Terça-feira, 30 de Novembro de 2010
Com embaraço e prestígio
Sábado, 27 de Novembro de 2010
Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010
Melhores a gritar, piores a votar
E a palavra é mesmo suicídio. No dia a seguir à greve, ontem, foram conhecidos os detalhes de outro suicídio em fase mais adiantada. Depois de ter adoptado políticas em tudo semelhantes às agora aprofundadas em Portugal, o Governo irlandês avançará com o segundo corte nos salários e um aumento brutal nos impostos. Mais pobreza e mais desemprego geraram – e voltarão a gerar – ainda mais miséria e mais desemprego. A espiral recessiva contra a qual os portugueses se haviam manifestado na véspera.
Hoje, nova repetição de uma cena que se banalizou nos últimos tempos. As medidas que supostamente iriam acalmar os antropomorfizados mercados voltaram a enervá-los. Os juros da dívida portuguesa voltaram a aumentar e, tal como aconteceu com a Irlanda há um par de semanas, seguiram-se uma sucessão de rumores e desmentidos de que Portugal já terá pedido ajuda ao FMI, novamente o número de Angela Merkel a ameaçar com falta de paciência, o Parlamento alemão a aprovar um dos maiores endividamentos de sempre, Teixeira dos Santos a dar vida ao fantasma da instabilidade política e Passos Coelho a dizer umas coisas sobre rigor, sentido de Estado e mais não sei o quê. A pressão externa não se compadeceu com o aumento da pressão interna.
Dir-se-ia que governantes e projectos de governantes se encontram entre dois fogos, um disparado do exterior, outro aceso nas ruas. Porém, um deles não será assim tão forte. Uma sondagem realizada antes do dia da greve volta a dar ampla maioria à coligação PS-PSD que hoje aprovou um mergulho mais profundo na crise. Os portugueses são melhores a fazer barulho do que a usar o poder dos seus votos. Vem aí o FMI, vêm aí mais cortes salariais e nas prestações sociais, vem aí mais desemprego, vêm aí mais privatizações e desmantelamento de serviços públicos, pois vêm. Esta espiral não se pára com gritos. As greves não dão nem retiram poder. Pelo menos as que têm lugar fora do dia das eleições.
Terça-feira, 23 de Novembro de 2010
Amanhã diremos BASTA!
Os mercados hão-de acalmar-se ao saber que os boys de PS e PSD que estão aninhados nas empresas públicas e municipais poderão manter o seu poder de compra em 2011. E hão-de rejubilar quando souberem que as parcerias público-privadas continuarão a garantir riqueza às clientelas de ambos.
Somos um caso muito diferente do irlandês? Percebe-se a preocupação em repeti-lo à exaustão. Os irlandeses preparam-se para sofrer o segundo corte nos salários. Nós ainda vamos no primeiro. E a contestação cresce na rua, diminuindo a margem de manobra aos mandantes do nosso naufrágio para imitarem os confrades da Irlanda. Há que diminuir a percepção geral de que as semelhanças são mais do que muitas.
Llá chegaremos, se a reacção não se fizer sentir em força. As políticas adoptadas são as mesmas, é lógico que o resultado seja o mesmo, aqui, na Irlanda, na Grécia ou onde seja. Um descalabro.
Para já, a empurrar-nos, temos 140 euros a pesar na solidariedade induzida a cada português pela mercadologia europeia. Quanto não vale termos uma banca robustecida, por um lado, por uma fiscalidade que garante ao sector uma tributação equivalente a menos de um terço da que é aplicada a um café de bairro e, por outro, a um autoridade monetária europeia não eleita que lhes empresta a 1 por cento uma liquidez ilimitada que depois o sector empresta ao Estado português (e a outros aflitos) ao preço que for ditado pelo seu apetite nervoso, com margens que, neste momento, se cifram nos 600 por cento. O BCE poderia emprestar directamente aos Estados. Mas não seria a mesma coisa. Não haveria as condições idealizadas e plenamente conseguidas para implementar o retrocesso civilizacional há tanto sonhado e agora finalmente em curso. Para além do mais, se a crise empobrece, também enriquece. Os amigos.
