Certos contornos desta embrulhada, bem como o crescendo de reacções populares violentas que tem suscitado, estão a passar ao lado das notícias veiculadas pelos media nos restantes países debaixo do fogo do FMI e seus aliados do eixo europeu. No final da semana passada, um atentado à bomba em pleno coração de Atenas, dentro do edifício do Ministério da Protecção Civil, aquele que supervisiona as polícias, causou a morte ao chefe de segurança do ministro. Habitualmente, este tipo de notícias costuma ser explorado exaustivamente. Não foi o caso. Na sua vez, para além do futebol, ouvimos falar das virtudes da austeridade e dos sacrifícios que há que acolher como castigo divino pelo que não fizemos num clima de aceitação e paz social. Primeiro, limitaram-se as escolhas com aquela conversa da inevitabilidade. Agora, o condicionamento trabalha no campo das reacções para evitar o contágio. Não foi notícia, não aconteceu. Individualmente, cada cidadão é demasiado pequeno para poder reverter a trajectória que querem impor. Do silenciamento nascem falsas solidões.
Quarta-feira, 30 de Junho de 2010
Não passa nas televisões
Certos contornos desta embrulhada, bem como o crescendo de reacções populares violentas que tem suscitado, estão a passar ao lado das notícias veiculadas pelos media nos restantes países debaixo do fogo do FMI e seus aliados do eixo europeu. No final da semana passada, um atentado à bomba em pleno coração de Atenas, dentro do edifício do Ministério da Protecção Civil, aquele que supervisiona as polícias, causou a morte ao chefe de segurança do ministro. Habitualmente, este tipo de notícias costuma ser explorado exaustivamente. Não foi o caso. Na sua vez, para além do futebol, ouvimos falar das virtudes da austeridade e dos sacrifícios que há que acolher como castigo divino pelo que não fizemos num clima de aceitação e paz social. Primeiro, limitaram-se as escolhas com aquela conversa da inevitabilidade. Agora, o condicionamento trabalha no campo das reacções para evitar o contágio. Não foi notícia, não aconteceu. Individualmente, cada cidadão é demasiado pequeno para poder reverter a trajectória que querem impor. Do silenciamento nascem falsas solidões.
Terça-feira, 29 de Junho de 2010
Acabou-se a anestesia
“Olha lá, pá, se voltas a jogar com menos três, desta vez, lixas-te mesmo”. O-das-tácticas fartou-se de repeti-lo ao manias. Este, surdo, teimava: “pá, se com menos três empatámos com o Brasil, número 1 da FIFA, se jogar com menos dois, chega perfeitamente para o número 2. Isto é matemática, pá.” E assim foi. Dois laterais direitos a ver no banco e um central a jogar adaptado, dois trincos a ver no banco e um central coxo a jogar adaptado ao lugar. Graças a Eduardo e ao lado não direito da defesa, a coisa até correu bem enquanto a Espanha não atinou e Pepe não estourou. Mas a Espanha atinou e, como era previsível, Pepe estourou. Então, Queiróz, num golpe de mestre, retira Hugo Almeida, um dos melhores, para fazer entrar uma coxa elástica. Finalmente jogávamos com a sua táctica dos menos três, fora os ameaços de portento que, na necessidade de render mais do que cem por cento, rendiam pouco mais de metade. Naturalmente, a Espanha marcou, apesar da exibição do outro mundo realizada pelo guarda-redes nacional. Evitou a cabazada e tornou o 1-0 da derrota num excelente resultado. Depois, mais nada. Os navegadores passaram a Caparica, dobraram a Fonte da Telha, mas regressam à base sem avistar Sesimbra. Acabou-se o parêntesis. Amanhã, regressa a crise. Só falta encerrar o capítulo Queiróz e, se pedir o ideal não estiver proibido, Madail que o acompanhe.
Com mil e nove cuidados
Hoje, para que não restem dúvidas sobre quem manda, o PSD fez saber que só haverá negociações formais se o PS satisfizer previamente as suas condições, que tornou públicas. E não são nem uma, nem duas, nem três. São nove. Manda quem pode. O PS faz. E tenho para mim que, no final da história, ainda vai sobrar para os funcionários públicos. Poupar-se-ia um alvoroço de milhões de decibéis ao caciquismo local e, para além do mais, a grande moda na Europa é cortar-lhes no vencimento. Dizem as más línguas que o Estado anda demasiado gordo. Evidentemente, não do lado que, por cá, tem engordado as clientelas da prodigalidade público-privada dos dois partidos e do outro, o dos submarinos. Desse lado, há mil e nove cuidados para que o Estado se mantenha como está. Gordinho, bem repartidinho, tudo se ajeita. (editado)
Segunda-feira, 28 de Junho de 2010
EU NÃO QUERO! - Passa a palavra
Isto a propósito do anúncio triunfal de Angela Merkel do compromisso alcançado (ou a alcançar, apesar da divergência de alguns países) na cimeira do G20, a decorrer no Canadá, de os 20 mais ricos do mundo reduzirem para metade os seus défices até 2013.
É uma meta que prejudica Portugal dramaticamente. Reduzir défices é reduzir a capacidade de contornar a crise através da compensação da falta de investimento privado com investimento público. É reduzir o Estado ao mínimo. É espartilhar a política num quase nada. Impor austeridade a quem vive cada dia pior é deprimir um mercado interno que haveria que dinamizar para que criasse emprego. E impor a mesma austeridade nos países de destino das nossas exportações é deixar Portugal também sem mercado externo, sem quaisquer alternativas para a criação de emprego que possibilite sair do buraco em que se encontra.
Voltando à violação, PS, PSD e CDS-PP, como tem sido seu hábito, colaborarão com a líder alemã que os portugueses não elegeram nem nunca elegerão. Sem esboçarem o tal “NÃO QUERO”, nem ao menos timidamente. Pelo contrário. E os seus comentadores de serviço farão o habitual papel de vaselina para consciências nas televisões, rádios e jornais, para estancar a reacção popular que sentem em crescendo.
E eu NÃO QUERO. Vejo-me representado por quem ajudei a eleger neste “sobre a crise e os meios de a vencer”. Para ler, reflectir e divulgar por todos aqueles que também dizem “NÃO QUERO” à viagem sem regresso à realidade da idade das trevas da fome e da exploração em que viveram os nossos pais e avós, lutando para que não a conhecêssemos. Sem “NÃO QUERO”, quando nascer o monstro, não valerá de nada gritar que foi violação.
