamente diferentes
....acho apenas que se no rossio estao a ocupar o tempo a tentar comunicar ou arranjar soluções, por muito que não se resolva nada ou que não cheguem a nenhuma conclusão, nada disso é criticável, nada disso me incomoda, muito pelo contrário, exige esforço e por isso eu admiro.
E ninguém diz que por estarem ali não vão votar.

André Fernandes

Filipe Tourais disse...

Caro André, é a sua superioridade moral que lhe diz que não conhecemos o que se passa no Rossio. Quanto a votar, se vir bem, o herói anónimo anterior fala em tudo menos em votar. E se reparar melhor ainda, o discurso que tresanda do Rossio é anti-político. Os anti-políticos, por regra, não votam. A menos que os do Rossio sejam diferentes e isso não abonaria nada a seu favor... seriam uns anti-políticos da caca.

Anónimo disse...

Caro Sr. Filipe,
aqui se alguém está a falar de superioridade, moral ou não, não me parece que seja comigo, esse argumento não me serve a carapuça, nem o utilizei no meu discurso consigo...
...eu arrisco-me a dizer que você responde negativamente às perguntas que lhe fiz (e que não me respondeu), mas posso muito bem estar enganado, aliás, espero estar enganado...
...quanto ao "herói anónimo", eu não falo por ele, nem subscrevo o que ele disse...
...se fala em anti-política, não sei bem ao que se refere porque, ao que me consta, o que se fala no rossio são de pessoas, sociedade, leis, soluções, problemas...enfim, aquilo a que eu costumo chamar de política...
....se utiliza o argumento que por serem diferentes são de "caca", a unica coisa que posso responder é que é livre de insultar, mas como já referi, não quer dizer que seja de bom senso...
André Fernandes