terça-feira, 15 de março de 2011

A luta é alegria

Foi bonito. Nem apenas novos, nem apenas velhos, nem apenas trabalhadores do público, nem apenas trabalhadores do privado, nem apenas precários, nem apenas empregados, nem apenas desempregados, nem apenas do partido A, nem apenas do partido B. Havia de tudo. Por um dia, a propaganda da situação que coloca uns contra os outros para neutralizar reacções demonstrou-se impotente para desunir uma multidão de centenas de milhares que se manifestaram por todo o país. Todos em protesto contra a reconcentração de poderes que a democracia desconcentrou, contra a reconcentração de riqueza que o Estado social redistribuiu, contra os direitos laborais que, em nome de uma escravatura a que chama de progresso, a ditadura das inevitabilidades continua a alienar, reconcentrando uma prepotência que passou a pertencer ao passado graças a lutas sociais mais antigas.

Apenas Dois dias antes, no Parlamento, recorde-se, prova de que o poder político e os partidos não andam todos cegos e surdos ao povo que representam, o Bloco de Esquerda havia apresentado uma moção de censura às políticas contra as quais a multidão saiu à rua. Criticaram-na os mesmos agentes da situação que tentaram ridicularizar o protesto histórico de Sábado. E chumbaram-na o partido do Governo e a abstenção dos seus aliados. Um Governo que, no dia seguinte, anunciou http://www.publico.pt/Política/socrates-admite-demitirse-em-caso-de-chumbo-do-pec_1485005novos desenvolvimentos ao plano de austeridade que concertou com os candidatos a seus sucessores no poder de fazer tão mau ou pior, dos quais, tal como fizeram no Parlamento quando se abstiveram, imediatamente se demarcaram, criticando, com um palavreado de bom recorte técnico, políticas que até aí sempre apoiaram.

Depois, soube-se de um equívoco lamentável. O IVA sobre o golfe, essa necessidade básica dos mais ricos, subiu para 23 por cento. Um jornal garantiu que o erro será corrigido e o golfe será tributado à mesma taxa do pão e do leite. Reagiu quem reagiu e calou-se quem se calou, consoante o lado que representam. A luta é alegria.

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