terça-feira, 19 de abril de 2011

Todos de mãos dadas para o buraco

O consenso anda no ar. Ouve-se, lê-se, até se consegue cheirá-lo. Parece que é como se dependesse de darmos todos as mãos pela amada Pátria. De os partidos se unirem em torno de uma saída política que será boa para todos. É como se as políticas pudessem ser neutras, como se fosse possível haver políticas sem haver beneficiados e prejudicados, como se houvesse uma fórmula universal para uma riqueza e para uma felicidade que vai sorrir a todos. É como se tivéssemos todos andado a viver em pecado, como se agora tivesse chegado a divindade castigadora para cobrá-los com juros a quem ouse cair na tentação de negar qualquer culpa e como se do seu pagamento, com ou sem juros, fosse resultar o direito ao lugar ao lado do Pai todo-poderoso.




Os turistas portugueses ocupam o quarto lugar no ranking das despesas realizadas com alojamento no estrangeiro, mas são dos que menos gastam quando fazem férias em Portugal. É como se o turismo fosse pecado, como se fossemos todos turistas, como se todos fizéssemos férias, como se os que têm dinheiro para fazer férias no estrangeiro fossem os mesmos que fazem férias em Portugal e como se tivéssemos todos que pagar com uma redistribuição do rendimento ainda mais desigual a pobreza que há muito proíbe férias à grande maioria.




As confederações patronais exigem à troika salvadora que os ajude a rasgar o acordo que firmaram de subida do salário mínimo para 500 euros. É como se o futuro do país dependesse de um enriquecimento feito à custa da fome de quem, apesar de trabalhar no duro, se vê cada vez mais agarrado à miséria.




A austeridade vai ter que continuar, mas não pode ser para as pessoas e sim para o Estado, que precisa de emagrecer. Temos que apostar na economia e no emprego”. É como se despedimentos mais fáceis não afectassem a vida das pessoas, como se o Estado não tivesse já emagrecido nas prestações sociais de quem mais dele precisa, como se a austeridade não tivesse levado salários a nenhum funcionário público, como se este poder de compra não tivesse reflexos na economia e no emprego, como se o Estado não fossem também pessoas e como se o desmantelamento de serviços públicos não afectasse a vida de ninguém.




Lamento muito a atitude da liderança do PSD que, em vez de se concentrar na defesa dos interesses do país, parece que continua com uma orientação que apenas tem como objectivo os seu interesses eleitorais mais próximos”, diz alguém, como se há muito não estivesse a fazer precisamente o mesmo.




Há partidos que se dispõem a participar em simulacros de negociações onde não se negoceia coisa nenhuma. Outros negam-se a fazê-lo. Mas é como se ser “responsável” se resumisse à arte de bem representar, como se não houvesse caminhos alternativos, como se os portugueses não tivessem o direito de conhecê-los tão bem como os da austeridade, como se estivesse tudo já resolvido antes das eleições, como se as experiências grega e irlandesa não bastassem para comprovar o erro, como se estivéssemos agora melhor se a "ajuda" externa tivesse sido pedida mais cedo, como se as políticas do FMI tivessem um único caso de êxito a assinalar.




Tantos “é como se”. Dou comigo para aqui a escrever sem parar, como se a maioria não estivesse já enredada neste jogo do “é como se”. Se PS, PSD e CDS não tiverem pelo menos 80 por cento dos votos nas próximas eleições, é como se o sol deixasse de nascer, as plantas se enterrassem em vez de crescerem e os rios e o mar evaporassem de uma só vez. O consenso anda no ar. Vamos todos de mão dada para o buraco. É como se fosse preciso ir ainda mais ao fundo para que se torne mais fácil sair dele. Mas a saída é do outro lado.

1 comentário:

A. Rodrigues disse...

Se a distribuição já era esta sem emprétimo do FMI... nem quero imaginar a festarola com mais 8 milhões por cidadão nas mãos dos mesmos de sempre!

http://inlusao.blogspot.com/2011/04/como-eles-gastam-o-nosso-dinheiro.html