segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia mundial da poesia

-se o amador na coisa amada, com seu

feroz sorriso, os dentes,

as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído

e silêncio. Traz o barulho das ondas frias

e das ardentes pedras que tem dentro de si.

E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado

silêncio da sua última vida.

O amador transforma-se de instante para instante,

e sente-se o espírito imortal do amor

criando a carne em extremas atmosferas, acima

de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.

E a coisa amada é uma baía estanque.

É o espaço de um castiçal,

a coluna vertebral e o espírito

das mulheres sentadas.

Transforma-se na noite extintora.

Porque o amador é tudo, e a coisa amada

é uma cortina

onde o vento do amador bate no alto da janela

aberta. O amador entra

por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.

O amador é um martelo que esmaga.

Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher

que escuta

fica com aquele grito para sempre na cabeça

a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve

e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito

do amador.

Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,

dá-lhe o grito dele.

E o amador e a coisa amada são um único grito

anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito

de amador. E ela é batida, e bate-lhe

com o seu espírito de amada.

Então o mundo transforma-se neste ruído áspero

do amor. Enquanto em cima

o silêncio do amador e da amada alimentam

o imprevisto silêncio do mundo e do amor.

[Herberto Hélder – roubado do blogue da Aldina Duarte. Gostei e recomendo.]