Domingo, 27 de Junho de 2010
Salvem os ricos
Um dos argumentos tantas vezes repetidos para dar utilidade à inutilidade da concentração da riqueza pelos, apesar de eleitos maioritariamente por não milionários, representantes dos interesses dos mais afortunados no poder político é o da criação de emprego. Porém, os números vão mostrando que a correlação que apontam não passa de um mito conveniente.
Durante o ano passado, à semelhança do que acontece no resto de um mundo dominado pela mesma ideologia que vê no fenómeno uma virtude, segundo o estudo “World Wealth Report
A especulação imobiliária e bolsista é apontada pelo relatório como a principal alavanca que possibilitou que 600 portugueses se pudessem juntar a outros 10400 num grupo de agora 11000 milionários. Ao mesmo tempo, do outro lado da crise, o desemprego cresceu como nunca e o número de desempregados foi batendo records com mais de 50 anos, ultrapassando a barreira dos 600 mil. As grandes fortunas, as mais-valias bolsistas e as operações com off-shores observaram a cena de longe, livres de impostos, para que eles continuem a enriquecer ou, como preferirem,, como se diz por aí, a criar o emprego que não criam. As empresas produtoras de bens transaccionáveis e quem viva do seu trabalho que lhes paguem as borlas.
Sábado, 26 de Junho de 2010
Sexta-feira, 25 de Junho de 2010
A táctica das três nulidades
Seja lá quem foi que deu a táctica a Queiróz para o jogo contra a Coreia, não se lhe notou a presença na partida contra o Brasil. A selecção nacional voltou a jogar na táctica das três nulidades e foi só nadar durante toda a primeira parte, com o Brasil a esmagar, a produzir as duas melhores oportunidades e com quase o dobro de posse de bola.
Depois do intervalo, entrámos bem, mas continuávamos a jogar com menos três unidades. Então, lá apareceu o das tácticas. Havia Duda e faltava Simão, Simão entrou e melhorámos; havia Pepe e faltava Pedro Mendes, Pedro Mendes entrou e melhorámos; e havia Dani e faltava Hugo Almeida, Hugo Almeida não entrou, nem Liedson, e não melhorámos. Ficámos em segundo no grupo, daquele lado onde estão Argentina e Alemanha, selecções que, se vencêssemos o jogo de hoje, defrontaríamos apenas se chegássemos à final,. O senhor das tácticas foi-se embora antes da última substituição. A jogar com 8, o empate a zero acaba por nem ser mau de todo. Venha agora a Espanha. Seria óptimo voltar a jogar com onze.
A seguir, novos "privilegiados"
Já ninguém se lembra daquela música da flexigurança que serviu para impingir o Código de Trabalho da precariedade com o qual o poder político fez aumentar a pressão para que os salários baixem. Dentro em breve, previsivelmente, o sistema fabricará novos falsos "privilegiados", a eleger entre aqueles que entretanto não sejam colhidos pela onda de regressão social que se tem implementado. A regressão reproduz-se produzindo argumentos para novos desenvolvimentos. Nesta lógica, porque menores salários se traduzem em menores descontos, o sistema que foi desequilibrado com o achatamento salarial idealizado será, como tem vindo a ser, reequilibrado através de novos aumentos da idade de reforma, mantendo no activo velhos a ocuparem empregos e vedando aos jovens o direito ao trabalho. Inevitabilidades, dizem os “especialistas”. Quanto mais raras forem as oportunidades de emprego, maior a vulnerabilidade de quem, para sobreviver, tem que aceitar condições de trabalho cada vez mais miseráveis. Sócrates diz que a melhor forma dos responsáveis políticos ajudarem o país a ultrapassar a crise é “dar confiança” aos trabalhadores e empresas, em vez de os “diminuir e apoucar”.
Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
A escravatura dos favores
A eurodeputada socialista Ana Gomes acusou hoje a Procuradoria-Geral da República e a procuradora Cândida Almeida de terem feito um “frete político” ao arquivarem a investigação aos chamados voos da CIA. Não é o primeiro frete, também não será o último. Quem é eleito através de arranjinhos fica para todo o sempre escravo de quem lhe fez o favor. Ler aqui.
Isto é que é estabilidade
Quarta-feira, 23 de Junho de 2010
E só se ouvem as vuvuzelas
Estas linhas saltam-me dos dedos empurradas pelo eco de um dos convidados de ontem de Mário Crespo, de apelido Cantigas, que usou o tempo de antena que raramente é concedido a quem não sopra esta vuvuzela para dar duas ou três cornetadas contra o Estado social, segundo ele, uma experiência fracassada que apenas servirá de alguma coisa se soubermos aprender com os erros. “Não podemos continuar a pagar cada vez mais impostos para manter serviços públicos e prestações sociais cada vez mais caros”, foi mais ou menos esta a ideia que o seu tom professoral soprou aos ouvidos de telespectadores, como eu, fartos ver a carga fiscal a aumentar e as prestações sociais e a qualidade dos serviços públicos a reduzirem-se todos os dias.
O Estado social estrebucha, é verdade. Há que aprender com os erros, disse o senhor cantigas. Inteiramente de acordo. Os erros que identifico é que não são os mesmos.
O Estado social não é insustentável em si mesmo, como é repetidamente sugerido. Ressente-se das alterações introduzidas na repartição do rendimento pelo modelo entoado por todos os tocadores desta vuvuzela que, ao mesmo tempo que defende uma precariedade que diminui salários, a base de incidência dos descontos (as receitas fiscais diminuem com a redução salarial promovida), fazem o melhor que podem para que as empresas sejam um corpo o mais estranho possível nas contribuições para uma sociedade que parece ter por única função proporcionar-lhes lucros. Ao cúmulo de a tributação das transacções com os paraísos fiscais, potenciadoras da evasão fiscal e do crime, ser uma solução completamente afastada pelas suas cornetas
Da mesma forma, é também mais do que imediato que o Estado social se ressinta quando, para além de diminuírem em termos absolutos, os impostos e descontos são desviados para satisfazer outros objectivos, tais como o enriquecimento de construtores de auto-estradas que não são necessárias e de outros bafejados com adjudicações com a mesma tipologia de condições contratuais de amigo. E para financiar a delinquência banqueira. E para financiar os custos de uma dívida maximizada pela especulação, com a colaboração do BCE e dos poderes de Bruxelas.