Chega disto. Amanhã é o dia para dizê-lo bem alto: BASTA! Eu também faço greve. E às minhas custas, ccom o meu dinheiro, não com o dos meus colegas. Que também os há assim.
O 5º dente
Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010
Sejamos felizes na república do tem que ser
Dá gosto acender a televisão ou a rádio e folhear o jornal. A coerência assombra-me. Parecem todos pertencer ao mesmo dono e que as notícias foram escritas todas pela mesma mão. Gosto desta comunicação social que entrevista sardinhas felizes com as visitas, agora mais frequentes, dos novos submarinos comprados pelos nossos piratas mais ilustres e dá tempo de antena a Medinas Carreiras que comentam com comoção apocalíptica as dívidas do Serviço Nacional de Saúde sem questionarem o modelo de gestão empresarial que lhe acelerou o enterro. Quanto custaram os submarinos? Mil milhões de euros. Se fossem empregues para pagar as dívidas do SNS, estas desapareceriam. Um SNS sem dívidas? Lá poderia ser! Os portugueses têm que ser informados de que não ter submarinos capazes de fazer das nossas sardinhas as mais felizes do mundo tornar-nos-ia um alvo demasiado fácil para carapaus e alforrecas. As dívidas do SNS são um animal em vias de extensão.
Da mesma forma, gosto muito de declarações, como a de ontem, do Ministro das Finanças que enterrou 5 mil milhões de euros no BPN e se prepara para enterrar mais 2,5 mil milhões, a distribuir por cortes salariais e nas prestações sociais. Dizem que os mercados se acalmam com aparições públicas destes focos infecciosos que tentam convencer o seu mercado de pagadores de sacrifícios de que o caso português é muito diferente do irlandês. A Irlanda não vai contagiar Portugal diz quem continua a contagiar-nos com a austeridade purificadora de todos os seus pecados. Os deles.
Mas vamos lá aguentar caladinhos, para não inquietar os mercados. A greve da próxima Quarta-feira pode custar 280 milhões à pátria, contabiliza-se, com alarido.
E quanto terá custado a Cimeira da Nato do último fim-de-semana? Se exceptuarmos os custos correspondentes à tolerância de ponto, ao condicionamento de trânsito em Lisboa, aos negócios que estiveram parados e aos milhões da compra de blindados e demais material “essencial”, que não chegaram a tempo para serem utilizados no evento que serviu como justificação para a sua aquisição por ajuste directo, fica o prestígio do festival de repressão num país onde a liberdade de expressão pelos vistos tem como limite a indignação suscitada pela recepção a uma organização que prossegue fins tão nobres como invasões a países justificadas com mentiras do tamanho do mundo, guerras feitas ao sabor das oportunidades de negócio que geram e apoios dados incondicionalmente a Estados criminosos capazes de cúmulos como o muro que Israel construiu ao redor da Faixa de Gaza.
Que orgulho para todos nós podermos receber com honras de Estado tão ilustres personagens. Angela Merkel e Nicolas Sarkozy têm ajudado muito os portugueses a conseguirem salários mais baixos e desempregos mais baratinhos. E Berlusconi não é um mafioso, é um grande estadista. Quem sentir os joelhos sujos, pode agora limpá-los, se assim o entender. Afinal, ainda somos um país livre. Sejamos felizes nesta república do tem que ser.
Sábado, 20 de Novembro de 2010
Quinta-feira, 18 de Novembro de 2010
Ai, quando os mercados souberem...
Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010
A escola
Filho de um funcionário do PS que residiu até 2008 numa casa da CML com uma renda de 48 euros/mês, Pedro Silva Gomes frequentou o ensino secundário e entrou muito novo para os quadros do partido. Em 2006 foi colocado na Federação Distrital de Setúbal, onde se manteve até meados de 2008, ano em que foi reeleito coordenador do secretariado da secção de Santa Maria de Belém, em Lisboa. Entre os membros deste órgão conta-se a vereadora da Modernização Administrativa da CML, Graça Fonseca.
