Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

Um caminho sem regresso

PEC 0, recessão. PEC 1, mais recessão. PEC 2, ainda mais crise. E PEC 3, muito bem, grande coragem, só pecou por tardio. Esta idiotice é uma das versões mais difundidas pelo exército de comentadores do regime. Entende-se.

Se o exercício de antecipação das medidas ontem anunciadas para o momento 0 deste corte progressivo de salários e direitos não é difícil de fazer, a antecipação das suas consequências também o não é: mais austeridade e menos salários têm-se replicado em mais desemprego e menor crescimento, logo, em contas públicas cada vez mais deficitárias. Aqui e
onde seja. Tem sido assim e continuará a sê-lo, sobretudo se se mantiver o actual paradigma de ortodoxia orçamental contextualizada num clima de chantagem de uma especulação que o BCE continua a financiar.

Como tal, a antecipação da austeridade presente teria produzido versões 1, 2 e 3 do PEC ainda mais duras, tão duras como as versões 4, 5, 6 e seguintes, que agora se perspectivam. Estaríamos hoje, como estaremos num futuro não muito distante, a ouvir larachas sobre inevitabilidades tão evitáveis como a subida do IVA para 30 por cento, a abolição do rendimento social de inserção, a limitação das pensões de reforma a um limiar de sobrevivência, a redução para metade do subsídio de desemprego ou a privatização da Saúde e da Educação e respectivo despedimento colectivo. É aqui que querem chegar. Seria aqui que já teríamos chegado se a brutalidade não pecasse por tardia. E é aqui que não podemos deixar que cheguem. Este é um caminho sem regresso. Há que mudar políticas. Antes, porém, há que varrer da História toda uma geração de obreiros do desmantelamento da Europa que foi e do país que poderíamos ter sido. Desinformadores incluídos.

Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

Sem brilho

O Benfica defrontava um adversário em crise, actualmente em penúltimo lugar na Bundesliga, poderia ter alcançado a primeira vitória da sua História em território alemão. Mas nada disso. O Benfica até começou bem, mas assim que, primeiro, Carlos Martins passou a ter polícia e, depois, Coentrão deixou de beneficiar de ter como opositor directo um japonês que estava a ficar com os olhos redondos, a sucessão de passes errados ia convidando o adversário a crescer. Cresceu. E o Benfica minguou, principalmente depois das substituições. Se Cardozo e Saviola não tiveram uma noite inspirada, Salvio e Kardec foram duas nulidades em campo. Com naturalidade, à sucessão cada vez mais irritante de passes errados começaram a somar-se os erros defensivos dos quais resultaram os dois golos que fizeram a derrota desta noite. Foi muito pouco Benfica contra pouco Schalke 04. O resultado aceita-se. O Benfica não está bem.

Grupo B

Schalke 04, 2 – Benfica 0

Hapoel Tel-Aviv, 1 – Lyon, 3

É só mais um bocadinho

Uma obra atrasada pode ser antecipada. Leu bem. E a antecipação, apesar do atraso, pode ser premiada. Continua a ler bem. A história pode ser lida aqui. É uma de muitas com dinheiros públicos a jorrarem para bolsos privados à margem da lei sem que ninguém seja responsabilizado pela assinatura da respectiva autorização.

O endividamento das empresas públicas, municipais e demais regabofes soma e segue ao som de discursos bonitos de rigor. Um dia, alguém descobriu que podia produzir-se um milagre orçamental se se passassem alguns organismos públicos para fora do perímetro orçamental. Gastava-se e não pesava no défice, para além de que, fruto de uma legislação menos restritiva, a liberdade de acção é maior desse lado de fora das obrigações e do controlo, desse lado de dentro de tachos, mordomias, negociatas, boys, anarquia gestionária e favorecimentos a granel. Um Estado dentro de outro Estado onde mandam caciques indicados pelo partido que detenha o poder e onde, como tal, aconteça o que acontecer, “exoneração” e “responsabilização” são excepções na regra do exercício do saber enriquecer à sombra de uma sociedade que não se manifesta contra este modo de vida.

E falta chegar a conta dos hospitais EPE. Falta chegar a conta das parcerias público-privadas do asfalto do nosso orgulho. Enquanto não chegam, a massa amorfa aceita que continuem a apertar-lhe o cinto e tenta descobrir bondade nas soluções apresentadas por quem sempre os enganou. É só mais um bocadinho. Toca a pôr as contas públicas em ordem. A crise e os sacrifícios estão mesmo, mesmo quase a ir-se embora.

Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

Já chega


Cortar, cortar aos mesmos de sempre, cortar muito, cortar ainda mais, cortar tudo. Cortar seria a solução. Cortar não resolveu. Por isso, sustenta-se que há que cortar mais e mais. Mas cortar piorou uma situação que já não era nada boa. É para continuar a cortar? Torna-se difícil aguentar por muito mais tempo a miragem de recompensas a sacrifícios que parecem não ter fim. Os resultados são cada vez mais catastróficos. Por isso, montou-se um espectáculo.

ontem, o sermão anual da OCDE mereceu um destaque nunca visto em edições anteriores. Teixeira dos Santos colou-se ao circo que foi montado: “estes senhores é que sabem, temos que
cortar ainda mais”. O FMI e a OCDE não votam. Mas mandam. Passos Coelho não quis ficar sem aparecer e promoveu espectáculo semelhante, este com cançonetistas do corte nacionais, até com campanha presidencial.

