Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

Obrigado ao Sporting, obrigado a ambos

Na jornada passada, o FC Porto viveu a experiência inédita de ser o clube português com mais torcedores. Não os decepcionou e ganhou ao Sp. Braga. Esta semana foi a vez do Sporting experimentar a mesma novidade e, tal como o seu opositor de hoje na semana passada, não defraudou todos aqueles que, por um dia, se sentiram sportinguistas desde pequeninos: com três secos, arrumou a equipa daquele clube que ainda a semana passada era aquele com mais adeptos. Obrigado ao Sporting.. Obrigado aos dois. Souberam merecer toda a minha devoção.

Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

Tempestade perfeita

Quatro golos sem resposta, uma mão cheia de golos desperdiçados, um golo limpo anulado por Lucílio Baptista e uma exibição próxima do perfeito, não poderia exigir-se mais, num campo onde os adversários que ainda disputam o título perderam pontos. Destaques para as entradas no onze inicial do estreante Airton, em bom plano, a justificar a contratação, e de Eder Luís, que inaugurou o marcador. Ainda para a noite absolutamente brilhante do fabuloso Di Maria, que registou o primeiro hat-trick da sua carreira. O Benfica hoje registou a 12ª vitória da época com quatro ou mais golos alcançados.

Braga 3 – Olhanense 1
Leixões 0 – Benfica 4 (Eder Luís e Di Maria (3))
Sporting 3 - FC Porto 0 (Domingo)

Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

Lotaria popular


O Bloco de Esquerda já a havia proposto. Mas, hoje, o PSD, que antes, com aquela pose “responsável” que lhes fica tão bem, havia recusado a proposta do Bloco, anunciou que vai avançar com a mesmíssima proposta para a criação de uma comissão parlamentar de inquérito para apurar se houve interferência do Governo no negócio PT/TVI, apuramento esse que parece não interessar nada aos agora companheiros "responsáveis" do PS.

E o que é que terá feito o PSD mudar a pose? Com algum grau de certeza, a intenção de aproveitar a onda mediática para desviar as atenções de outro recuo, o de ter deixado cair um dos principais argumentos que utilizou em campanha para caçar votos, o
fim do pagamento especial por conta pelas "piquenas" e médias empresas.

Não é que eu concorde com este último ou discorde da constituição desta comissão parlamentar de inquérito. Não é nada disso o que está aqui em causa. O que constato, mais uma vez, é que é uma lotaria votar nestes partidos que se perfumam com a “responsabilidade” que podem e sistematicamente se esquecem do que prometem aos eleitores a quem devem o poder que têm nas mãos. Com políticos destes e com eleitores que não cobram as traições a quem os engana, a política vale muito pouco e as decisões perdem correspondência com qualquer lógica de representatividade própria das democracias. O futuro, nestas mãos, é ele próprio uma lotaria sorteada ao som de lamúrias como a do video junto, mais acorde, menos acorde. Há quem goste.

"Oxalá que nunca se diga que sou profeta" (1985)


« (…) Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova - um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro - galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé - único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido - só água lamacenta em turbilhões devastadores. (…) Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.»

Este excerto faz parte de um artigo publicado no Diário de Notícias da Madeira em 1985 pelo engenheiro silvicultor Cecílio Gomes da Silva, falecido em 2005, em que descreve, de maneira bastante aproximada, o que viria a acontecer na Madeira 25 anos mais tarde. A versão original pode ser lida
aqui. O vídeo junto é um excerto do programa Biosfera, e foi transmitido há dois anos.

Epá, pois é! É Sexta!


Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

Chocarrice ®Público

Para o Público, a expressão “o senhor primeiro-ministro nunca foi constituído arguido” vale o título “Cândida Almeida iliba Sócrates do caso Freeport”. Quem arrisca menosprezar a inteligência dos seus leitores, depois não pode queixar-se que vende pouco. A credibilidade não se vende por nenhum preço e muito menos pelo que vale esta pseudo-notícia: zero.