Já em 2009, Gomes rescindiu por mútuo acordo o contrato com o PS - passando a receber o subsídio de desemprego - e em Outubro foi o candidato socialista à Junta de Belém. No mês seguinte, perdidas as eleições, criou a empresa de construção civil Construway, com sede na sua residência, no Montijo, e viu aprovado o pagamento antecipado dos meses de subsídios de desemprego a que ainda tinha direito, no valor total de 1875 euros, com vista à criação do seu próprio posto de trabalho.
Logo em Dezembro, o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) aprovou-lhe também um subsídio, não reembolsável, de 57.439 euros, para apoio ao investimento na Construway e para a criação de quatro postos de trabalho, incluindo o seu. Deste valor Pedro Gomes recebeu 26.724 euros ainda em Dezembro, sendo 4086 para investimento e 22.637 para os postos de trabalho. No dia 1 desse mesmo mês, porém, o jovem empresário celebrou dois contratos de prestação de serviços com a CML, para desempenhar funções de "assessoria técnica e política" no gabinete de Graça Fonseca. O primeiro tem o valor de 3950 euros e o prazo de 31 dias. O segundo tem o valor de 47.400 euros e o prazo de 365 dias. O segundo destes contratos refere que os serviços serão prestados no gabinete de Graça Fonseca e no Gabinete de Apoio ao Agrupamento Político dos Vereadores do PS. (daqui)
Terça-feira, 16 de Novembro de 2010
F.O.D.A.M.-se - continuar a brincar aos mercados
Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
Fazer pela vidinha
Ao contrário de outras opiniões que fui lendo por aí, não vejo nada de especial na proposta de um “Governo de salvação nacional” composto precisamente pelas três únicas forças partidárias que, por terem passado pelos sucessivos Governos ao longo dos últimos 36 anos, são os únicos responsáveis pelo estado a que chegámos. Trata-se, unicamente, de uma questão de papéis. Querem continuar uma obra que vêem ainda inacabada e estão a fazer pela vida. Ninguém se surpreenderia se os irmãos Metralha se lembrassem de algo semelhante e reclamassem para si a salvação da caixa-forte do Tio das moedas de ouro. Tal como os amigos de cá, estariam a desempenhar o seu papel, a lutar pela sua “estabilidade”. O que me surpreende é que a primeira proposta possa ser levada a sério e a segunda não. E lá vem novamente a questão dos papéis. Na primeira saga, segundo as últimas sondagens, mais de três em cada quatro portugueses ainda se prestam ao papel de levar a sério PS, PSD ou CDS. Na segunda odisseia, não estou a ver os irmãos Metralha com grandes probabilidades de êxito no seu intento de comerem o Patinhas por pato. Nesta última, a aparecer, a proposta teria como único propósito roubar um sorriso a quem lesse. O autor no seu papel, a fazer pela vidinha.
Sábado, 13 de Novembro de 2010
Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010
Portugal a saque
Francisco Louçã, no facebook:
«Já o tenho dito, repito: os bancos portugueses que exigem cortes de salários e de abonos de família, e que aplaudem o acordo entre o PS e PSD para o orçamento, fazem parte dos corsários que estão a comprar a dívida pública nacional com juros de mais de 7%. Ontem, compraram mais de 350 milhões em títulos.
Isto é, como juro de 7%, por cada milhão que o BPI, BES, BCP ou outros investem em títulos da dívida portuguesa, exigem o pagamento de 2 milhões dentro de dez anos. Ficamos a pagar impostos para garantir esta renda.
Compreende-se porque querem o aumento dos impostos. "Fizemos tudo bem", dizia Ricardo Salgado, do BES, a propósito do acordo orçamental que patrocinou. Tudo bem feito. Pagamos o dobro do que nos emprestam.
A especulação não é só criada pelos fundos de capitais alemães ou chineses. A especulação mora num balcão de um banco perto de si.»