Fora disto, dois minutos nos telejornais foram muito pouco para que quem discorda pudesse mostrar que existe outro caminho. E
existe. Meio minuto foi ainda menos para abordar a ilegitimidade de poderes não eleitos interferirem, como interferem, nos destinos de milhões de europeus. Na sua vez, como habitualmente, o pensamento oficial.

Os mercados necessitam de confiança, disse-se e repetiu-se, para justificar a promoção de um enriquecimento que parece ser um direito adquirido e um empobrecimento invariavelmente apresentado como dever patriótico. Os europeus também precisam de ser acalmados. Um dia chega bem para torná-lo bem claro. Mostrar quanto e quantos rejeitam ser o factor de ajustamento de um sistema para o qual, há muito, as pessoas deixaram de ser uma prioridade. Amanhã, 29 de Setembro, é dia para ninguém deixar o inconformismo sozinho em casa.

Domingo, 26 de Setembro de 2010

No bom caminho

O Benfica trouxe dos Barreiros a primeira vitória conquistada fora de casa e mais uma exibição a necessitar de aprumo. Voltou a notar-se pouco acerto defensivo num meio campo desequilibrado que, ao mesmo tempo que contagiava insegurança ao sector defensivo, teve a capacidade de produzir uma mão cheia de oportunidades de golo flagrantes para o seu ataque.

A vitória, magra, tangencial, por 0-1, escreveu-se com a enorme quantidade de golos falhados incrivelmente pelos atacantes encarnados e por uma excelente exibição de Roberto. O espanhol parece outro e, a cada jogo que passa, vai conquistando a confiança de colegas e adeptos. Destaques pela positiva também para Saviola, para Fábio Coentrão, o marcador do golo solitário, para Carlos Martins e para Gaitan, embora este último tenha voltado a evidenciar imaturidade defensiva. Pela negativa, para além dos muitos golos falhados, o meu destaque vai inteirinho para a falta que faz aquela parede a meio campo pela qual, no ano passado, era muito difícil passar.

Há muito ainda a fazer para recuperar os níveis exibicionais e a solidez da época passada. Por ora, resta constatar que o Benfica cresce um bocadinho em cada jornada e que as vitórias começam a aparecer com naturalidade, mesmo apesar das arbitragens manhosas. Ontem, tivemos outra.

Sábado, 25 de Setembro de 2010

Orelhas de Burro

Ann-Margret - "Let Me Entertain You"


April Stevens - "Teach Me Tiger"

Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Estabilidade, responsabilidade e milhões

Chama-se Wainfleet - Alumina, Sociedade Unipessoal, Lda, tem sede na zona franca da região autónoma da Madeira e ocupa o primeiro lugar no ranking das maiores empresas nacionais por volume de vendas da Associação Empresarial de Portugal, Câmara de Comércio e Indústria (AEP). Em 2007, tendo em conta o relatório de Balanço e Demonstração de Resultados, a que o i teve acesso, teve um volume de vendas superior a 3 mil milhões de euros (cerca de 1,7% do PIB nacional), o que representou um aumento de mais de 100 milhões de euros em relação a 2006. Números que tornam esta sociedade unipessoal por quotas, com um capital social de apenas cinco mil euros e quatro trabalhadores, na empresa com o maior volume de vendas nacional. A isto acresce o facto de não ter pago imposto sobre o rendimento produzido nos anos de 2005, 2006 e 2007 (os únicos aos quais o i teve acesso), visto estar situada na zona franca da Madeira, onde tem acesso a um conjunto significativo de benefícios de natureza aduaneira, fiscal, financeira e económica.

A maior empresa portuguesa em volume de vendas não paga impostos e quase não cria emprego. Ninguém, para além dos seus proprietários e quatro trabalhadores, retira qualquer vantagem da sua existência. O contraponto desta borla, é a sociedade portuguesa como um todo que paga as vias de acesso à empresa, todas as infra-estruturas necessárias ao seu funcionamento, a Saúde dos seus poucos funcionários, a Educação dos seus filhos e os bilhetes de avião mais baratos de que beneficiam. Existem muitas empresas como esta. Estima-se que a receita fiscal que PS, PSD e CDS insistem em continuar a oferecer a este tipo de enriquecimento ascende a quase
8 mil milhões de euros anuais que, se fossem cobrados, reduziriam o défice a cerca de 2 por cento do PIB.