Três ressuscitados para a festa da flor

A toque de trombeta

Torna-se cada vez mais curioso o tipo de argumentação daqueles entendidos que lêem um espirro de Barack Obama na evolução dos mercados. Fazem-no à posterior, o que lhes facilita a tarefa. Se Obama espirra, o seu espirro tanto pode fazer com que os mercados “animem”, afinal um espirro é a evidência de um sistema imunitário em boa forma, como “deprimi-los” o mais possível, afinal um espirro pode indiciar uma gripe daquelas que dizem para aí serem fatais. E, se alguém disser um “quererão lá saber os especuladores dos espirros do Obama”, é porque não entende o mercado. Talvez seja o meu caso.

Isto a propósito de duas notícias.

Uma, de ontem, a do leilão de mil milhões de euros em obrigações do Tesouro português, à taxa média ponderada de 3,498 por cento,
cuja procura quase duplicou a oferta. Ora, segundo a tal teoria da oferta e da procura em mercados perfeitos, quando a procura excede a oferta, tal significa que o preço está acima do preço de equilíbrio que faria com que ambas se equivalessem. Não foi essa a interpretação dos trombeteiros do mercado, que, em vez de observarem um preço exagerado que poderia evitar-se se o Governo decidisse remunerar melhor os certificados de aforro que assassinaram, preferiram replicar aquela lengalenga – que serve na perfeição a especulação – da penalização da situação financeira das nossas contas públicas pelos mesmos mercados e agências de rating que se esqueceram de penalizar países como a Inglaterra ou os Estados Unidos, ambos a braços com números ainda mais medonhos do que os nossos.


A segunda trombetada,
já de hoje, faz alarido sobre a ameaça de mais descidas na classificação de risco da dívida grega por parte das mesmas agências de rating que continuam a ser levadas a séro, apesar de não terem tido a capacidade prever nem a explosão da bolha do sub-prime, nem o colapso do final de 2008 e de darem classificação máxima ao risco de países com situações financeiras muito piores do que a nossa, ., e as implicações dessa descida no aumento dos custos da dívida grega, os efeitos de arrastamento sobre as dívidas portuguesa, espanhola e irlandesa e sobre uma descida da cotação do euro que, embora só nos beneficie, é misturada com as anteriores e com os confrontos entre polícias e manifestantes na Grécia para aumentar a catástrofe que tentam vender como iminente.

Lições a retirar: os portugueses devem portar-se muito bem, não protestar as medidas de austeridade que vão poupar aqueles que não precisam de trabalhar para enriquecer, não arranjar cá confusões com a polícia e aceitar tudo o que seja imposto de cara alegre. É que os mercados, esses papões que sabem tudo e castigam, onde a maioria dos portugueses nunca ganhou um cêntimo, podem não gostar. Quando a política não sabe ou não quer, mandam os mercados e prosperam os seus lacaios da trombeta, que também mandam um bocadinho-muito. Eles existem para dar o alerta a todos aqueles que, embalados pelas suas cornetadas, preferem que se governe para os mercados e não para as pessoas.

Fiquem, fiquem, que o Governo é amigo

O Governo quis ganhar dinheiro com a antecipação das aposentações, aumentando as penalizações, que antes eram de 4,5 por cento por cada ano de antecipação, para 0,5 por cento por cada mês que falte para completar a idade legal da reforma, ou seja, 6 por cento por cada ano. Decidiu ainda alterar a remuneração que servia de base para o seu cálculo: passará a ser usado o salário de 2005 revalorizado à taxa de inflação, quando, até agora, contava a última remuneração do funcionário, o que levará a que alguns trabalhadores, nomeadamente os que foram promovidos depois de 2005, tenham uma pensão mais baixa caso não se reformem imediatamente.

