Sábado, 30 de Outubro de 2010
Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
Kafkiano, Cavaquiano, anibalesco
Kafkiano, relativo a Franz Kafka, é um adjectivo utilizado para descrever alguma situação real que, por estapafúrdia, mais se parece com um sonho o mais tortuoso e o mais longe possível da realidade. O termo é utilizado para aludir a situações em que um indivíduo, sem o desejar, se sente como sua parte integrante, ficando com a real impressão de que, enquanto essa situação perdurar, está a viver numa dimensão irreal, em estado de perplexidade, podendo, em decorrência, ser levado a uma condição mental totalmente desajustada.
Cavaquiano é um termo relacionado. O adjectivo pode ser utilizado para descrever alguma situação surreal que, por inoportuna e desviante da realidade, mais se parece com o mundo dourado vendido nas revistas cor-de-rosa, o mais bonita e o mais parola que a parolice possa alcançar. Pode ainda ser utilizado em referências a situações em que um indivíduo com grandes responsabilidades por um desastre sobejamente conhecido de todos, com todo o despudor, não só faz de conta que nada tem que ver com o naufrágio, como ainda pergunta o que seria do país sem os seus prestimosos serviços.
Com anúncio na semana anterior pela alcoviteira escolhida para o efeito, o espectáculo que as televisões serviram ontem à noite teve um pouco de ambas. Parecia uma festa de uma dessas revistas ditas “de sociedade”, com os repórteres empenhadíssimos em fornecerem a lista completa dos nomes dos presentes e de chamá-los à fala, ainda que sem dizerem nada. Não vi por lá nenhum daquele vasto grupo de amigos de Cavaco do BPN dos nossos sacrifícios.
Depois, o discurso. Cavaquiano pela inoportunidade habitual da data escolhida, em plena negociação de um Orçamento de Estado do qual já não se discute a substância, apenas se será ou não aprovado. Kafkiano pela pose de grande obreiro de coisas tão boas como um reinado consagrado ao esbanjamento de fundos comunitários supostamente destinados ao nosso desenvolvimento e distribuído pela sua corte de patos bravos, que asfaltou o país em vez de prepará-lo para produzir naquele amanhã que então não existia e que produziu escândalos de corrupção como nunca antes. O mesmo grande estadista kafquiano-cavaquiano que, anos depois, após ter aprendido a comer bolo rei de boca fechada e sem falar, fez do Presidente da República um paranóico por escutas, que interrompia as férias para dizer umas coisas sobre o Estatuto dos Açores, que se assumia como porta-voz de uma Igreja amarrada a preconceitos homofóbicos, um patriota tão pequenino que, por não ter conseguido ultrapassar um ódio antigo, anibalesco e não presidencial, não se dignou a representar todos os portugueses no funeral do único Nobel português da Literatura.
Cavaco disse umas coisas. Lugares comuns, como de costume. Auto-elogios. Fartou-se de reflectir com a família. Poupará na campanha que desenvolve há cerca de um mês com o orçamento da Presidência da República. É de novo candidato a PR. O primeiro PR com reais probabilidades de não renovar o mandato. O país ficará, teria ficado, melhor sem Cavaco.
Terça-feira, 26 de Outubro de 2010
Ler os outros: "a ditamole"
«(…) Se nada fizermos para corrigir o curso das coisas, dentro de alguns anos se dirá que a sociedade portuguesa viveu, entre o final do século XX e começo do século XXI, um luminoso mas breve interregno democrático. Durou menos de 40 anos, entre 1974 e 2010. Nos 48 anos que precederam a revolução de 25 de abril de 1974, viveu sob uma ditadura civil nacionalista, personalizada na figura de Oliveira Salazar. A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstrata chamada "mercados".