PREC: R de religião e de reformas, M de Manuela e de malandragem
«A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) manifestou-se esta tarde contra as medidas de austeridade que têm sido tomadas, desde que não sejam acompanhadas de “forte intervenção na correcção de desequilíbrios inaceitáveis e de provocantes atentados à justiça social”. Em concreto, os bispos dizem que é hora de “pôr cobro à atribuição de remunerações, pensões e recompensas exorbitantes, ao lado de pessoas a viver sem condições mínimas de dignidade”.» (hoje)
«Manuela Ferreira Leite defendeu ontem, no Funchal, a acumulação de pensões de reforma com salários no sector público e diz que Portugal vive, neste momento, "um espírito de PREC" (...) "se os recebem é porque trabalharam"» [quem recebe uma miséria, que não tivesse sido malandro a vida toda]. (Terça-feira passada)
Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010
A austeridade é um caminho perigoso
Terça-feira, 9 de Novembro de 2010
Fortunas à moda da casa
O enriquecimento como direito adquirido vive momentos de glória. Hoje, temos mais um exemplo. A redução das deduções à colecta assustou as ramificações do sector financeiro no sector da Saúde. Haveria, como tal, que compensar estes protegidos do regime. E a compensação lá apareceu, com naturalidade, sob a forma de anúncio: a partir de Janeiro, o sistema de saúde dos funcionários públicos (ADSE) deixará de ser obrigatório e passará a ser voluntário e alguns actos médicos deixarão de ser comparticipados.
Convirá recordar que os cortes salariais na Administração pública incluíram um aumento nos descontos para a ADSE em 1 por cento para todos os trabalhadores, de 1,5 para 2,5 por cento. E bastará perceber que, se os 12,50 euros que desconta um trabalhador que aufira um rendimento de 500 euros mensais apenas dão para pagar um seguro de saúde com coberturas mínimas, já os 50 euros que desconte outro com um salário mensal de 2000 euros chegam para pagar o seguro de saúde com as melhores coberturas oferecidas no mercado (recorri ao simulador desta página e introduzi 45 anos no campo idade).
Desta forma, a partir de 2000 euros mensais, é cada vez mais compensador deixar de descontar para a ADSE e optar por um seguro de saúde. Por exemplo, alguém que aufira 4500 euros mensais deixa de descontar 112,5 euros e passa a pagar os mesmos 50 euros de prémio de seguro que paga aquele que recebe 2000. Ou seja, poupa mensalmente 62,5 euros. Anualmente, a seguradora aumenta o seu pecúlio em 600 euros. E o Estado, a ADSE, um sistema a abater, perde anualmente 1350 euros por cada trabalhador com este nível salarial. Como sempre, perde o Estado e ganha o mercado. Um mercado nascido à sombra de um poder político empenhadíssimo na defesa do Estado social. Vai ser uma surpresa geral quando for anunciado que a ADSE se tornou insustentável. Será uma janela de oportunidades que ficará escancarada graças aos milhares e milhares que se verão obrigados a comprar um produto que não comprariam de outra forma. A fortuna anda por aí à solta. Decreta-se.
Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010
Beijemos os pés ao ditador
Mas quem manda neste rectângulo e dele fez um paraíso onde uma maioria empobrece para que uma minoria mantenha intocável o direito a enriquecer achou que todas estas mesuras não eram já suficientes. O país do ditador e, quem sabe, o próprio e respectiva família e amigos, vão ajudar Portugal juntando-se à atrás citada elite de sanguessugas de Portugal.
Ao entrarem no capital da EDP, os chineses vão poder beneficiar das rendas diárias de mais de 4 milhões de euros proporcionados pela exploração de recursos que são de todos e por um dos tarifários mais altos de toda a Europa, o primeiro concedido por quase um século, o segundo permitido apesar de afectar a competitividade de uma economia que, para cúmulo, ainda ouve discursos sobre “défices tarifários”.
Ao entrarem no BCP, os chineses beneficiarão das isenções fiscais que fazem com que um dos sectores mais lucrativos do país, com lucros diários superiores a 5 milhões de euros, tenha uma taxa de tributação efectiva inferior a um terço da que é aplicada a uma comum mercearia de bairro.
Que honra para todos nós podermos dar o nosso pequeno contributo para a sustentabilidade daquele regime facínora. Eles agora que nos façam o favorzinho de comprar um pouco da nossa dívida. Com o dinheiro que sugarem aqui aos amigos portugueses. Afinal, somos amigos ou não somos?
