quarta-feira, 4 de maio de 2011

A mamã não morreu

O guião que aqui deixei, ontem pela manhã, foi seguido à risca, umas horas mais tarde. “A vossa mãe não morreu, mas partiu os braços, as pernas e algumas costelas”. À hora marcada, ontem à noite, José Sócrates leu ao país o teleponto com as excelentes notícias. Não disse que a mãe ficará paraplégica por muitos anos, demasiados mesmo, mas isso pouco importa. O mais importante é que não morreu, e todos a davam como morta.


O pai pensionista, que andou uma vida inteira a descontar para ter direito a uma velhice decente, vai pagar pelas parcerias público-privadas que, ao engordarem longe da sua vista a um ritmo alucinante, deixaram e continuarão a deixar a mãe impossibilitada de andar. A filha, que não andou a saquear o tal banco que deu o estouro por tanta rapina, vai ser castigada com três anos de congelamento do seu salário , cortado no episódio anterior desta morte anunciada. O filho, que pagava a protecção social para prevenir situações de desemprego involuntárias, vai ver essa protecção diminuída no valor e na duração, apesar de continuar a descontar o mesmo. E os bancos, esses velhos amigos, cujo aumento da mesada produziu a péssima notícia ontem tão felizmente desmentida, vão vê-la aumentada ainda mais, em muitos milhões. Os encargos são ainda desconhecidos, mas já se sabe que são para distribuir por toda a família. Entre todos, não custa nada.


Mais imposto, menos direitos, mais taxa, menos salários, até 5 de Junho, ficaremos assim. Depois, haverá total liberdade para tratar da saúde à mamã. Ai, se a tivéssemos amputado a tempo de pernas e braços, não teria partido um único osso. Pelo menos, não morreu. Já sabiam?

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