Passos Coelho e
José Sócrates andam numa discussão entretida sobre um Orçamento de Estado onde não cabem nem a tributação das transacções com off-shores, nem a das grandes fortunas, nem a de um sector financeiro que paga proporcionalmente menos de metade em impostos do que toda a restante economia, tão-pouco a tributação das mais valias urbanísticas que resultam da habilidade corrupta de autarcas e governantes em alterar planos de ordenamento do território e em conceder licenças de construção a quem tem o melhor dos argumentos para lhes fortalecer as convicções. Imunes a este espectáculo degradante, viciados em sacrifícios, os felizes contemplados com uma austeridade evitável com políticas e políticos que não subalternizassem o seu bem-estar e o desenvolvimento do país aos de uma acumulação de riqueza com proveniências pouco recomendáveis, continuam a adiar uma mudança cada vez mais necessária: mais de 80 por cento continua a preferir queixar-se da vida e a discutir se quem deve pagar uma crise que não provocou é o vizinho malandro desempregado que descontou para ter protecção no desemprego, o funcionário público do último andar a quem viram carro novo, a criança da aldeia onde encerraram a escola que passou a ter que levantar-se às 6 da manhã, o doente que passou a pagar medicamentos mais caros ou o portador de deficiência a quem retiraram parte dos já parcos benefícios fiscais que lhe eram concedidos para fazer face aos custos decorrentes da sua deficiência. Em democracia é mesmo assim. Quando o eleitorado não quer a mudança, tudo permanece como sempre foi. Estabilidade, responsabilidade e milhões. A Wainfleet – Alumina é uma empresa muito simpática.

Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010

Intervalo

Há quase cinco anos, quando o Burro começou a andar e estava naquela fase de escolher qualquer coisa para colocar no cabeçalho do blog, saltou-me a que ainda aí se lê: “histórias de um país adormecido para ler no intervalo da telenovela”. O tempo não lhe perdeu o sentido. Hoje, é mais um dia em que, sem grande esforço, num olhar de relance pelas notícias da manhã, é facilmente constatável como o disparate continua a poder passear-se por aí em paz.

Aqui, lê-se pela centésima vez sobre o resultado de uma estratégia errada que condiciona decisivamente quer a competitividade da economia portuguesa, quer um poder de compra já sobejamente rarefeito pela aposta secular de fazer dos portugueses uma reserva de mão-de-obra pouco qualificada e mal paga: somos um dos países da Europa onde os combustíveis são mais caros e estamos a subir no ranking. Nem de propósito, no mesmo dia, aqui, lê-se que a privatização de mais 7 por cento da GALP avança na próxima semana. Em vez de corrigir as ineficiências decorrentes da ausência de concorrência num sector estratégico, que condicionam o desenvolvimento do país, em vez de manter – e já nem digo aumentar – uma posição no capital da empresa que garante lucros colossais também ao accionista Estado, transfere-se para mãos privadas essa renda maximizada pela cartelização de preços que um regulador capturado se tem recusado a regular, ainda por cima através de uma venda ao desbarato, num momento em que as bolsas vivem dias de saldos.

Virando a página, porém, sem sair do tema grandes fortunas ganhas sem fazer nenhum e proporcionadas por um poder político ao serviço de interesses facilmente identificáveis,
aqui lê-se que, nos próximos dez anos, a “crise da dívida” vai custar aos contribuintes portugueses mais 850 milhões de euros em impostos, cortes nas prestações sociais, degradação dos serviços públicos e outros quejandos de sacrifícios. Os juros cobrados pelos especuladores, a quem os fazedores de notícias chamam de “investidores”, ultrapassaram pela primeira vez a barreira dos seis por cento. É reconciliador dizê-lo assim, sem referir que, em vez de comprarem directamente as dívidas aos Estados, os poderes de Bruxelas preferiram colocar o BCE a emprestar dinheiro aos bancos a 1 por cento e que é essa a liquidez que os bancos depois vendem aos Estados a um preço fixado ao sabor da sua ganância. A versão que é apregoada serve na perfeição para criar um cenário de inevitabilidades geradoras de retrocessos civilizacionais desejados por quem decide e por quem é pago para condicionar eventuais reacções. Mas vão mais longe ainda. Se a omissão anterior é um insulto à percepção da realidade, que dizer deste “Bancos portugueses ajudam Estado”? Fala sobre financiamentos de curto prazo a taxas de juro mantidas no segredo dos deuses porque a lei não obriga à sua divulgação.

Escola premiada pela Microsoft fechou”. Este pequeno passeio pelo absurdo não poderia acabar sem passar por mais este exemplo de defesa do Estado social e de promoção da excelência. Termina aqui mais este intervalo da telenovela "resignação". Se ainda estiver por aí, muito obrigado pela preferência. A segunda parte é já a seguir.

Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

Está quase

Nada como um aperto orçamental para perceber o que faz correr as diversas forças políticas e entender as pressões de outras organizações que, embora inexistentes do ponto de vista formal, têm o poder de influenciar a percepção geral sobre os acontecimentos, condicionando, assim, as suas escolhas. Para a maioria delas, pouco importam as causas e as consequências de uma realidade que aproveitam como álibi para tornarem públicos argumentos que, noutras condições, teriam o cuidado de não expressarem com a mesma clareza. Mais do que nunca, joga-se no campo da retórica, do fomento de medos e de ódios sociais.