Muitos, mesmo muitos, fizeram as contas e viram que as vantagens de uma antecipação da sua aposentação é mais vantajosa do que ficar no activo a perder direitos, o que provocou uma corrida à Caixa Geral de Aposentações. E a copiosa chuva de pedidos de reformas antecipadas fez com que quem mandou o barco ao fundo se queixasse de ter
os pés molhados: por temer as consequências da sua mais recente obra-prima sobre o funcionamento dos serviços públicos, o Governo desdobra-se agora em apelos patéticos à ponderação dirigidos a quem, com toda a certeza, sabe fazer contas. Não as terão feito bem. O Governo, obviamente. Responsável e competente. Amigo dos funcionários públicos.

Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

Preparativos da festa da flor

Outro caminho

O Bloco de Esquerda apresentou, ontem, um pacote de propostas de alteração ao Orçamento do Estado para 2010 na especialidade. Permitiria poupar, já este ano, 2.819 milhões de euros na despesa pública, 1,65 por cento do défice, sem os habituais cortes nos salários reais ou os retrocessos civilizacionais promovidos ultimamente, que apenas conduzem a mais desigualdades e concentração da riqueza. Tal como qualquer outra proposta tendente a modificar uma determinada realidade presente, todas as medidas deverão ser lidas sem perder de vista quem ganharia e quem perderia caso fossem aprovadas.

Assim, uma das propostas aponta no sentido da renegociação, por parte do Governo, de todos os valores e prazos de pagamento dos contratos de compra de material militar cujos programas de contrapartidas não tenham sido executados pelo menos a cinquenta por cento. Não faz sentido que, embora aquelas estejam contratualizadas, existam incumprimentos por parte dos outorgantes privados, sem que do lado do Estado se faça qualquer esforço no sentido de acautelar o interesse público, exigindo o seu cumprimento ou sancionando o seu incumprimento.

Debaixo de mira voltam a estar também os Planos Poupança Reforma, uma vez que Não faz qualquer sentido que a esmagadora maioria dos portugueses, que nem sequer tem a possibilidade de subscrever estes planos, pague com os seus impostos um benefício fiscal atribuído a produtos financeiros, doutra forma sem rentabilidade, que são subscritos apenas pelos cidadãos mais ricos. O Estado gasta mais com os benefícios fiscais aos PPR do que gastaria se, tal como recentemente propôs o Bloco, se aumentassem em dez euros todas as reformas inferiores ao actual salário mínimo, 475 euros.

A mesma lógica aplica-se aos seguros de saúde, outro produto apenas adquirido pelos mais ricos e pagos com os impostos de todos.

Relativamente aos prémios que as administrações das empresas auto-atribuem aos seus administradores, o Bloco quer "tornar a tributação dos prémios permanente e generalizá-la a todos os sectores empresariais" e que esta abranja também o IRS e não apenas o IRC, tal como o Governo propôs residualmente na generalidade.

A taxação, em IRS ou IRC, de todas as transacções com o offshore da Madeira a 25 por cento é outra medida que se justifica inteiramente: da existência daquele paraíso fiscal, a esmagadora maioria dos contribuintes apenas retira consequências negativas, nomeadamente uma sobrecarga fiscal capaz de compensar os ganhos daqueles que o utilizam para fugir ao fisco. Esta seria outra forma de gerar receitas e de promover a equidade e a justiça fiscais.

O Bloco propõe uma taxa efectiva de 20% em IRC para as instituições de crédito e sociedades financeiras, contra os actuais 12,8 por cento, uma aberração fiscal se a compararmos com os 25 por cento aplicáveis à restante economia.

Havendo milhares de juristas na Administração Pública, o recurso a consultadorias jurídicas externas pelo Estado é uma aberração. Só nos últimos quatro anos, esta prática com beneficiários bem identificados custou cerca de 600 milhões de euros aos contribuintes. O Bloco de Esquerda propõe que se estabeleça que, em valores superiores a dez mil euros, só sejam permitidas mediante justificação fundamentada sobre a inexistência de recursos especializados próprios do Estado e submetida a aprovação prévia do Ministério das Finanças.

O Bloco propõe ainda que seja feita uma revisão global do Estatuto dos Benefícios Fiscais que incluirá, naturalmente, a revogação da retirada de benefícios fiscais aos cidadãos portadores de deficiências pelo anterior Governo Sócrates.

Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

1/16 de cansaço: o último jogo fácil

Sem acelerar demasiado, em contenção de esforços, Quatro golos sem resposta e uma exibição para calar a boca àqueles que exigiam futebol de encher o olho catapultaram hoje o Benfica para os oitavos de final da Liga Europa. Uma partida jogada a ritmo lento, aumentado pontualmente em jogadas aproveitadas para dar os quatro golpes com que o Benfica varreu do seu caminho um adversário que apenas por uma vez deu trabalho a Júlio César.

Gostei de ver Cardozo regressar à confiança e da forma estonteante de Di Maria. Não gostei de verificar a má forma física de Aimar e Saviola. Mais uma vez evidenciaram fadiga e os dezasseis avos de cansaço de hoje poderiam bem ter-lhes sido poupados. É fácil dar palpites depois de conquistadas as vitórias, mas, quanto a mim, o último jogo fácil dos tempos mais próximos deveria ter sido aproveitado para rodar pedras menos utilizadas, como Nuno Gomes, Kardec, Eder Luís, Felipe Menezes, entre outros de uma lista longa de jogadores que seguramente farão falta em boa forma caso, na sucessão alucinante de desafios dos próximos meses, , algum dos hoje não poupados se veja impedido de jogar ou acentue o desgaste.

Benfica 4 – Hertha 0
Marcadores: Cardozo (2), Javi e Aimar

A fábrica de inocentes

Com Pinto Monteiro como PGR e Cândida Almeida como coordenadora do DCIAP, eleita por braço no ar proposta pelo primeiro à margem da lei que obrigaria ao voto secreto, haveria ainda alguém, entre aqueles que percebem a diferença entre ser inocente e ser inocentado, com esperanças de ver José Sócrates acusado no âmbito do processo Freeport? Em casos como o Freeport, Furacão, Submarinos, Portucale, BPN, e Independente, todos estes, cuja instrução foi cuidadosamente concentrada num só juiz, interesses mais altos se levantam.

Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

Se o chefe sonhasse


"A mim ninguém me trata por chefe", declarou José Sócrates, hoje, em entrevista à SIC, sem dizer que nomes imagina que os seus subordinados utilizam para se referirem à sua pessoa. Salienta-se a riqueza da argumentação, sobretudo pelo caso que estava em discussão, mas a presença de toda aquela ilusão que carregam aos ombros todos os “queridos líderes”, por ser um tema que, pela sua boca, entrou no debate político, não deixa de merecer honras de destaque. Assim, sem esquecer que isto é política:

a) a si, leitor e adorável chefe, que nomes pode garantir que alguém jamais utilizou para se referir à sua pessoa na sua ausência?

b) a si, respeitoso subordinado, que substantivos e adjectivos nunca lhe ocorreriam utilizar para se referir ao estimável chefe?
b1) na sua ausência?
b2) na sua presença?

As regras da corporação

Andava Portugal inteiro a ser embalado pela lengalenga da contenção salarial, da qual os seus canta-autores fazem depender o futuro do país, quando o caso de Rui Pedro Soares, tornado público, fez soar o despertador nacional: num estalar de dedos, por pertença à corporação PS, sem que o seu curriculum o justificasse, o boy Rui foi colocado na PT a ganhar tanto num ano como um português que aufira o salário mínimo ganharia ao longo de 300 anos de trabalho, se vivesse para tanto.

Hoje, passados alguns dias, aqueles que não conseguiram acordar com o Euro Milhões do Rui Pedro e continuam a entusiasmar-se com a necessidade pátria de sacrifícios que apenas alimentam a imaginação dos seus criadores, têm nova oportunidade para o desejado despertar: o duplamente colega de corporação, nas corporações PS e PT, Fernando Soares Carneiro, sorteado com a mesma fortuna através da mesma metodologia que bafejou o jovem Rui, acordou com a PT
uma rescisão que prevê o recebimento de uma compensação por todas as remunerações que receberia caso se mantivesse em funções até ao final da sua graciosa, em 2011. Nada como um mercado de trabalho flexível, capaz de premiar o mérito, maximizar a produtividade e promover a mobilidade.