Não fossem as vuvuzelas, tudo isto seria mais do que evidente. AS vuvuzelas e os corneteiros tornam o saque a virtude que há que salvar e o Estado social o inimigo das pessoas e da economia, que há que abater. E que ninguém ouse observar a inversão, sob pena de nunca mais ser convidado para tocar a vuvuzela por nenhum compositor da realidade que se quer inevitável. Esta é a oportunidade para fazer realidade o velho sonho de mercado. Mate-se o Estado social. E abafem-se os desafinados. Para que morra em paz.
Terça-feira, 22 de Junho de 2010
Agarrem-me, senão eu esqueço-me
O PSD fez um ultimato ao Governo: ou diz se avança para a cobrança de portagens em todas as Scut até 9 de Julho - dia em que o Parlamento aprecia o decreto que determina o pagamento das portagens nas três Scuts – ou, nesse mesmo dia, votará a favor da revogação do diploma que introduz as portagens no Litoral Norte, Costa de Prata e Grande Porto. Ou, então, não será bem assim e até lá esquece o ultimato.
Segunda-feira, 21 de Junho de 2010
Festival do ketchup e do cupim
Portugal embalou para uma exibição espectacular a partir do primeiro golo. Até aí, notou-se alguma intranquilidade e, nessa fase mais equilibrada do jogo, os coreanos criaram perigo por diversas vezes. Depois, deu para tudo. Para Ronaldo sinalizar presença aos próximos adversários com o ketchup que lhe faltava, marcando um incrível golo à cupim e sagrar-se o homem do jogo, para Simão Sabrosa ficar para a História como o primeiro jogador português a marcar em duas fases finais de um mundial, para Fábio Coentrão consolidar o seu estatuto de indiscutível e para o conjunto que esteve em campo deixar no ar uma questão importante: Queiroz enganou-se ou será que alguém lhe deu a táctica para o jogo? Há coisas que só acontecem uma vez na vida e os erros quase nunca têm desfechos tão felizes.
O prémio
Mas o Governo tarda a emendar a mão. Enquanto insiste no erro, fazendo perdurar as perdas e os ganhos acima enumerados, volta-se agora para o mercado de longo prazo com a emissão de títulos da dívida pública a 5 e mais anos. E a nova aventura tem em comum com a anterior a mesma filosofia que veda aos pequenos os ganhos que oferece aos grandes.
O Estado português tem-se endividado no mercado a um juro situado em torno duns 5 por cento que a especulação tende a fazer subir. Negligenciando essa pressão e fazendo as contas a quanto rendem 1000 euros remunerados a 5 por cento durante 10 anos, chegamos ao valor de 1628,90. Comparando-os com os 1523.50 euros que resultam como remuneração dos mesmos 1000 euros durante o mesmo período mas agora à taxa oferecida pelo Governo para os títulos da dívida pública que disponibiliza aos pequenos aforradores, a diferença é ligeiramente superior a 105 euros (quase 7 por cento mais). Um valor a multiplicar pelos milhões de 1000 euros que o país precisará para satisfazer as suas necessidades de financiamento e que, pelos vistos, o Governo não se importa de pagar a juros mais elevados que encarecem a nossa dívida. Desde que quem venda o crédito não seja um pequeno aforrador, paga-se mais. E quem paga a diferença? O pequeno aforrador, na qualidade de contribuinte. Tem prémio.
- Nota irrelevante para a informação responsável nacional: se o BCE financiasse as dificuldades de liquidez dos Estados da mesma forma que financiou as da banca comercial, a 1 por cento, a dívida do Estado português ficaria mais barata 524 euros em cada 1000 euros obtidos no mercado e remunerados a 5 por cento num prazo de dez anos. A decisão de não o fazer sobrecarrega os contribuintes e premeia a banca francesa e alemã, as que mais lucram com o negócio criado à sua medida pelos senhores da Europa.
Sábado, 19 de Junho de 2010
Sexta-feira, 18 de Junho de 2010
Até sempre
®Tomatoless
Colocado o poder nas mãos de burocratas não eleitos, tudo isto desapareceu. Os cidadãos deixaram de ser uma variável a considerar na tomada de decisões. A pressão política é agora exercida por uma classe de especuladores que tomou conta do mundo e o poder orienta toda a sua actuação para a satisfação dos seus caprichos. Os líderes da União Europeia (UE) procuraram ontem aliviar a pressão dos mercados financeiros sobre o euro em geral e a Espanha, em particular, ao decidirem revelar a situação dos bancos europeus e sossegar as dúvidas dos investidores sobre a sua solidez financeira. Faço votos de que da próxima vez a acalmia dos mercados exija que todos eles mostrem as cuecas. Obedecem-lhes sempre com prontidão. Também tenho fortes dúvidas de que em algumas se note a saliência da casa das máquinas.
Quinta-feira, 17 de Junho de 2010
Muito à frente
Hoje, lembrei-me dela porque um dia, à mesa do café, propôs a uma amiga festejarem a passagem de ano no dia 5, mais conveniente porque nesse dia chegavam uns amigos e assim podiam comemorar todos juntos. Rimo-nos. Coisas da Luísa “bigodes”. Ela ficou convencida de que era "muito à frente", incompreendida.
E lembrei-me dela ao ler que duas deputadas do PS propuseram algo de muito semelhante: transferir dois feriados religiosos e dois civis para a Segunda-feira do fim-de-semana respectivo, porque “o que interessa é o conteúdo e não o dia do próprio acontecimento”, conforme explicou uma das proponentes. A mesma explicação da Luísa. Desta vez, não me ri. A Luísa hoje está num hospício. Esta senhora é deputada. Em vez de estar onde está, a Luísa podia bem ser deputada eleita como os Luíses e as Luísas que, em vez de se rirem com a ideia de um 25 de Abril comemorado a 28, aprovaram a proposta com comoção patriótica. Se calhar, a nossa bigodes não era assim tão chanfras. O que lhe faltou foi mais integração e quem a compreendesse. Teria ido bem longe na vida. Que desperdício. Era uma visionária, pese embora estar seguro de que também não lhe ocorreria que depois de uma Segunda vem sempre uma Terça e que uma falta nesse dia produz os mesmos quatro dias de descanso consecutivos onde os seus seguidores encontraram a chave da produtividade do país. Adiantamento mental, é o que é. Eles vêem o que nós não vemos.
Salve-se quem puder
A escolha mais acertada
Quarta-feira, 16 de Junho de 2010
Mãos ao ar
A poluição vai mesmo ficar por cá
Sacrifícios para quê e para quem
2. O Governo já pagou o empréstimo de 450 milhões de euros que seis bancos portugueses concederam ao Banco Privado Português (BPP), uma operação sem risco graças a um aval do Estado decidido pelo Governo num momento em que já era certa a sua insolvência.