Assim, o PS tenta aparecer como paladino do Estado social. Um Estado social vendido a retalho através de privatizações ao desbarato e com prestações sociais que reduziu quando mais eram necessárias, de comum acordo com um PSD defensor de uma redução de impostos que, na mesma ocasião, no mesmo assomo de responsabilidade patriótica, acordou aumentar com o primeiro. E ambos estiveram de acordo com o eterno apêndice CDS em abrirem caminho à colocação dos emigrantes portugueses em França como o alvo que se segue da xenofobia que sempre aparece em momentos de crise. Todos diferentes, mas todos iguais.

Em França, os ciganos. Em Portugal, trabalhadores, especialmente do sector público, pesam nas contas de um país que se dá ao luxo de desbaratar milhares de milhões em impostos sobre transacções com off-shores, onde uma micro-empresa paga proporcionalmente mais em impostos do que um banco e onde o subsídio de Natal dos funcionários públicos pesa mais nas contas públicas do que o lamaçal de parcerias público-privadas desenhadas à medida do enriquecimento das clientelas do poder. E o FMI aqui tão perto. A ameaça surgiu do nada. A imprensa nacional descobriu-a num dia em que em jornal de mais país nenhum se falou do assunto. Em breve, o FMI aterrará na Portela se não se cortarem rapidamente mais nos salários e nos direitos de quem trabalha num dos países que pior remunera o factor trabalho e onde a precariedade laboral é mais sentida. De nada serviram as experiências irlandesa, grega, húngara e romena, onde se aplicaram receitas infalíveis que agravaram uma crise que já era grande apenas porque os cortes não foram ainda mais duros. Uma patranha repetida mil vezes rapidamente se transforma numa inevitabilidade com aceitação quase geral. A mensagem oficial é bem clara: preparem-se, está quase, vêm aí mais sacrifícios. Nada mais legítimo numa democracia onde a maioria vem reconduzindo no poder quem tão bem os representa.

Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

Gostei de ler

«Dizem que Deus é brasileiro; Lula, claro, também é: deixa a presidência com o apoio de quase 80% dos brasileiros, abrindo assim caminho à confortável eleição da sua camarada Dilma Rousseff. Isto apesar da hostilidade dos media. É a economia, estúpido! Que economia? A que se tornou um pouco menos desigual graças à acção dos poderes públicos. Um país que forjou, além disso, uma política externa independente, visível nas alianças com os seus progressistas vizinhos e na forma como recusou as pretensões dos EUA, que queriam transformar o continente numa imensa “zona de comércio livre”, num imenso México.

Os factos, esses, são impressionantes: 14 milhões de postos de trabalho criados no sector formal; redução do número de pobres, que passaram de 77,8 milhões (42,7% da população) para 53,7 milhões (28,8%); ou redução de 62% na desnutrição infantil. Tudo entre 2003 e 2008. É o que dá expandir decisivamente as políticas sociais, como o programa Bolsa Família, uma espécie de rendimento mínimo garantido que beneficia um cidadão brasileiro em cada cinco, ou aumentar o poder de compra do salário mínimo mais de 50%.

De facto, a expansão do mercado interno, graças ao assinalável crescimento do rendimento das classes populares, é uma das heranças de Lula e explica o relativo sucesso económico e a resistência à crise, sobretudo quando comparamos com os mandatos retintamente neoliberais de Fernando Henrique Cardoso: o crescimento cumulativo do Produto Interno Bruto (PIB) atingiu cerca de 23% entre 2003 e 2010, contra 3,5% nos anos do anterior presidente. Rompe-se assim com as décadas perdidas do neoliberalismo à FMI, quando o PIB cresceu cumulativamente, entre 1980 e 2000, apenas 4%, mas ainda estamos longe dos níveis de crescimento das décadas de políticas desenvolvimentistas do pós-guerra.

Hoje, o Brasil tem a vantagem de não ter um PEC, como nós, mas sim um PAC – Plano de Aceleração do Crescimento -, assente na modernização das infra-estruturas do país e numa certa recuperação da tradição desenvolvimentista, que impediu novas privatizações e deu um novo impulso ao papel do Estado, visível, por exemplo, nas regras de exploração dos novos recursos petrolíferos do país.

No entanto, Dilma tem de fazer rupturas se quiser aprofundar as transformações progressistas: da excessiva dependência do agronegócio, que impediu uma reforma agrária digna desse nome, à infeliz manutenção das estruturas de uma economia ainda financeirizada e rentista, graças às elevadas taxas de juro e a um real sobrevalorizado, passando pela corrupção que mina a confiança nos poderes públicos. No entanto, pode dizer-se que o “escândalo do mensalão” até facilitou o actual sucesso político ao levar, entre outros, à demissão do “conservador” ministro da “fazenda”, substituído pelo excelente economista Guido Mantega, e ao dar um novo protagonismo a Dilma. Esta só depende agora da capacidade de mobilização do povo. É que Deus pode ser brasileiro, mas é a “mão invisível do povo”, a que Lula aludiu um dia, que em última instância faz a diferença.» - João Rodrigues, às Segundas-feiras, no I.