Domingo, 7 de Novembro de 2010
Adeus, fiel amigo
Como perder um derby por cinco secos? Jorge Jesus usou a criatividade que o tem bafejado desde o início da época para inventar outra vez e mostrar como se faz: deslocando um central para a lateral esquerda, onde não tem rotinas, colocando outro sem rotinas no seu lugar e avançando o defesa esquerdo para uma posição de ataque. Como era de prever, a defesa encarnada meteu água com fartura, sobretudo pela esquerda, mas também no meio. Ao intervalo, já levavam três.
Era tal a irritação que o meu micro-ondas escolheu o momento para partir para a eternidade. Sábia decisão. Não assistiu ao arrastar de uma equipa em farrapos a comer ainda mais dois durante a segunda parte, nem à chuva de cartões que deixará de fora da equipa várias das suas pedras principais na próxima jornada e, no caso de Luisão, também nas seguintes. Terei que substituí-lo. Porém, e escrevo-o com a emoção de quem vê partir um fiel amigo, deixo aqui a promessa solene de não fazer-lhe as exéquias antes do anúncio do sucessor de Jorge Jesus. Começa a justificar-se. Falta um treinador ao Benfica. A próxima época pode bem começar a preparar-se desde já. Hoje, foi o adeus à Liga. E ao meu querido micro-ondas.
Sábado, 6 de Novembro de 2010
Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010
Uma imagem vale mais do que mil...
Ontem, os mercados fecharam com os juros da dívida nacional nos 6,744 por cento, mas durante a sessão chegaram a atingir, por volta das 14h28, os 6,8 por cento, um máximo histórico, pelo menos desde a criação do euro. Os juros estão, assim, a aproximar-se perigosamente dos sete por cento, o limite acima do qual o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, disse justificar-se a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI). A diferença em relação aos juros das obrigações alemãs, que são a referência para os investidores, está nos 434,4 pontos base.
Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010
Acalmar mercados, convencer palermas
Assumidamente, era um mau Orçamento, que, por comprometer o crescimento económico e o emprego, deterioraria as contas públicas, acrescentando crise à crise. Porém, repetiram-no um milhão de vezes, tinha o condão de calmante dos mercados. O acordo que o viabilizaria foi anunciado e o Orçamento foi aprovado. E o que é que aconteceu a seguir?
Pelo sétimo dia consecutivo, os juros das obrigações do Tesouro português a dez anos continuaram a subir. Há momentos, estavam a negociar nos 6,641 por cento, acima daquele que era até agora o máximo histórico (6,63 por cento) registado no final de Setembro. Conclusão óbvia: comprovadamente, para além de mau, o Orçamento não acalmou mercados nenhuns.
E bastará olhar para o juro que pagam países que se anteciparam na adopção da mesma tipologia de políticas que acabam de ser adoptadas por cá para projectarmos o que, mais cedo ou um pouco menos, terminará por ser o resultado da subserviência dos irresponsáveis que decidiram avançar para o mergulho numa tragédia ainda maior do que a anterior: os juros da dívida irlandesa cotavam nos 7,808 por cento, os da Grécia nos (11,091 por cento) e, também a subir, os de Espanha nos (4,35 por cento). Nem o anjinho mais anjinho esperaria outra coisa. É no que dá acreditar que a mercadologia é uma ciência exacta e que a especulação se rege por critérios que não os do enriquecimento fácil. No caso, proporcionado pelo Banco Central europeu. Mas sobre esta inevitabilidade perfeitamente evitável, nem a Cavaco, nem a Sócrates, nem a Passos Coelho ouvimos uma palavra de repúdio sequer. Eles são responsáveis, eles têm sentido de Estado, eles são uns verdadeiros patriotas. E isto façam a porcaria que fizerem. Afundam o país há quase 40 anos, continuarão esse designio enriquecedor de alguns, poucos, e acalmar mercados também não é o seu forte. Mas convencem palermas.
Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010
Seria glória, foi vitória
Assim, o habitualmente suplente ala Salvio foi colocado na direita, no lugar onde alinharia o adaptado Carlos Martins. Não comprometeu. E foi a colocação de Carlos Martins a ocupar a posição onde sabe jogar, no lugar do indisposto Aimar, que detonou uma explosão vermelha. Martins, poupado no jogo do fim-de-semana, realizou uma das melhores exibições dos últimos tempos, comandando o meio campo encarnado e fabricando os quatro golos que o Benfica registava ao intervalo. 4-0, resultado impensável, mesmo pelos mais optimistas.