3. A lei determina que o tempo máximo de espera por uma consulta de especialidade muito prioritária não deve ultrapassar um mês. Mas, no ano passado, os doentes a aguardar pelas primeiras consultas hospitalares mais urgentes esperavam o dobro do tempo, em média. E, nos casos da Oftalmologia, a espera média atingia os 123,5 dias, mais três meses do que a lei prevê. Um terço dos pedidos de consultas de especialidade apresentados em 2009 transitaram para 2010.
4. Os alunos portugueses têm problemas no domínio da língua, mais concretamente na compreensão da leitura e da escrita.
5. A escola EB 1 de Várzea de Abrunhais, em Lamego, uma das poucas no mundo que foi distinguida pela Microsoft pela utilização de novas tecnologias no ensino, vai fechar devido ao reduzido número de alunos.
6. A Comissão Europeia confirmou que o método de fornecimento dos primeiros computadores Magalhães é ilegal face ao direito comunitário. A JP Sá Couto passou de empresa falida a empresa altamente lucrativa. O boom de 1300 por cento nas vendas bem pode agradecê-lo ao Governo Sócrates e ao Magalhães. Porém, que não se pense que as especificidades do ramo de negócio se ficam pelas janelas de oportunidade que são abertas pelas ligações ao poder político. A empresa também recebe visitas das autoridades judiciais com alguma frequência. A tal ponto que João Paulo Sá Couto, um dos seus donos e arguido por suspeitas de fraude fiscal, até as chama de “visitas de rotina”. Nada de stress.
7. O regime excepcional de contratação pública utilizado no programa de modernização das escolas suscitou enorme contestação por parte dos partidos da oposição, em particular o Bloco de Esquerda e o PCP, que questionam os critérios para adjudicação de obras, nomeadamente a ausência de concurso público e o recurso ao ajuste directo, bem como a concentração de obras em grandes empresas.
8. Submarinos, especulação e off-shores isentos de impostos, auto-estradas, BPN, contentores, sobreiros, SUCH, empresas públicas e empresas municipais feitas para empregar boys, excepções ao congelamento de admissões na função pública nas autarquias, excepções na redução de salários de políticos a acessores e demais nomeados, empréstimos à Grécia, etc, etc, etc.
Terça-feira, 15 de Junho de 2010
Navegadores destes não passam da Caparica
Escravatura para a vida, a bem da Nação
Durante a última década, Portugal teve duas reformas da legislação laboral, ambas com o mesmo pendor de regressão social e ambas com resultados catastróficos. Foram introduzidas “porque era necessário promover o emprego e a competitividade da economia portuguesa, mas resultaram como lubrificantes na destruição de emprego e como reforços de uma competitividade baseada em precariedade e salários baixos, historicamente a principal causa do nosso atraso estrutural e hoje uma das principais causas da quebra abrupta da taxa de natalidade portuguesa. O PSD negligencia estas experiências fracassadas e quer fazer de conta que haverá criação de emprego se a precarização for alargada indefinidamente até à eternidade.
Mas o fazer de conta deste PSD não se fica pela criação de emprego. Quer-se, ou quer-nos, convencer que ue esta crise termina em 2013. Será bom não confundir ideias. O que termina nesse ano são os fundos estruturais comunitários que foram desperdiçados por PS e PSD e será também nesse ano que começaremos a pagar as obras públicas desnecessárias com que ambos os partidos enriqueceram as suas clientelas e compraram os votos daqueles que ainda hoje, apesar dos estardalhaços episódicos, fingem que não existem outras alternativas de governação no espectro partidário nacional.
Segunda-feira, 14 de Junho de 2010
Conversa fiada daquela que distribui fortunas
Indevidamente, como vimos aqui, a administração do SUCH fez voar milhões em dinheiros públicos para bolsos privados. Hoje, a nova administração diz que a exoneração da anterior teve por base relato confidencial, provisório e não contraditado, bem como a necessidade de que aquele serviço passe a ser gerido segundo uma nova lógica,tão nova como a da missão que deveria ter desempenhado desde a sua criação. A conversa fiada habitual. Costuma resolver. Mas, se ouve, como aponta o Tribunal de Contas, apropriação indevida de dinheiro público, as explicações têm obrigatoriamente que ser públicas. Era só o que faltava que os portugueses não tivessem o direito de saber como são empregues as suas contribuições para uma sociedade melhor. As explicações têm que ser claras e inequívocas. E, para encerrar este caso, não bastará exonerar administradores e colocá-los na prateleira à espera de nova nomeação. Há, em primeiro lugar, que fazer voar o dinheiro que era de todos dos bolsos de quem dele se apropriou indevidamente, obrigando-os a devolvê-lo à procedência. Houve viagem de ida, tem que haver viagem de volta..Depois, os tribunais que façam o seu trabalho no âmbito criminal.
Assim nem parece tão mal
Mistérios irrelevantes na hora de votar
Seria importante perceber como é que, já depois da adjudicação, Paulo Portas e Governo respectivo autorizaram ao consórcio ganhador do concurso dos submarinos o aumento de 1,9 para 2,5 por cento da sua margem de lucro (spread). É, no mínimo, estranho que, tendo garantido uma negociação a preços mais vantajosos para o Estado que representavam, tenham depois permitido a deterioração dos termos do negócio. Porém, os Governos Sócrates perderam o rasto a um conjunto de documentos relativos ao financiamento da aquisição dos dois submarinos alemães, entre eles a carta que o consórcio bancário BES/Crédit Suisse First Boston terá enviado ao então ministro da Defesa, Paulo Portas, em 2004, a solicitar uma renegociação mais vantajosa para si e menos para o Estado.
Das duas, uma: o desaparecimento ou resultou da camuflagem deliberada de uma prática que é um forte indício de, entre outros, enriquecimento ilícito, exercício de cargo público em proveito próprio, corrupção e tráfico de influências, e o actual Governo por alguma razão apostou em contribuir com a sua conivência para que não se apure a verdade em todo este caso, ou, o que não é melhor, o mesmo resultado é fruto de uma irresponsabilidade e incompetência do tamanho dos milhões apropriados por mãos muito sujas que continuarão a passear-se por aí como se fossem as da venerada virgem Maria.