Apenas uma vitória

Com menos de 52 mil nas bancadas, reflexo do mau início de campeonato, o Benfica abafou completamente o Sporting no jogo de ontem. Cardozo voltou a marcar, desta feita por duas vezes, correspondendo ao voto de confiança de Jorge Jesus que, recorde-se, ainda na semana passada, justificava a lentidão do paraguaio com uma compleição física a necessitar de tempo de jogo e de treinos. Ontem, Cardozo, como, aliás, quase toda a equipa, foi demasiado rápido para uma defesa leonina que parecia de chumbo.

É certo que o triunfo de ontem foi tão claro como importante. Porém, apenas aqueles que crêem em milagres poderão ter ficado convencidos de que o Benfica se encontra já completamente recuperado do atraso na preparação dos mundialistas do plantel e que, dentro deste, as saídas de Ramires e Di Maria em breve deixarão de notar-se. Nenhuma equipa recupera assim, em apenas uma semana, ao ponto de produzir um desequilíbrio tão notório como o da noite passada. É sempre bom ganhar. É-o mais ainda se o adversário for o eterno rival. Se o Sporting estivesse em bom nível, a vitória e a exibição poderiam deixar antever que o Benfica está a voltar à normalidade. Contudo, o Sporting está uma autêntica lástima. Foi apenas
uma vitória.

Domingo, 19 de Setembro de 2010

Orelhas de burro

Humanos – “A culpa é da vontade”

Sábado, 18 de Setembro de 2010

Originalidades gasosas


Vivemos tempos, sem dúvidas, originais. O PSD teve a originalidade de avançar com uma proposta de revisão constitucional redentora, com o país em máximos de desemprego e em vésperas de discussão do Orçamento de Estado. À boleia do sentido de oportunidade deste, o PS aproveita para vender, entre outras, uma originalíssima defesa do mesmo Serviço Nacional de Saúde que tem andado a dinamizar concedendo a exploração de unidades hospitalares a privados e encerrando Centros de Saúde. Os sub-primos da banca, apesar dos milhões em lucros somados diariamente e de um tratamento fiscal bastante original, queixam-se de uma “pior crise de sempre” que quem os ouça fica com a certeza de ter tido origem em problemas imprevistos surgidos na agricultura da República Centro Africana. Por último, Madaíl, sempre tão original, depois da intranquilidade gerada pela patenteada alergia a tomar decisões e de descobrir que a sua solução consensual é afinal treinador do Real Madrid, deu a conhecer uma aposta na dranguilidade de um treinador notabilizado pelos títulos conquistados ao serviço do Sporting. A imagem junta sugere que todos andarão a abusar do refrigerante que promove a originalidade de uma felicidade alcançável através da escravidão. Antes bebessem vinho. Não sei, nem me interessa, se é mais ou menos original. Gosto mais de vinho. Sabe bem melhor e não emborracha tanto.

Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

Interdito a crianças menores de 5 anos e a adultos sem atraso mental


Se houver algum menino, menina, senhor ou senhora que precise de ir à casa de banho fazer xixi, faça o favor de pôr o dedo no ar. A senhora ministra com toda a certeza não se importará de acompanhá-los. Houve alguém que não tenha percebido a mensagem?

Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

A ganhar é que a gente se entende

O Benfica começou a Champions a vencer e notaram-se algumas melhorias no futebol que apresentou. Hoje, tivemos vitória em vez de derrota, árbitro a roubar o adversário em vez de árbitro a roubar o Benfica e até mesmo um Roberto em grande. Assistimos a uma primeira parte sem brilho na qual, apesar de tudo, a equipa conseguiu alcançar a vantagem através de um golaço de Luisão. Importantíssimo, sem sofrer nenhum golo. Por tudo isto, ganharam visibilidade o estranho desentendimento entre Luisão e David Luiz, as deficiências do inexistente Gaitan e, sobretudo, um desequilíbrio gritante no meio campo, quer nas tarefas defensivas, como também nas transições para o ataque.

Valeram, primeiro, as explosões de Pablo Aimar, o melhor em campo, e alguns passes bem colocados por Carlos Martins e, depois, o acerto de Jesus na substituição de Gaitan por Maxi Pereira, com Ruben Amorim a passar a ocupar o lugar do primeiro, uma alteração no xadrez que teve o condão de equilibrar o meio campo. O Benfica deixou de, como até então, passar por apertos defensivos e, paradoxalmente, porque Amorim é geneticamente menos atacante do que Gaitan, a equipa começou a carrilar o jogo no ataque. O segundo golo lá apareceu, com uma naturalidade insólita: foi marcado pelo muito fora de forma Oscar Cardozo. Seja lá como for, a ganhar é que a gente se entende.