Viam-se sorrisos rasgados pendurados por todo o estádio. Porém, depois do intervalo, o Benfica foi gradualmente adormecendo. O rendimento da equipa baixou imenso com as substituições e, nos últimos vinte minutos, os golos do Lyon foram aparecendo: 4-1, 4-2, 4-3... impensável, mesmo pelos mais pessimistas. Ouviu-se o próprio estádio suspirar de alívio quando soaram os três apitos que assinalaram o final da partida. Ainda bem que os jogos de futebol terminam aos 90 minutos. Ufa!
Hapoel Telavive, 0 –Schalke , 0
Terça-feira, 2 de Novembro de 2010
O hino da resignação
As pessoas, as políticas, o emprego, o crescimento económico, a repartição desigual dos sacrifícios, a injustiça que manterá longe de qualquer crise o sector financeiro, os fornecedores de pareceres pagos a peso de ouro, as grandes fortunas e as transacções com paraísos fiscais, os submarinos e negociatas afins, as parcerias público-privadas que enriquecem clientelas. Nada disto interessava. O importante era garantir a aprovação de um Orçamento, fosse ele qual fosse: os mercados assim o exigiam, os mercados estão de olho em nós, se nos portarmos como eles querem, os mercados vão diminuir a sua margem de lucro no dinheiro que obtêm junto do BCE a 1 por cento e fazem o favor de nos emprestarem a um preço 500 e tal por cento mais caro do que o seu preço de custo. Sim, porque os mercados têm o enriquecimento fácil como direito adquirido. Os mercados, os mercados, os mercados. Exigem. As pessoas aceitam que lhes tirem e retirem. E quem lhes tira e retira sabe que pode contar com o seu voto.
Depois de uma maratona de folclore que ainda não acabou, o exigido Orçamento, garantido à partida por satisfazer os interesses representados por ambas as partes presentes na dita negociação, apesar de martelado, lá se anunciou assegurado. Dezanove minutos depois da hora certa, com direito a fotografia no telemóvel de um detentor de pensões de reforma superiores a 10 mil euros e tudo. Supostamente, os mercados rejubilariam e baixariam imediatamente o juro da dívida portuguesa.
Mas não. Os tais mercados voltaram a fazer das suas e o juro da dívida soberana portuguesa a dez anos aproximou-se do máximo histórico, ultrapassando os 6,2 por cento (624 por cento de margem relativamente ao valor que o BCE – um BCE que não compra dívida aos Estados - lhes cobra pela cedência dessa liquidez).
Foi então, como sempre tem sido, a hora dos adivinhos brilharem. Eles sentem o pulso aos mercados. O que foi desta vez? Eles é que sabem. Têm a resposta sempre na ponta da língua. Não é difícil. Basta seguir a cartilha e escolher: falta de estabilidade política, demasiados direitos laborais, salários demasiado altos, contribuições para a Segurança Social que devem baixar para empresas com responsabilidade social facultativa, privatização de serviços públicos, cortes salariais aos servidores do Estado, cortes nas prestações sociais, etc, etc.
As explicações aparecem surgidas do nada, como por magia. Se, desta vez, um dos pontos acima não for utilizado, fica a aguardar vez para uma próxima em que se torne necessário consultar o oráculo. O neoliberalismo cavou uma crise sem precedentes que se transformou na sua oportunidade de ouro para fazerem do mundo o que sempre quiseram e nunca puderam. Aquela cantiga dos mercados veio mesmo a calhar. É um sucesso de popularidade. Não há ninguém que não saiba cantarolar o hino da resignação. Agradecimentos a uma comunicação social intoxicante e alinhada.
Antes, discutiam-se políticas e o seu impacto nas vidas das pessoas. Gradualmente, isso mudou. Hoje, as políticas tomam o pulso ao hipotético e cedem a supostas exigências dos mercados. As pessoas deixaram de contar: aceitaram deixar de contar. Os detentores do poder sentem plena liberdade para dar largas à sua imaginação.