Sábado, 12 de Junho de 2010
Sexta-feira, 11 de Junho de 2010
Faz de conta que foi muito bom
As palavras e as ideias bonitas marcam sempre qualquer comemoração. Quando se comemora um êxito, são justificadas, quando se comemora o que poderia ter sido, repetem-se lugares comuns e valorizam-se pequenos sucessos que desejam vender-se como um êxito em toda a sua plenitude. Se hoje continuam a ser raras as vozes que se atrevem a dar nota negativa à integração europeia, não me importo nada que a raridade da minha se junte a tantas outras, que não são tão poucas assim, e que, ao contrário do sugerido pelo unanimismo imperativo do discurso dominante, tal como fazer de conta que foi excelente, não fazem da nossa integração nem melhor, nem pior. Foi a que foi. Entrámos e continuamos como um pedinte de mão estendida disposto a dançar, cantar ou seja lá o que for que quem tem a cobiçada moeda se lembre de nos mandar fazer, sempre com medo de que um pequeno deslize no passo ou no tom nos possa fazer perder a recompensa das nossas mesuras. Abdicámos daquele papel activo na conservação da Europa dos cidadãos onde entrávamos como membro de pleno direito. E aconteceu-nos aquilo que sempre acontece a um pequeno partido que consiga representação no nosso parlamento para, logo a seguir, limitar-se a bater palmas ao que os maiores lá façam ou digam. Desaparecemos. Somos como todos os demais obreiros do desmantelamento de uma Europa onde se vivia bem.
E termos como expoentes máximos da nossa integração alguém que serviu de mordomo a uma Cimeira onde se fizeram os últimos preparativos de uma guerra que nasceu da mentira, cuja incompetência e ambição pessoal o fizeram fugir do país, e outro alguém que foi premiado por não ter querido ou não ter sabido deter a delinquência banqueira que roubou ao país os largos milhares de milhões de euros que agora o seu povo é chamado a pagar com os seus impostos e com os seus direitos apenas sublinha o tipo de integração serviçal dos grandes interesses económicos que foi desenvolvida no último quarto de século. A mim, com toda a certeza que é uma integração que não me orgulha e não vejo nela qualquer vantagem. Envergonha-me e vai continuar a envergonhar-me esta Europa cujos poderes não são eleitos pelos cidadãos, onde as políticas deliberadamente se ajoelham diante da especulação e onde os ricos são cada vez mais ricos e a pobreza e o desemprego alastram à velocidade do auto-elogio.
Quinta-feira, 10 de Junho de 2010
O dia de Portugal em 2010
O dia de Portugal comemora-se este ano num ambiente de patriotismo de mercado. A especulação está a empurrar Portugal para os braços dos planos de regressão social do FMI. Ontem, uma emissão de obrigações de tesouro foi realizada a uma taxa de juro superior aos 5 por cento oferecidos pela EU e FMI à Grécia a troco de um plano brutal de austeridade. A imprensa já pergunta se não seria mais vantajoso para Portugal accionar o mesmo mecanismo. “As medidas de austeridade que o Governo português aprovou não estão a salvar o país da pressão dos mercados”, escreve-se, em vez de “Portugal está à mercê da especulação que as autoridades europeias, ao não oferecerem a mesma ajuda aos Estados que ofereceram ao sector financeiro, não querem neutralizar”. A pressão é feita no sentido da aceitação da agenda política do FMI e não da exigência de medidas mais vantajosas para o país. Bem sei que há para aí muitos bem comportadinhos que dirão que não é possível, que somos um país muito pequeno e outras larachas do género. O que sei também é que se não houver uma voz que o exija, a questão nem sequer se coloca. A Europa não se vai pôr a adivinhar as soluções que mais nos convêm se quem nos governa não abrir a boca para exigi-las e apostar na sua negociação.
Quarta-feira, 9 de Junho de 2010
Disponível, não, é obrigado a
Na sequência da queixa-crime apresentada pela revista Sábado (por furto de dois gravadores e atentado contra a liberdade de informação e de imprensa, O pedido de levantamento da imunidade parlamentar do deputado socialista Ricardo Rodrigues já deu entrada no Parlamento. Francisco Assis diz que o seu vice já lhe manifestou a intenção de depor. Que óptimo. Assim não incorre em novo crime, porque tem mesmo que depor, não depende da sua boa vontade ou disponibilidade. Sem imunidade parlamentar, Ricardo Rodrigues responde pelo furto como qualquer ladrão que faça o mesmo que ele fez.Actualização (23/06/2010): O pedido de levantamento de imunidade parlamentar do deputado socialista Ricardo Rodrigues foi hoje aprovado na Comissão de Ética. O deputado deverá agora responder por escrito ao Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa, por sua escolha.
Os preferidos dos portugueses ou a nossa doença crónica
O PS elegeu como uma das suas prioridades a poupança dos seus boys ao pacote de austeridade a impor ao país que negociou com o PSD e o PSD tem entre as suas a manutenção do emprego dos boys de ambos pelo caciquismo autárquico, que não querem ver abrangidos pelo mesmo sacrifício geral. São cronicamente os dois partidos mais votados. Nas de um ou nas do outro, o país está em muito boas mãos.
Por falar em sacrifícios, por falar em interesse nacional
No final de Maio, ficámos a saber que os preços da electricidade para as famílias caíram 1,5 por cento na União Europeia, entre o segundo semestre de 2008 e o segundo semestre de 2009, mas subiram 4,5 por cento em Portugal.
Hoje, sabemos que o mercado ibérico de electricidade está a praticar os preços mais baixos de toda a Europa, segundo revelam os dados registados na bolsa ibérica, tanto nas operações diárias como a prazo. Esta descida dificilmente se sentirá no bolso dos portugueses, uma vez que a entidade reguladora do sector energético (ERSE), que tem como função proteger os consumidores de abusos de posição dominante de natureza monopolista, com toda a certeza que manterá a decisão de usar estas descidas para saldar os 2,02 mil milhões de euros de um alegado “défice tarifário” inexplicável num país que proporciona lucros diários de mais de 4 milhões de euros à EDP e à REN.
OS preços praticados em Portugal superam, em mais de 20 por cento, o valor de mercado: 50 euros o megawatt/hora contra menos de 40 euros. Mais de 11 euros de uma renda garantida pela forma como o Governo negociou com um privado a concessão da exploração de um recurso que é de todos e, como tal, deveria estar em mãos púbicas, por forma a que os seus proveitos revertessem a favor de todos. Ganharia a competitividade do país ou, assim o entendesse uma política orientada para o bem-estar dos cidadãos, os lucros que são oferecidos à EDP poderiam ser utilizados como almofada para amortecer os sacrifícios que quem manda não hesitou em impor ao país que governa. Mas continuam a apregoar-se as vantagens de ter o sector em mãos privadas, enquanto famílias e empresas pagam o custo do mesmo não ser controlado pelo Estado. Folgam os rendeiros. A crise não é para eles.