Benfica, 2 - Hapoel Tel Aviv, 0

Lion, 1 – Schalke, 0

Muito bem

O Benfica tomou posição relativamente à sucessão de erros e casos de arbitragem que ajudaram a produzir o pior início de campeonato da História do clube. E sublinho o ajudaram, não é o único factor. Foi pedido aos adeptos para não comparecerem aos jogos da equipa disputados fora de casa. Achei muito bem usarem a superioridade em número dos benfiquistas na tribo do futebol para transformar as receitas dos adversários num denominador comum de interesses capaz de produzir pressões para que haja verdade no futebol. Da minha parte, se continuar a ver um campeonato feito à medida para fabricar um campeão escolhido à partida através de arbitragens manhosas, mando também cortar a Sport TV. E que bom que seria se esta cultura de reacção estivesse presente também na nossa política. Haveria todas as condições para sermos um país a sério.

Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

Chamam-lhe "as novas receitas"

Fica sempre bem dizer que “esta crise não é como as outras”, que “temos que pensar de forma diferente”, constatar que “as regras do jogo mudaram” e, por isso, “esta prova de fogo não se resolve com as velhas receitas”, como fez o director-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, em mais uma imitação de um discurso tantas vezes repetido. Ninguém discordará. Realmente, as regras do jogo mudaram e as velhas receitas, comprovadamente, não servem.

A discordância começa precisamente aí. Apesar do descalabro que provocou, a mudança de regras introduzida pelo comércio livre continua insistentemente a ser considerado um factor positivo e as estafadas receitas da doutrina da rigidez orçamental apresentadas como uma novidade “boa”, apesar de tudo o que tem acontecido, que veio substituir outra, esta “má”, apesar do nível de vida e de crescimento económico no tempo em que vigoraram as suas regras terem sido incomparavelmente superiores aos verificados nestes novos tempos das novidades boas”.

É ao som desta música que a
Europa cresce e decresce, consoante nos encontremos no centro ou na periferia, conforme falemos em rendimentos do capital ou em rendimentos do trabalho. Já lá vai o tempo do crédito fácil, que serviu para enriquecer o sector financeiro e para manter a ilusão de manutenção de um poder de compra perdido por eleitorados com salários cada vez mais baixos e vínculos laborais com durações e estabilidade em imparidades cada vez maiores com as obrigações decorrentes dos créditos contraídos. Na sua vez, trazida pela crise assim cavada, a mina de ouro são agora os endividamentos dos países que não crescem, postas a render nos bancos franceses e alemães pelos senhores de Bruxelas. A Europa cresce ao centro, mas não cria nem emprego, nem bem-estar.

Ao mesmo tempo, resignados ao papel que lhes vai cabendo em sorte, enriquecer a banca do e o centro da Europa, nos países da periferia constata-se que as “novas”, “boas” receitas afinal são fábricas de desemprego e de pobreza, mas apenas porque foram brandas na dose de brutalidade administrada. Há que aumentar a dose. Mais ou menos intensamente, enquanto o poder não mudar de mãos, vai continuar a doer.

Sábado, 11 de Setembro de 2010

Orelhas de Burro

Pale Saints- "Blue Flower"

Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

O jogo do "mais uma vez"

Desde já, aviso que este será um post chato e repetitivo. O Benfica acaba de disputar um jogo do “mais uma vez”. Mais uma vez, foi prejudicado indecentemente por uma arbitragem que condicionou decisivamente o resultado. Nestas condições, qualquer análise perde sentido. Mas foram nítidas, mais uma vez, a falta de condição física da equipa, a falta de confiança, de intensidade no passe e, sobretudo, de colectivo. Os erros defensivos voltaram a ser mais do que muitos e algumas pedras, nomeadamente David Luiz, Maxi, Javi e Cardozo, estão irreconhecíveis. Ainda falta muito campeonato, mas recuperar os 9 pontos perdidos em 12 possíveis afigura-se uma improbabilidade. Esta não será uma época como a anterior, está mais que visto. Este foi o pior começo de temporada de todos os tempos.

Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

Sucesso à vista

O Ministro das Finanças voltou, hoje, a falar de um esforço “muito sério” na redução da despesa pública para que seja atingida a meta de redução do défice orçamental de 7,3 para 4,6 por cento. Quantificando-o, entre 4 e 4,5 mil milhões de euros, é de antever um sucesso a explorar como “retumbante”. Bastará lembrar que no défice de partida está incorporado um valor semelhante, que corresponde à despesa relativa à socialização, decidida pelo Governo, dos prejuízos gerados pela habilidade dos ex-administradores de BPN e BPP, a maioria dos quais anda por aí, à solta, a gozar as fortunas que construíram à custa dos esticões que continuam a sentir-se nos cintos dos contribuintes portugueses.