As duas ditaduras começaram por razões financeiras e depois criaram as suas próprias razões para se manterem. Ambas conduziram ao empobrecimento do povo português, que deixaram na cauda dos povos europeus. Mas enquanto a primeira eliminou o jogo democrático, destruiu as liberdades e instaurou um regime de fascismo político, a segunda manteve o jogo democrático mas reduziu ao mínimo as opções ideológicas, manteve as liberdades mas destruiu as possibilidades de serem efetivamente exercidas e instaurou um regime de democracia política combinado com fascismo social. Por esta razão, a segunda ditadura pode ser designada como "ditamole". (…)»
Vale a pena ler na íntegra. “A ditamole”, por Boaventura Sousa Santos.
Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010
"Comprar" ou "vender" pobres, that is the question
No Público online de hoje, lê-se um dos maiores elogios que, em determinado contexto, um político pode receber: “comprou os pobres”. O laureado é Lula da Silva. Contrariando a tendência dominante em todo o mundo, as suas políticas de combate às desigualdades foram um sucesso com reflexos na criação de emprego e no crescimento económico do Brasil. Em menos de uma década, Lula conseguiu reduzir o número de pobres de 77,8 milhões (42,7% da população) para 53,7 milhões (28,8%) e reduzir em 62% a desnutrição infantil. O consumo gerado por estas políticas – e recorde-se que a propensão marginal a consumir é mais elevada em escalões de rendimento mais baixos - criou 14 milhões de postos de trabalho. Os resultados falam por si e não serão as acusações de corrupção, umas mais, outras menos infundadas, que poderão esbatê-los. E nem sequer como argumento meramente eleitoral servem. Num país onde a corrupção é uma prática generalizada, é difícil descobrir santos em qualquer das facções em disputa: ambas já foram poder e a corrupção não é bicho que se mate com um só tiro.
Mas voltemos um pouco atrás. Quem leia fica com a sensação inequívoca de que o pecado de “comprar” pobres parece ter inúmeras desvantagens relativamente a virtudes como as de fabricar novos pobres ou de os “vender” a intocáveis interesses económicos super bem instalados, impondo-lhes salários reais cada vez mais baixos, impostos indirectos cada vez mais elevados, racionando e deteriorando serviços públicos e reduzindo-lhes o já fraco consumo. Esta é a tendência geral que se verifica em todo o mundo ocidental onde se aposta forte na improbabilidade de exportações para espaços onde a ditadura orçamental também vende e também fabrica novos pobres, uma tendência com especial incidência em Portugal, imune a todos os resultados desastrosos que tem tido, quer nas taxas de crescimento raquíticas, quando não negativas, quer na destruição de emprego. Adorava que, por cá, também "comprássemos" pobres. Sem excepções, teríamos todos imenso a ganhar. Sucessos e fracassos, os resultados estão bem à vista. Para quem queira ver.
Sábado, 23 de Outubro de 2010
Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010
O buraco dos nossos sacrifícios
Enquanto quem afundou o banco anda por aí à solta a gozar os rendimentos, o Governo já enterrou 4 mil e 600 milhões de euros no BPN. Tudo isto resultaria numa venda de toda a rede de balcões do banco por, imagine-se, 180 milhões de euros que, porém, ninguém achou bom negócio. Mas se tudo isto parece inexplicável num país em que, em 2009, um quinto dos seus habitantes vivia em situação de privação material – leia-se pobreza –, mais bizarro ainda se torna saber que, em pleno ano de sacrifícios impostos também e sobretudo a esse quinto de pobres, o Governo se abalança para enterrar mais 400 milhões no mesmo buraco. Para depois vendê-lo a quem e por quanto, fica a incógnita. Para já, fica o número redondo de 5 mil milhões de euros como custo de uma delinquência banqueira a quem a Justiça não deita a mão e a quem o Governo, em comunhão de interesses com PSD e CDS, passou e continua a passar a mão pelo pêlo. Carinhos de valor semelhante ao do pacote de austeridade que o Governo quer ver aprovado no Orçamento do Estado para 2011. Juntem-se-lhe mil milhões em submarinos e mais uns quantos milhares de milhões em perdões e isenções fiscais ao sector financeiro, às grandes fortunas, às transacções com paraísos fiscais e aos rendeiros do país da energia, electricidade, auto-estradas e outras "parcerias". Quando é pela pátria, qualquer sacrifício vale mesmo a pena.
Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010
Assim, não
Um golo aos 20 minutos, uma expulsão mesmo antes do intervalo e novo golo a abrir a segunda parte ditaram novo desaire encarnado na Liga dos Campeões. O Benfica esteve irreconhecível. Jesus esteve mal nas escolhas que fez para o meio campo no onze inicial. Inventou. Nem Gaitan, nem Aimar são flanqueadores. E Jesus colocou-os nos flancos. Resultado mais do que esperado: nem atacaram, nem defenderam. Andaram para ali. Gaitan acabou expulso. O intervalo também não serviu para nada. Jesus manteve a aberração táctica, agora amputada. E havia tanto a mudar. O segundo golo do Lyon não se fez esperar. Depois, foi o massacre. Valeu Roberto. Quem diria, logo ele. Juntamente com Coentrão foi o melhor benfiquista em campo.
Terça-feira, 19 de Outubro de 2010
Um bom trabalho
Dia após dia, minuto a minuto, cresce a vozearia em torno de um Orçamento que vai sendo passado para a opinião pública como “necessário” em face das necessidades de financiamento do Estado português. “Há que transmitir confiança aos mercados” é a premissa que se repete à exaustão como forma de coagir a aceitação geral de sacrifícios mal distribuídos e sem garantias de, por insuficientes, virem a conhecer reedições num futuro próximo. Para completar o quadro, os privilégios de uma classe de rendeiros do país são para manter intactos porque, segundo se repete, da acumulação de riqueza resulta “inevitavelmente” criação de emprego. O debate condiciona-se à partida, com os destaques e as omissões mais convenientes para a prossecução dos objectivos de desmantelamento social impostos pelos detentores também do poder de condicionar a informação que se faz.
Outra realidade, outro tipo de reacções e outras exigências resultariam de uma comunicação social menos instrumentalizada e mais plural. A “pressão” e a “confiança” dos mercados são questões que apenas existem porque quem comanda a agenda mediática trata como neutra a decisão política dos poderes de Bruxelas de colocarem o BCE a vender liquidez a 1 por cento a especuladores que depois revendem o mesmo dinheiro aos Estados a 6 por cento ou mais. É aqui que reside a questão central. Não haveria “crises de confiança” se o BCE emprestasse esse dinheiro directamente aos Estados. Todo o mais é consequência desta fórmula arquitectada para impor uma agenda política de cortes e desmantelamento do Estado social, velhos objectivos de um neoliberalismo que se apoderou da Europa e que encontrou na crise a oportunidade de ouro para acelerar a sua consumação num processo em espiral: num dia corta-se para acalmar mercados, no dia seguinte a sua ganância retrai-se de forma a demonstrar que se fez “o correcto” e, pouco tempo depois, porque as medidas impostas têm impactos recessivos inevitáveis, essa mesma ganância regressa em força com o argumento de que “afinal os cortes iniciais não foram suficientes”, reiniciando-se todo o processo de cortes e mais recessão.
Segundo as últimas sondagens, apesar das evidências, mais de 80 por cento dos eleitores portugueses continuam a confiar em três forças partidárias a quem não se ouve uma palavra contra este caminho sem regresso. Quando acordarem, se alguma vez o fizerem, será demasiado tarde. O que durou gerações a conquistar demorará pelo menos outro tanto a reconquistar. A pobreza generalizada será o prémio para quem não vale mais do que um encolher de ombros.