Terça-feira, 8 de Junho de 2010
Tudo, tudo, menos os nossos meninos
Na aplicação do corte de cinco por cento no vencimento dos políticos, que o Governo acordou com o PSD, os directores e sub-directores gerais, assessores, adjuntos e restantes membros dos gabinetes ministeriais foram poupados pelo PS. Eu nem concordo com o corte. É pura demagogia que, ao mesmo tempo que afasta os melhores da vida pública, pretende servir de reserva moral a utilizar na neutralização de reacções a cortes em direitos legítimos travestidos de privilégios pela propaganda do regime. Mas a forma como o Governo protege os seus boys tem o seu quê daquela estabilidade que, diz-se por aí, é uma prioridade da Nação.
Peripécias de um capacho (e Cª Lda.)
Ontem, o Comissário Europeu dos Assuntos Económicos, Olli Rehn, veio a público exigir ainda menos direitos laborais e ainda mais cortes nas pensões dos portugueses, que colocou lado a lado com os espanhóis.
Hoje, as suas declarações mereceram a reacção de quatro ministros. Um deles, Silva Pereira, disse que Portugal “já fez reformas estruturais importantes”, mas que, o Governo “está disponível para prosseguir a implantação dessas reformas” e para “aperfeiçoar algumas das soluções” ontem propostas. Em bom português, “nós já os sangrámos bastante, mas, se vocês quiserem, ainda os apertamos mais”.
Acontece que, depois disso, o mesmo burocrata que ontem exigia sangue retratou-se hoje e admitiu o erro de ter misturado os casos português e espanhol. Naturalmente que a prontidão do prestimoso Pedro Silva Pereira fica abrangida por este desdito. Bruxelas manda e eles fazem, seja lá o disparate que for, custe a quem custar. Se hoje o senhor Comissário diz que não é para fazer, então não se faz. Pelo menos até ordem em contrário. Ou então, pelo sim, pelo não, faz-se mesmo. É já a seguir. (actualizado)
BASTA!, ou um post panfletário
Não são eleitos, mas mandam. São eleitos numa lógica de representação, mas obedecem aos primeiros e seguem programas políticos estranhos àqueles com que se fazem eleger. Elegem os seus representantes, mas, ou não cobram e hesitam em reagir de forma racional e organizada quando verificam que quem elegeram esquece as promessas que lhes conquistaram os votos, ou têm a capacidade de identificar benefícios em políticas que apenas os prejudicam. A actuação conjunta dos poderes de Bruxelas, dos Governos e dos eleitores europeus combinou-se numa fórmula perfeita de regressão social que uma comunicação social bem controlada pela ideologia dominante auxilia estancando eventuais reacções através da repetição de falsas inevitabilidades.
Foi a delinquência banqueira, levada ao extremo da irresponsabilidade, que fez rebentar a actual crise. Não foram os cidadãos. Não obstante, na vez da punição exemplar de tais condutas, na vez da colocação do bem público crédito em mãos públicas, nacionalizaram-se os prejuízos do sector financeiro e premiou-se a ganância criminosa promovendo-se uma sangria de recursos que eram de todos e passaram a ser apenas seus. “Tinha que ser”, repetiu-se à exaustão. “Era a única solução possível”, matraquearam quanto puderam. Não era.
Esquecida a polémica gerada por um Tratado de Lisboa que seria a cura para todos os males, aprovado à sua revelia, os cidadãos, numa primeira fase, foram chamados a pagar pelo que não fizeram. Numa segunda, aproveitando a anestesia geral gerada pelo êxito de discursos patrióticos desdobrados em apelos ao sacrifício geral do primeiro momento, é-lhes agora dito que os sacrifícios não são suficientes.
E torna-se cada vez mais óbvio que nunca o serão. As leis laborais, os salários, a protecção social, os serviços públicos são para reduzir ao mínimo dos mínimos. As desigualdades, a exploração, a acumulação de riqueza, a apropriação do Estado por interesses privados são para maximizar. Este é o modelo da ideologia que manda na Europa.
Este é o movimento que há que travar. Estão a matar o Estado Social e a fazer definhar uma sociedade geradora de bem-estar e paz social que demoraram mais de um século a edificar. Voltaremos, como muitos já o são, a ser escravos de um patrão, a trabalhar de Sol-a-Sol, a ser mão-de-obra descartável que apenas tem direito a comer nos dias em que alguém decida que o nosso trabalho é um acrescento à sua fortuna pessoal, a não ter direito a uma velhice digna, a não ter direito a cuidados de Saúde com qualidade, a não vermos os nossos filhos em escolas onde se aprenda a ser Homem. Voltaremos a ser como os avós dos nossos avós. Seremos forçados a iniciar todo o longo caminho de conquistas sociais percorrido pelos nossos antepassados, que fez do mundo aquele que encontrámos quando nascemos. A menos que comecemos agora mesmo a exigir que nos devolvam o que já nos roubaram. Já. Imediatamente. Arriscar ganhar para não continuar a perder. Há que saber dizer BASTA.
Segunda-feira, 7 de Junho de 2010
De pequenino se distorce o destino
O mundo estremeceria se, a pretexto de comemorar a República, uma escola alemã decidisse organizar uma parada de 1200 crianças vestidas com a farda da juventude hitleriana. Estando nós em Portugal, uma escola pública organizar uma parada de 1200 crianças vestidas com a farda da mocidade portuguesa é, não apenas reviver o período de ouro da República, como a prova de que “as coisas são trabalhadas nas escolas com dignidade e muito sentido de responsabilidade”. E nada de ideias de fascismo. “A polémica está completamente ultrapassada”. Na cabeça de 1200 inocentes, tudo fica bastante claro. A Educação que todos nós pagamos é posta ao serviço do revisionismo mais primário. “Como vêem, meus lindos, o Estado Novo não era assim tão mau como o pintam. Não se divertiram à brava, queridos?”
E apenas mais uma nota: uma vez que o todo-poderoso Senhor Director do Agrupamento (figura do salazarismo reintroduzida pela governação Sócrates para comemorar a sobrevivência de Maria de Lurdes Rodrigues à frente do ME) parece dos mais entusiasmados com a iniciativa, com toda a certeza que o prémio na avaliação de desempenho dos docentes mais empenhados na sua organização concorre com a penalização daqueles que eventualmente se atrevam a recusar participar na fantochada, se é que algum teve a dignidade de fazê-lo.