A probabilidade de este sucesso antecipado é, assim, da mesma dimensão da improbabilidade de uma repetição, nos tempos mais próximos, deste que foi um dos maiores roubos da nossa História. Mas note-se que, sem o peso de um novo cocktail BPN-BPP, Exigir-se-ia bem mais. Recorde-se que deixou de pesar na despesa a brutalidade imposta pelo Governo e associados na oposição através dos cortes nos apoios sociais e no aumento de impostos que entretanto decidiram conjuntamente, já para nem mencionar os milhões em receitas fiscais que PS e PSD se recusam a deixar de oferecer a quem tem o poder de lhes fortalecer as convicções. O Estado pesa, pois pesa. Pesa imenso.

Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010

A tal cultura

Segundo dados do Eurostat, avançados há cerca de duas semanas, o desemprego em Portugal atingiu novo máximo histórico desde que há registos, nos 11 por cento. De pronto, José Sócrates apareceu com outros números mais à medida da sua pesporrência optimista. O desemprego diminuía abruptamente em poucos segundos. Em política, as verdades são, podem ser, relativas.

Poucos dias depois, ontem, após o empate caseiro inédito com o Chipre, a selecção nacional de futebol repetiu o ineditismo com uma
derrota fora com a Noruega. A avaliar pelo destaque mediático dado a ambas, esta, sim, é uma tragédia a sério. E ninguém se atreveria a imitar o vomitador de rosas na produção de um número de branqueamento da situação. Qualquer esforço nesse sentido seria imediatamente identificado como uma tentativa ridícula de explicar e contrariar o inexplicável. Em ambos os casos – também na hierarquização do grau de importância de cada uma -, aquela impossibilidade coloca-se porque existe na sociedade portuguesa cultura futebolística em dose suficiente para limitar a acção àqueles criativos que em questões de natureza política e económica encontram na ignorância toda a liberdade, quer para venderem realidades e soluções à medida das conveniências que representam, quer para se recrearem em manobras de diversão da atenção geral para questões de importância tão relativa como a da “tragédia a sério” de ontem.

Sente-se na sociedade portuguesa uma enorme falta de cultura política. Verifica-se também que tenta preservar-se o melhor possível essa ausência. Exemplo disso, por estes dias, decorre em Budapeste uma reunião em que se procura um novo modelo capaz de responder à crise mundial que o neoliberalismo teima em continuar a cavar. Dado estarem presentes 35 dos maiores economistas da actualidade e, entre eles, haver um português, seria mais do que natural a sua mediatização, por mínima que fosse.

Porém, a corrente em questão não é aquela que, por mais que fracasse, todos os dias nos é bombardeada. Para além disso, o português que se senta ao lado da elite mundial de académicos não é alguém com a proeminência e os pelo menos 60 minutos de eucaristia semanal de Medina Carreira. O organizador da conferência, o «Institute for New Economic Thinking (INET),, convidou
Francisco Louçã. Entre nós, o primeiro é o Prof. E o segundo é simplesmente o Francisco, o Louçã. Lá fora, o segundo é respeitado e ouvido e ao primeiro (e suas réplicas), de quem provavelmente nem nunca ouviram falar, deixam-nos para consumo interno de uma plateia nacional convencida de que a ciência económica é essencialmente verborreia apocalíptica. “Cultura do mérito” e “promoção da excelência” são duas das expressões mais recorrentes na tipologia de programas que fazem estrelas estas mediocridades. Chamam-lhe informação. A tal cultura.

Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

Aqui há palmas

“Bute” lá todos bater palmas no espectáculo do Zé Manel, que senão pagam multa. Podia ter sido assim, há muitos anos, numa daquelas festas de antigamente em que à organização não escapava sequer a imposição aos meninos figurantes do uso de chapelinhos todos da mesma cor. Naquele tempo, faziam-se festinhas muito bonitas. E, hoje, também.

No Parlamento Europeu, descuram-se pormenores como a cor dos chapelinhos, mas faz-se de tudo para que nos espectáculos a plateia esteja repleta. A proposta de multar os eurodeputados que não estivessem no Parlamento durante o “debate” do estado da União
não passou, mas o show fez-se na mesma. Sabiam que a Europa soube responder muito bem àquela crise que entretanto já se foi embora? Ou que a regulação do sistema financeiro onde os contribuintes pagam os desvarios de administradores de idoneidade duvidosa mas muito bem paga é mesmo para avançar? Investimento público para relançar a economia e o emprego, só mesmo no país de onde os organizadores do espectáculo importaram o formato hoje utilizado pela primeira vez. Eles precisam, são menos optimistas e mais gastadores do que do lado de cá do atlântico. Têm muito a aprender com a competência da equipa de Durão. Enquanto a crise ainda se passeia por lá, a Europa está bem e recomenda-se. É tão bom viver aqui.

Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

Dá para tudo

Tem-me custado regressar à escrita. Não que não ande a acontecer nada. Aos poucos, a silly season vai-nos deixando. Mas sinto aquela sensação, que detesto, de estar a repetir-me. No fundo, e sem ser no fundo, o que vai acontecendo é uma repetição de episódios passados que, ao invés de despertar desejos de mudança na maioria dos meus compatriotas, vai alargando os seus padrões de normalidade, fazendo o conformismo sobrepor-se ao surgimento de reacções de exigência e de procura de alternativas. E elas existem.