Sábado, 16 de Outubro de 2010
Semana não
Numa semana em que problemas de saúde me forçaram a interromper as postagens regulares aqui no PB, foi grande a algazarra em torno de um Orçamento de Estado que, pela força que os portugueses deram a quem não hesita em carregá-los, voltará a fazer de 2011 um ano próspero para uma minoria. O circo, a que ainda se chama debate político, vendeu a ideia de que temos que entrar ainda mais para dentro do buraco para melhor sairmos dele. É nestas alturas que se nota muita falta de cooperação às diplomacias portuguesa e europeia. Em vez de ficarem parados a deprimir, se começassem mas era a escavar, aqueles mineiros chilenos já estariam junto das suas famílias há semanas. Uma boa ideia e uma palavrinha de optimismo para eles não teria custado um cêntimo. Ok, ok, poderia afectar a confiança dos mercados. Regressarei quando estiver em condições.
Sábado, 9 de Outubro de 2010
Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010
Gostei de ler - "Corrijam o erro!"
Pois bem, qual a conclusão do I perante estes números? Confundem alhos (taxas de produtividade) com bugalhos (contributo absoluto dos factores de produção no produto). Se a produtividade do trabalho no sector privado aumentou, mas o contributo do factor trabalho na economia é negativo, então a culpa tem de ser dos funcionários públicos: “o crescimento deste ano (1,2%) inclui um contributo negativo do factor trabalho, sendo que a produtividade aparente do trabalho do privado "deverá subir 3%" este ano. O sector público, que forma o resto da equação, será responsável pelo comportamento negativo deste indicador considerado crucial para a retoma, embora o Banco não o concretize em números.” Existe uma óbvia razão para o Banco não concretizar em números. Como a maior parte dos serviços públicos não tem um preço (uma cirurgia, uma aula de geografia, uma ronda da polícia), é um exercício complicado o de calcular a produtividade (produto/número de horas trabalhadas) neste sector.
Ok, argumentarão que esta peça do I não é mais do que o resultado do erro de leitura do jornalista. Não, não é só isso. Como o título da peça demonstra, pode ter havido condicionamento ideológico na interpretação dos dados: a culpa tem de ser desses mandriões dos funcionários públicos, de quem o BP não diz uma palavra. E assim se legitimam os cortes que afectam particularmente esta fatia da população.» – Nuno Teles, no Ladrões de Bicicletas.
Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010
Um prémio à Utopia
Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010
A choldra

Para quem não conheça a expressão, plutocracia (ploutos: riqueza; kratos: poder) é uma forma de usurpação dos poderes que emanam da democracia em que aqueles que conquistam o poder, ao invés de representarem os cidadãos e cidadãs que lhes confiaram o voto e os elegeram para esse efeito, representam os interesses de um poder económico com o qual trocam benefícios.
Vem isto a propósito do receituário neoliberal que poderes não eleitos como os do FMI, OCDE, BCE e outros politicamente irresponsáveis têm conseguido impor em espaços onde a representatividade democrática e a opinião plural já viveram melhores dias.
É o caso da Europa. E é o caso de Portugal. Cada europeu e cada português sente no salário e nos direitos, laborais e não só, os efeitos de uma brutalidade exercida pelos seus eleitos em favor de detentores efectivos do poder enriquecer em plena crise. A estabilidade de alguns, poucos, é conseguida à custa do sacrifício, não apenas da maioria, como também do todo.
Ontem, as comemorações do centenário da República custaram 10 milhões de euros aos mesmos contribuintes a quem, por opção política de preservar o filão de uma minoria, foram impostos mais sacrifícios. “Responsabilidade” e “estabilidade” foram duas das palavras mais repetidas pelos irresponsáveis a quem a estabilidade desta plutocracia tem dado plenos poderes para escolher quem enriquece e quem empobrece. Uma plutocracia mais velha do que a própria República. O polvo tarda
Na imagem, Semanário “A Choldra”, nº 11, de 10 de Abril de 1926