Patriotismo de trazer por casa
Depois de, conjuntamente com a França, ter imposto um plano de “salvamento” das economias periféricas em dificuldades da UE, a realizar através de garantias bancárias e não através de financiamento directo, mais barato, pelo BCE, de forma a proporcionar margens brutais ao sector financeiro dos dois países, o Governo alemão prepara-se, entre outras medidas, para reduzir em 2,5 por cento os ordenados na função pública e confiscar-lhes o seu subsídio de Natal em 2011. Será péssimo para as nossas exportações, da mesma forma que as medidas de austeridade tomadas conjuntamente pelos dois partidos com maior representação parlamentar o serão para o nosso mercado interno.
Por cá, a palavra “patriotismo” anda de boca em boca no PS, no PSD e nas suas cortes de comentadores nos média. O seu patriotismo calou-se quando viram a banca francesa e alemã, das que mais viram as suas irresponsabilidade e delinquência financiadas directamente pelo BCE, transformadas nas maiores beneficiárias da crise que despoletaram: a Alemanha e a França não quiseram que fosse prestado a países como Portugal auxílio nos mesmos moldes que prontamente deram ao seu sector financeiro, que pôde financiar-se junto do BCE a 1 por cento, optando, na sua vez, por garantir as dívidas desses Estados em dificuldades assegurando-lhes liquidez junto dos bancos franceses e alemães, novamente recompensados, a 5 por cento e mais, ao mesmo tempo que põem a sua criatividade ao serviço do sacrifício de cidadãos que em nada contribuiram para uma crise que Bruxelas nunca soube gerir. Aguardemos para verificar como reagirá o mesmo patriotismo à notícia de hoje.
Felicidades para as noivas
Tempos houve em que a homossexualidade era crime punível com pena de prisão ou deportação. Para que hoje o recordemos, com vergonha, como uma aberração da nossa História, houve que despenalizá-lo.
Teresa e Helena não são desse tempo. Casaram hoje. Ficarão para a História como as duas primeiras cidadãs portuguesas do mesmo género a contraírem matrimónio entre si. Dentro em breve, olharemos para o passado durante o qual o direito ao casamento lhes estava vedado com os mesmos olhos que hoje vêem a criminalização da homossexualidade como um crime em si mesmo. Afinal, era tão simples. A felicidade dos outros não deve pesar a ninguém.
Domingo, 6 de Junho de 2010
Sexta-feira, 4 de Junho de 2010
O mito Obama também morreu às mãos de Israel
Uma aventura na Educação (continuação)
Actualmente, é possível a um aluno com mais de quinze anos que esteja no 8º ano transitar directamente para o 10º sem ter que frequentar o 9º, bastando-lhe, para tal, submeter-se e ser aprovado numa prova daquelas em que até saber ler as horas num relógio analógico é valorizado nas aprendizagens avaliadas. A Ministra diz que isto não é facilitismo. Será, então, o quê? Uma ponte? Não. As pontes custam dinheiro e esta medida tem precisamente o objectivo de compensar os dinheiros públicos que não teriam sido necessários caso a sua construção não tivesse sido adjudicada da forma que foram, a amigos de quem manda, através de contratos manhosos. Pela mesma razão, uma auto-estrada também não será. E a alta velocidade também custa muito dinheiro. E então, em que ficamos? A chamar-lhe alguma coisa, chamar-lhe-ia uma aventura na Educação, talvez inconstitucional, mas certamente com o objectivo de desmantelar a Escola Pública. Criada a necessidade, o ensino de qualidade para quem possa pagá-lo é, cada dia que passa, um negócio com um potencial de clientes cada vez maior.
Os portugueses compreendem
O SUCH foi criado como associação de utilidade pública administrativa (sem fins lucrativos) com o objectivo de "promover a redução de custos e o aumento da qualidade e eficiência da prestação de serviços por parte dos seus associados e do Sistema Nacional de Saúde". Porém, o último relatório do Tribunal de Contas mostra para que tem servido este “Serviço de Utilização Pública dos Hospitais: tal como no Magalhães (cujas ilegalidades gritantes foram reconhecidas pela Comissão Europeia) e como em tantos outros, para a exploração de possibilidades de adjudicação sem concurso público prévio, de forma a favorecer enriquecimentos ilícitos a fornecedores escolhidos através de critérios de conveniência, e para possibilitar aberrações como a celebração de contratos públicos por entidades privadas.
Mas a fábrica de fortunas não se fica pela violação das regras de contratação pública. Entre muitas outras pérolas, as remunerações pagas aos membros do conselho de administração aumentaram 50,2 por cento entre 2006 e 2008 (mais de 1,3 milhões de euros) face ao triénio anterior, três directores comerciais receberam prémios no valor de 129.750 euros, foram atribuídas 25 viaturas a membros do conselho de administração e “colaboradores” para fins não exclusivamente profissionais e os abonos de despesas de representação, porque são pagos 14 vezes por ano, põem os contribuintes a pagar um complemento de representação de serviços durante o período de Natal que duplica ainda durante o período de férias. Resumindo, utilizando uma frase do relatório, "um despesismo injustificado que não contribui para a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde (SNS)".
E este será mais um relatório sem consequências. Todos os partidos do trio PS-PSD-CDS, que governam o país desde o 25 de Abril, sabem que não perdem muitos votos se não promoverem as responsabilizações financeira, civil e criminal que a lei prevê para esta tipologia de utilização de dinheiros públicos. A pressão política, se porventura existe, impele-os para a adopção do sacrifício como política oficial do regime, muito mais do agrado dos seus fiéis eleitores. O neoliberalismo que reina na Europa e no mundo manda reduzir o Estado ao mínimo. Os três partidos vão dando os seus contributos para que a quantidade e qualidade dos serviços se deteriore. Os portugueses contibuem com os votos "úteis" que lhes vão dando o poder para desmantelar o que custou gerações a ser edificado. Um dia, quando cair de podre, cá estará o “teve que ser” que se aplica ao que já não satisfaz minimamente. Os portugueses compreenderão. Sempre compreendem.
Quinta-feira, 3 de Junho de 2010
Gostei de ler: "O caminho para a servidão"
«Esta semana ouvi, numa reportagem sobre a excisão em África, uma médica alemã que trabalha com as vítimas desta bárbara tradição explicar porque aceitam as mulheres africanas fazer isto às suas filhas: a integração na família e na tradição é fundamental para a sobrevivência. Naqueles países não há segurança social, serviço público de saúde, reformas ou infantários. É a família que garante tudo e ela detém todo o poder sobre os indivíduos.
