sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

E quem não censura, pois que aplauda

Porque assim é, poderia ser lida como uma chamada à razão aqueles que esqueceram as promessas eleitorais no dia seguinte a serem eleitos e uma das formas democráticas de confrontar esta gente com toda a sua irresponsabilidade. Mas eles reformularam o conceito de responsabilidade e especializaram-se em apontá-la a quem nunca cometeu o seu agora “responsável” adultério. Acontece numa semana ao longo da qual, com greves no sector dos transportes, foi bastante notada toda a insatisfação causada pela prostituição ideológica de um programa eleitoral a uma agenda que, ao mesmo tempo que faz diminuir salários e retira direitos às pessoas, tenta convencê-las de que quanto mais a sociedade regredir nas suas conquistas sociais, melhor para todos. Mas, entretanto, também os conceitos de estabilidade e instabilidade mudaram e nada têm agora que ver com uma maioria que, ano após ano, tem visto os seus horizontes enegrecidos pela estabilidade por si proporcionada a quem usa o poder que lhes vão ingenuamente confiando para semearem instabilidade nos seus presentes e futuros.

Por tudo isto, para que ao menos uma vez se fale de política, para que se discutam alternativas a um caminho que invariavelmente tem conduzido a uma sucessão de desastres, porque o preço de tanta estabilidade e “responsabilidade” se torna cada vez mais insuportável, perante a recusa do Governo ao seu desafio de apresentar uma moção de confiança, o Bloco de Esquerda anunciou que irá apresentar uma moção de censura no próximo dia 10 de Março.

Contudo, porque é também nessas mesmas estabilidade e responsabilidade reconceptualizadas que vivem aqueles que mandam na agenda mediática, não se falará de política, nem tão-pouco se discutirão alternativas. Na sua vez, o que oferecem é o costumeiro espectáculo de contagem de espingardas num golpe palaciano sensaborão, ao mesmo tempo que os putativos candidatos a donos do poder ponderam qual será o melhor momento para tomá-lo de assalto e se recriam com aquelas tácticas de eficácia comprovada na maximização da resignação e do conformismo: “vem aí o FMI”, ameaçam, como se, por interpostos responsaveizinhos, o papão não andasse já por aí a distribuir desgraças; irresponsáveis”, acusam, como se quem lhes merece a graça estivesse no poder há quase 40 anos e como se não fossem eles mesmos os únicos responsáveis pelo estado a que o país chegou.

Segundo este novo conceito de responsabilidade, estupendamente assimilado, é responsável todo aquele que, depois de eleito, esquece os compromissos assumidos com quem lhe confiou o voto e empresta o seu silêncio ao enriquecimento de uma minoria à custa do empobrecimento da maioria e do país como um todo. Neste ambiente conceptual, até Santana Lopes consegue usar toda a sua estabilidade para empregar o termo “responsabilidade”, sem se rir e sem se engasgar.

Fora desta encruzilhada de podridões e lugares comuns muito bem mediatizados, temos o Bloco e as suas respostas políticas alternativas ao miserabilismo imposto pelo pensamento único. Uma esquerda com uma só palavra, antes, durante e depois das campanhas eleitorais. Para portugueses exigentes, que responsabilizam aqueles a quem confiam o voto. Para cidadãos de pleno direito a um futuro melhor. Para quem não perdeu de vista o que é ser responsável e qual é a estabilidade mais conveniente para Portugal. Estabilidade não será, com toda a certeza, o desemprego, a precariedade, a pobreza, impostos selectivamente concentrados sobre quem trabalha e postos ao serviço da delinquência banqueira, um Estado que dá sinais de não assegurar o mínimo dos mínimos, o despedimento liberalizado para aumentar o fosso entre ricos e pobres, o desmantelamento dos serviços públicos ou o prolongamento da vida activa e a rarefacção das reformas. Essa “estabilidade” pode ser conveniente para alguns, mas corresponde à instabilidade da maioria. Essa “estabilidade” censura-se. Como faz, como sempre fez o Bloco. Eu censuro-a. E vejo-me representado por quem ajudei a eleger..

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