domingo, 10 de abril de 2011

E se Portugal reeditasse a revolução islandesa?

"Quanto maior for o desentendimento [em Portugal], mais rigorosos seremos na exigência de um compromisso firme entre os diferentes partidos para a aplicação rigorosa do programa" de ajustamento económico”. A ameaça saiu da boca de um eurocrata no final de uma reunião de dois dias dos ministros das finanças da União Europeia na qual, no maior secretismo, o Governo português foi negociar, entre outros, os nossos empregos, os nossos salários, os nossos direitos laborais e os nossos serviços públicos a troco da “ajuda” económica exigida pelo sector financeiro.


A pressão aumenta para que PS, PSD e CDS se ponham de acordo em suspender a nossa democracia pelos breves momentos que demoraria à legitimidade democrática que não têm assinar a capitulação ao cardápio de malvadezes que este poder não eleito nos quer impor. Trabalha-se para antecipar uma decisão que apenas a legitimidade que é dos portugueses pode tomar, pelo voto, em eleições que, entre ameaças, se esforçam para esvaziar de quaisquer consequências práticas. E entende-se por quê.


A contestação anda à solta na Europa. Meio milhão contra a austeridade em Londres, 200 mil "à rasca" em Lisboa e 80 mil no Porto, 50 mil a exigir uma Europa social em Budapeste, dezenas de milhar a reclamar o direito a um futuro em Espanha e em Itália, mais umas quantas dezenas de milhar contra o “pacto pro-euro” em Bruxelas. Mais pacíficas ou mais violentas, houve e haverá cada vez mais manifestações de desagrado. Mas há uma ameaça ainda mais terrível a fazer tremer as cadeiras dos eurocratas.


Refiro-me ao exemplo islandês, claro. Nada pior para um autocrata do que um protesto consequente e levado até ao fim. O seu maior pesadelo, as revoluções que também se fazem com votos, como vimos e como eles também viram. E voltaram a ver ontem. É que os islandeses bateram novamente o pé a uma solução que comprometeria irremediavelmente o seu futuro e votaram maioritariamente a rejeição da nacionalização dos custos da delinquência banqueira pela segunda vez.


É esta centelha de esperança que querem apagar. É esta reacção o que o directório europeu tenta a todo o custo evitar que alastre e aconteça pela primeira vez em Portugal. Há que decidir tudo antes de 5 de Junho e limitar as escolhas que os portugueses façam nesse dia à cor das gravatas dos candidatos e ao timbre da sua voz. Daí a ameaça reiterada. E daí o secretismo que envolve as negociações. A prioridade é evitar uma derrota nas urnas que poria tudo em causa e seria o rastilho de uma mudança que temem: a Europa devolvida aos cidadãos. Acontecerá, mais cedo ou mais tarde, com ou sem violência, dependendo do que a irresponsabilidade decida arriscar. Oxalá me engane, palpita-me que o processo será tudo menos pacífico.

8 comentários:

Hugo Fonseca disse...

Espero que o Filipe esteja bem e goze saude para aturar mais este filme comico realizado, produzido e protagonizado por um tal de J. Socrates.

E excelente, o pais sem um tusto para pagar ordenados e despesa corrente e o nosso PM demissionario vai por
Portugal a falar, mentiras? aldrabice? porque que nao ha dinheiro? o que tera de se fazer para o pais sair do filme? nao, nada disso, JS vai explicar aos portugueses quem e o culpado da crise politica, e ainda, que por haver um culpado que nao pode ser ele, ele deve ser reeleito para cumprir com 10 anos de governacao.

Portugal nem daqui a 10 anos tera hipotese de crescer. Sera tudo feito a custa de vender o pouco que o estado tem, reduzir ordenados e pensoes para niveis de 1990 e aumentar mais uns impostos. Os portugueses vao voltar a emigrar como no fim dos anos 70 e os politicos continuarao a ganhar o seu.

Filipe Tourais disse...

Não, Hugo. O filme está a ser feito a quatro: José Sócrates, Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva.

Abraço

Ler aqui disse...

O Financial Times alemão (FTD) vem no dia 8 referir-se ao problema da negociação do “pedido de ajuda” de Portugal neste espaço de tempo antes das eleições. A questão que se coloca é a da representatividade e da legitimidade do actual governo demissionário para contraír obrigações com tanto alcance em nome do Estado Português. Levantam-se dúvidas, sobre se o governo que resultar das eleições de 5 de Junho ficaria vinculado e em que medida aos acordos que este governo faça agora, tendo sobretudo em atenção a composição do quadro partidário da Assembleia da República, que possa vir a saír das eleições.

Segundo o FTD, o conselho dos ministros das Finanças e a Comissão querem resolver o problema com duas medidas: a primeira é vincular, desde já, a oposição ao processo negocial. Para esse efeito, noticía o FTD que o comissário Olli Rehn quer falar pessoalmente com Pedro Passos Coelho.

Em segundo lugar, a oposição e o governo devem dar, agora, o seu acordo às condições do empréstimo. O ministro das Finanças finlandês, Jyrki Katainen, disse ao FTD que “todos os partidos importantes da oposição têm que assinar.”

O FTD conclui assim que, indiferentemente de quem vier a ganhar as eleições, a política de austeridade deve ficar desde já assegurada. Dito de outra forma: “aos eleitores já não ficará muito para escolher no dia 5 de Junho.”

Portanto, segundo a informação do FTD o objectivo é muito simples: conseguir, através de acordos prévios, que nas eleições de 5 de Junho os eleitores, na realidade, não possam decidir nada; que independentemente da escolha partidária que os eleitores façam, o resultado final seja sempre o mesmo!

cronicasdeutolandia@gmail.com disse...
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Hernani disse...

A AJUDA EUROPEIA.....

Há uma pergunta que se me martela na cabeça: Orase os Países Europeus estão à beira da falência, porque razão o BCE (Banco Central Europeu) empra o dinheiro a 1-2% SÓ aos Bancos locais, para estes emprestarem aos Estados a juros altissimos (ganhando com a crise) em vez de emprestarem directamente aos Estados????

Afinal são os BAncos que mandam nos Estados ou os Estados que mandam nos Bancos?

Hugo Fonseca disse...

Caro Hernani,

Nao compreendo a sua questao, e certamente retorica pois ja ha muito que os Bancos mandam nos Estados.

Quando os estados quiseram criar condicoes com base em emprestimos que nao poderiam pagar sem um crescimento nao verossímil. Assim os estados venderam as almas aos bancos, os bancos emprestaram sem moral nem limites e chegamos aqui.

Filipe Tourais disse...

Permita-me a correcção, Hugo: quando os bancos andaram a emprestar o que não podiam e os Estados caíram no erro e na injustiça de pôr os cidadãos a pagar os seus prejuízos quando tudo estourou. Eu não aceito isto nem que sejam os Bancos a mandar nos Estados. O Hugo por acaso não é banqueiro, não? É que, se eu fosse banqueiro, provavelmente diria o mesmo que diz.

Hugo Fonseca disse...

Caro Filipe,

Para grande pena da minha mulher nao sou banqueiro.

O Estado foi irresponsável, tal como foram os Bancos.

A parte divertida vai ser Passos e Socrates a tentar convencer os Portugueses de quem e o culpado da crise politica e enquanto se fazem 2 meses de festa o pais vai mesmo a falencia e o Governo nao faz acordos com ninguem. Pode ser que quando se acabar os primeiros a ficar sem salarios sejam os politicos.