A estratégia de destruição do Estado daqueles que se dizem liberais só nos pode levar à perda da liberdade individual. O salto da excisão em África para os liberais na Europa pode parecer absurdo. Mas não é. A criação do Estado Social foi uma das maiores conquistas para a defesa da autonomia dos indivíduos. A escola pública tornou-nos mais autónomos da nossa condição social e religiosa. A segurança social libertou-nos das nossas famílias. As leis laborais permitiram que deixássemos de ser escravos do nosso patrão. Através do Estado Social construímos, na segunda metade do século XX, as sociedades mais livres da história.
Não é preciso fazer futurologia. A destruição do Estado Social, que está a ser acelerada com esta crise, já começa a dar os seus resultados. Com a liberalização do mercado de trabalho o emprego é cada vez mais precário. Os filhos saem mais tarde de casa dos pais. Os trabalhadores aceitam tudo sem resistir. Hoje, somos mais dependentes das nossas famílias e dos nossos patrões do que éramos há trinta anos.
O tempo não volta para trás. Não será provável que a nossa perda de liberdade chegue ao ponto de voltarmos a violentar as nossas filhas para que elas sejam aceites por aqueles de quem dependerão. Mas outras formas de servidão se vão insinuando.
Ditadura da opinião
Se lermos os principais jornais por esse mundo fora encontramos vários pontos de vista sobre esta crise. Economistas como Joseph Stiglitz explicam que a política de austeridade é o caminho para a desgraça europeia. Lemos artigos sobre a Europa e a falta de mecanismos de intervenção, a especulação, a falta de regulação, as culpas alemãs.
Ligamos a televisão portuguesa e a coisa é exasperante. Desfilam economistas que se repetem uns aos outros: vivemos acima das nossas possibilidades, temos de cortar, precisamos de menos Estado. A coisa é repetida com uma extraordinária arrogância, já próxima da insolência, como se o ralhete à Nação tivesse passado a ter estatuto de ciência exacta. Comentadores, colunistas e políticos repetem o discurso. A união nacional da opinião instalou-se e o pluralismo foi pura e simplesmente abolido no espaço mediático. Se Stiglitz repetisse aqui o que disse numa entrevista ao "Le Monde" seria ouvido como um radical delirante.
Esta crise mostrou-nos que o nosso principal problema democrático não são as interferências de Sócrates na TVI. São o domínio absoluto de quase todos os media por um grupo ideológico. Ao contrário do que acontece em França, Reino Unido ou Estados Unidos, há, na comunicação social portuguesa, uma ditadura da opinião. Quando, hoje, umas centenas de milhar de portugueses forem para as ruas, revelar-se-á, para espanto de quem vê Portugal através da televisão e dos jornais, um país que parece não existir para os media. »
Daniel oliveira, no Expresso
Quarta-feira, 2 de Junho de 2010
Estado de necessidade: obrar na Constituição, favorecer os amigos, enganar e pôr os tolos que os elegem a pagar a festa
O ministro das Finanças admitiu hoje a retroactividade do aumento do impostos, afirmando que “o futuro do país” e o estado de crise justificam a sua opção de fazer da Constituição da República Portuguesa o seu palácio das necessidades. O odor a estrumeira chegou à sala ao lado, onde, em 70 páginas, o PS sustentou que a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Magalhães não conseguiu apurar qualquer prova material ou testemunhal das condições criadas pelo primeiro Governo Sócrates para que o enriquecimento do fabricante pesasse no buraco orçamental que também foi sendo ocultado aos portugueses para ganharem eleições. Nada a recear. Os tolos que os elegem pagarão a factura com todo o seu entusiasmo patriótico e sem alterarem o sentido aos seus votos. Conseguiriam viver sem os disparates, desonestidades e brutalidade impostos por PS e PSD? Conseguiriam, claro, mas não seria a mesma coisa.
O salvador da pátria
A "pátria" são eles
Todos se lembrarão de como o interesse estratégico das empresas públicas a privatizar foi negligenciado face a um encaixe financeiro previsto que, porque nem sequer alcança o valor dos lucros dessas empresas em meia dúzia de anos, configura mais um negócio ruinoso para o interesse público. Apesar disso, justificando-se com os valores mais patrióticos e o estado de necessidade do país, o negócio é para avançar.
Todos os que assim o desejem poderão observar como os critérios ou, como queiram, o mundo muda radicalmente quando a alienação envolve ovos de ouro de uma galinha privada. A espanhola telefónica oferece à Portugal Telecom, por uma participada sua no Brasil, um valor apenas um pouco inferior ao valor de mercado de toda a PT e, caso a PT aceite o negócio, a empresa espanhola compromete-se ainda a vender à PT, ou a entidade por esta indicada, os seus dez por cento, "imediatamente ou de forma faseada ao longo de três anos, por um preço equivalente a uma média ponderada das cotações da PT num determinado período posterior à presente data". A venda proporcionaria não apenas um encaixe que possibilitaria à PT abater a sua quota no endividamento total do país como ainda o regresso a mãos que a pátria viu nascer dos dez por cento detidos por manos espanholas. Porém, nem uma, nem a outra. A brasileira Vivo, dizem, tem um potencial que não cabe neste patriotismo comprovadamente de plástico. Negócios, interesse estratégico, a ameaça dos mercados, aquele interesse nacional, aquela responsabilidade e aquele sentido de Estado que não falham um discurso valem apenas quando se trata de manter ou conseguir mais rendas para a classe de rendeiros que manda no país. A “pátria” são eles.
Terça-feira, 1 de Junho de 2010
E o fundo ainda é mais abaixo
Não contente com os máximos históricos que o descalabro por si criado vai batendo sucessivamente, e não obstante o ritmo de crescimento do desemprego em Portugal ser muito superior ao da restante União Europeia, após ter escolhido o momento actual como o mais apropriado para cortar na protecção social ao desemprego e arrefecer a economia com o aumento da carga fiscal, o Governo decidiu completar a sua obra com um empurrão ainda mais vigoroso aos números hoje conhecidos celebrando o Dia Mundial da Criança com o anúncio do encerramento de quase mil escolas do primeiro ciclo.
Ao largo, o inatacado imaculado Passos Coelho exulta em silêncio patriótico pelo trabalho que lhe é poupado. O Estado está a encolher sem manchar o seu nome com um pingo sequer das litradas de sangue derramado.

