domingo, 5 de junho de 2011

Bom povo português

Apesar da campanha eleitoral deplorável a que assistimos, ninguém poderá dizer que não sabia ao que ia quando hoje decidiu em quem votar ou não votar. Das cinco maiores forças partidárias, três ofereciam um prolongamento ainda mais penoso das dificuldades vividas nos últimos anos. As outras duas, outras tantas alternativas com o denominador comum do rompimento com um historial de 37 anos de apostas erradas, das quais resultaram ganhadores e perdedores bem definidos e uma série infindável de negócios muito pouco limpos.


E os portugueses não quiseram mudar de vida. Pelo contrário, a direita reforçou o seu score de 2009, com a nuance importante de uma substituição de José Sócrates por uma dupla formada por Passos Coelho e Paulo Portas. O PS, vítima de si próprio, sofreu uma pesada derrota. À esquerda, a CDU cresceu um pouco e o Bloco desceu imenso. Descida mais do que natural, todos vimos qual foi o inimigo público número 1 da preferência dos comentadores de serviço, qual foi a força partidária que menos tempo de antena teve nos noticiários e qual aparecia sempre em último na ordem dos alinhamentos.


Temos, assim, que não haverá auditoria à dívida, pelo que ficaremos sem saber quem gastou o quê e quem ficou a dever o quê. Mas sentiremos quem vai pagar e quanto. Vai ser muito mais fácil despedir, encolher salários, aumentar impostos, descapitalizar a Segurança Social, baixar pensões, manter o sector financeiro fora da crise, engrossar a classe de rendeiros do país, privatizar recursos que são de todos e desmantelar serviços públicos. Os portugueses quiseram assim. Amanhã, começaremos a falar disso. Amanhã, já se pode falar nisso. Os votos já lá moram. A partir de agora, será cada um por si. Salve-se quem puder.

5 comentários:

Replica disse...

Hà que começar a trabalhar GAMELEIROS e a caça ás bruxas está aì.....

Fernando Lopes disse...

Eu, eleitor do Bloco me confesso ...
Filipe meu caro, está em estado de negação. A culpa da descida brutal do BE não foi da culpa imprensa e foi tudo menos natural. Sempre votei à esquerda, mas confesso que sou do tempo em que havia debate, e as vozes que pensavam diferente não eram ostracizadas.
1. Quando o momento pedia contenção, o Bloco correu para uma moção sem sentido.
2. Quando era preciso comparecer na reunião com a troika nem que fosse unicamente para protestar o Bloco ficou-se nas covas.
3. Quando era necessário uma união de esquerda com o PCP os partidos de esquerda reuniram-se protocolarmente. Os mesmos que tinha criticado Sócrates por ter feito o mesmo.
4. Quando era necessário ser abrangente e integrar vozes diferentes o Bloco ortodoxo vence. [basta ver as conclusões de ontem do querido Dr. João Semedo].
5. O Bloco limitou-se a ser um sucedâneo do PCP, quando pela sua vocação urbana e pelos seus ideólogos devia ir mais além.

A culpa não foi da imprensa ou dos eleitores, foi do acumular de erros estratégicos do Bloco, comandado e feito à imagem e semelhança de sexagenários, respeitáveis, mas que insistem em modelos de actuação desfasados da realidade.

Desculpe, mas tinha de dizer o que penso. E o BE precisa urgentemente de repensar-se como partido e como estrutura e não atirar-se à imprensa.

Abraço,
FL

Filipe Tourais disse...

É a sua opinião, não é a minha. Respeito, obviamente. Mas recordo-lhe como começou tudo: Francisco Louçã, interrompido na comunicação que fazia logo a seguir a Sócrates anunciar a demissão. E como terminou tudo: Francisco Louçã, interrompido na comunicação que fazia a assumir a derrota.Nem quando tudo estava já decidido teve direito a dizer o que tinha a dizer sem que as televisões lhe cortassem a palavra.
Desconheço que haja vozes ostracizadas no Bloco. Como em todos os partidos, há votações democráticas. É eleito quem reúna mais votos. Discordo que o Bloco tenha que ser como os os outros partidos que participaram da tal negociação onde não se negociou absolutamente nada: se a versão do deviam lá estar ficou no ouvido, tal deve-se à repetição exaustiva de que deviam ter lá estado nem que fosse para beijar a mão aos senhores.
E quanto ao acordo com o PCP com vista à formação de uma coligação única, também eu seria a favor dela. Mas aqui temos um acordo, não uma imposição. Não sei quem declinou coligar-se, se o BE, se o PCP, se ambos, ou sequer se a proposta esteve em cima da mesa.

Anónimo disse...

Completamente de acordo com o Francisco Lopes. Pelas razões que enumerou e não só, eu que votei BE em 2009, não lhe entreguei o meu voto nestas eleições. Não foi pelo desfavorecimento que possa ter tido por parte da comunicação social ou qualquer outro tipo de desinformação.

Filipe Tourais disse...

Tal como a mim, não foi a comunicação social que me inibiu de voltar a votar Bloco.