Foi com esta sensação de saturação que assisti ao desfecho do primeiro capítulo, de três possíveis, do caso Casa Pia. Nessa manhã, tamanhas proporções assumiu a normalidade deste nosso Portugal, já dados como provados os crimes cometidos por todos os arguidos, chegou a admitir-se a possibilidade de poderem vir a não ser condenados.
Aqui, lia-se que “todos os arguidos do processo Casa Pia podem vir a ser condenados hoje, dado que o tribunal já considerou provado que cometeram ou favoreceram abusos sexuais com ex-alunos da instituição.” “Podem vir a ser” em vez de “serão”, porque poderiam não sê-lo. Tudo parece possível.

Depois de conhecida a sentença, a chinfrineira aumentou de intensidade. Muito poucos fizeram notar a ausência da Casa Pia instituição no banco dos Réus. Teria que ter estado. É à Casa Pia que são confiados os destinos de milhares de putos indefesos. Não soube estar à altura da confiança que a nossa sociedade nela deposita. Deveria ter sido julgada. E muito poucos – se houve algum, não ouvi – ressaltou a incapacidade, deliberada ou não, dos três partidos que se têm alternado no poder em terem deixado a nossa Justiça chegar ao ponto a que chegou. Parece fatalidade, têm que lá estar os mesmos três de sempre, para que também a Justiça se degrade cada vez mais. Este não é um caso isolado. É apenas mais um de uma longa série. E não será o último

A oportunidade foi por muitos utilizada para diagnosticarem o óbvio, que Um sistema assim desenhado está feito à medida da impunidade e da suspeição. De um lado, a constatação de uma impunidade gerada por uma prescrição mais do que garantida, do outro, uma maré de suspeições a que estão sujeitos todos aqueles menos apreciados por quem tem um poder, não menos importante do que o da própria Justiça, de ter tempo de antena nos meios de comunicação social para expressarem lealdades a quem sabe recompensá-los devidamente. De um lado foram pondo os inocentes que, aparentemente sem certezas, a Justiça considerou culpados. Do outro, foram colocando como seguramente culpados quem – não o disseram abertamente - a Justiça nem sequer julgou. E, doutro ainda, fizeram as vítimas dos crimes mais horrendos desaparecer de cena. Até pareciam ser a parte menos importante de toda esta história macabra.

Finalmente, como a Justiça sentenciou criminosos sem mandá-los para instalações mais apropriadas para si do que um estúdio de televisão, As várias estações acotovelaram-se para entrevistarem as suas inocências. No meio deste alvoroço de palpites e entrevistas, um deles até prometeu ir ao fim do mundo buscar outra Justiça mais a seu gosto. Pode bem fazê-lo. Até à prescrição, os apoios e o tempo não lhe faltam. Sobretudo, continua um homem livre para fazer o que os apetites mais sinistros lhe sentenciarem. Dá para tudo. A aceitação geral deste mundo gasoso sugere-se infinitamente elástica. Estou fartinho disto.

Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

Regresso

Regressamos. Onde mesmo é que tínhamos ficado? Já nem me lembro bem, o que não deixa de ser bom. As férias também se fizeram para isso, evitar a saturação.

E este não foi um Verão muito diferente do costume. Portugal voltou a arder muito mais do que países com um clima semelhante. Continuamos, também neste capítulo, a pagar a factura da permanência no poder de uma classe de incapazes, quer na prossecução de políticas de prevenção, quer na gestão de meios de combate a um flagelo que continua a fazer misérias, mas também fortunas.

Sem sair dos temas Verão, fortunas de proveniência duvidosa, crimes ambientais, captura do interesse público e daquela ineficiência tão favorável ao enriquecimento daqueles que melhor se movimentam na cada vez mais estreita fronteira entre poder político e poder judicial, a silly season foi o momento escolhido para, sem levantar grandes ondas, tornar pública uma alegada falta de tempo para inquirir o mais ilustre dos envolvidos no caso Freeport, bem como poupar mais uns quantos a um julgamento improvável num sistema que tem como figuras de proa um entretanto reclamado sósia da Rainha de Inglaterra e respectivo séquito de superlativos de despudor.

Para terminar este que já alonguei demasiado, uma derradeira nota para alguém que, nas últimas semanas, tem aparecido como vítima, não apenas das famosas campanhas negras que costumam surgir na boca de engenheiros fabricados ao Domingo, como também daquele Estado que a todos apoquenta, isto na versão de um tal boneco sempre irrepreensivelmente penteado pela própria voz aveludada e vestido a rigor pela libertação do vil opressor prometida no vasto reportório de boas intenções. Refiro-me, obviamente, ao seleccionador que, embalado pelas balelas mais em moda, embora suspenso, permanece em funções, ou, se preferirem, permanece em funções apesar de suspenso. Não despega. Exactamente como acontece com os inspiradores do seu vitimário. Como podem verificar, nada de substancialmente significativo mudou durante as férias asininas. E evitemos falar de futebol, ok?