sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

À porta do estúdio

Durante esta semana, os juros da dívida soberana portuguesa voltaram a bater todos os records. Durante esta semana, os números do desemprego bateram todos os records. Durante esta semana, os atrasos nos pagamentos dos subsídios de desemprego voltaram a conhecer os records do mês passado. Durante esta semana, as greves no sector dos transportes deixam adivinhar records na contestação social a muito breve prazo.. Tanta paz.

Não obstante, também durante esta semana, segundo o próprio, porque a situação financeira, económica e social do país ainda não atingiu um grau de insustentabilidade inaceitável, ao anunciar que o seu partido se vai abster na votação da moção de censura que o Bloco de Esquerda apresentará a 10 de Março, Passos Coelho mostrou ao país em que mundo vive. E não é no nosso. Logo, o país também será outro, se é que nesse mundo idílico há divisões territoriais de algum tipo.

Mas em Portugal há a RTP, com o pluralismo que todos lhe reconhecemos. Esta RTP está sempre atenta às necessidades especiais de tempo de antena das figuras da situação. Ontem, ofereceu a reabilitação possível ao deserto de soluções de Pedro Passos Coelho. “O Governo está a comportar-se de forma passiva”, acusou, entre larachas, o fundador do conceito de abstenção activa. Mas, afinal, quando é que o PSD sairá dessa sua passividade tão activa e forçará eleições? Na falta da discussão das questões relativas ao conteúdo da tal moção, propositadamente deixadas fora do guião, era a questão da noite. E, como é seu costume, Passos Coelho não se comprometeu com nenhuma posição clara . Limitou-se a prometer fazer oposição, seja lá o que isso for para si, e acenar com exemplos vagos de momentos em que poderá ser confrontado com a chatice de ter que decidir.

Uma situação “séria”. E não disse o que isso é. A aprovação do Orçamento. Ficava ali bem na resposta. E uma eventual moção de censura que venha a ser apresentada pelo PCP. Sim, pelo PCP.

Mas, pelo PCP? Claro. Passos Coelho sabe que, tal como o BE não os tem, o seu PSD, sozinho ou juntamente com o satélite CDS, não tem deputados suficientes para aprovar uma moção de censura que se atrevesse(m) a apresentar. E apresentar uma moção de censura que não fosse aprovada, ainda que tendo uma autoria tão responsável, poderia custar-lhe ter que provar da sua própria demagogia.

Ou será que o absurdo já chegou a um ponto tal que uma moção de censura que seja rejeitada, apenas por ser apresentada pelo PSD, deixa imediatamente de ser uma irresponsabilidade, uma falta de sentido de Estado, um golpe de teatro ou um favor ao Governo? A questão ficou à porta do estúdio. Não a deixaram entrar. O tema da noite não era nem a política, nem as políticas que fazem falta para melhorar o país e a vida das pessoas. O tema era poder, o que poderá ou não mudar nas vidas do entrevistado e amigos . Serviço público.

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