O alargamento do subsídio social de desemprego, as actualizações salariais, o pagamento de horas extraordinárias, a estabilidade das relações de trabalho, entre outras, continuam a ser impossibilidades em razão da penúria do país e da necessidade de sermos uma economia mais competitiva. Talvez um dia esse sonho se torne possível, se nos portarmos tão bem e fizermos tantos sacrifícios como o Rui Pedro e o Fernando ou se, tão bem como eles, nos encaixarmos nas regras da corporação.

Ao serviço

Ao longo dos últimos meses, o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, recusou o acesso aos seus despachos de arquivamento ao crime de atentado contra o Estado de direito no âmbito do caso Face Oculta. O PGR travou o acesso aos documentos porque estes, segundo o próprio, continham escutas entre Armando Vara e José Sócrates, o que, por sua vez, teria levado a que o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, as mandasse destruir.

Porém, o que o “Diário de Notícias” e o “Correio da Manhã” noticiaram
ontem é que, afinal, em lado algum aparecem as conversas entre Sócrates e Vara nesses documentos.

Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

Orelhas de Burro

The Killers –“Human”

Lágrimas que dão votos

Um novo balanço das vítimas das enxurradas na Madeira dá conta de 42 mortos, 70 feridos e 248 desalojados, com indeterminação ainda quanto ao número de desaparecidos, a rondar os 250, fazendo temer o pior (segundo o Governo regional, primeiro, apenas 4, depois, já eram 32).

Entre as causas de uma catástrofe com estas dimensões estão Valores excepcionais de precipitação impossíveis de prever com os meios actualmente disponíveis, mas está também um crescimento urbano em mãos privadas sem quaisquer escrúpulos em construir riqueza à custa do risco de vidas humanas.

Na Madeira, porventura até mais visivelmente do que no continente, os poderes públicos têm andado de braço dado com aqueles que enriquecem construindo em locais que, embora tecnicamente proibitivos, gozam da sua permissividade, potenciando, assim, o estrangulamento de ribeiras como aquelas que ontem, ao transbordarem, causaram a tragédia. Porém, não será esta a leitura de quem nos governa: o Primeiro-ministro deslocou-se ontem à Madeira acompanhado do Ministro da Administração Interna. A Ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território ficou em casa. As lágrimas dão votos. O desordenamento, a ausência de planeamento e a especulação imobiliária fazem fortunas que dão poder.

(actualizado)

Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010

Quem é amigo, quem é?

Segundo informações avançadas em primeira mão pela agência Lusa, os castigos deliberados pela Comissão Disciplinar da LPFP serão de quatro meses para Hulk e seis para Sapunaru. Hulk estará suspenso até dia 22 de Abril, ou seja, a tempo de alinhar na recepção ao Benfica. Sapunaru há muito está emprestado, ou seja, o castigo não o vai afectar. Ou seja...

O sol e a peneira

O dia vai correndo agitado, numa sucessão de revelações e contra-revelações. Reparo, como muitos hão-de reparar também, que a ilegalidade das escutas e a violação do segredo de Justiça deixaram de ser os argumentos principais utilizados por quem se defende.

Tal como antes havia ressaltado da entrevista de Noronha do Nascimento, Presidente do Supremo, a sucessão de entrevistas ontem dadas pelo PGR desfez o benefício da dúvida quanto à imparcialidade da Justiça e reduziu a margem de manobra daquela argumentação: um PGR que diz que a compra da Prisa pela PT é um assunto de natureza puramente política para depois garantir, com insistência, o desconhecimento do negócio por parte do Primeiro-ministro, ao mesmo tempo que atesta a sua imparcialidade e distanciamento relativamente a quem defende, mostra ainda que, se a notícia esperasse pela Justiça, nunca o seria, notícia. E, se realmente aconteceu, se, como acontece, o seu conhecimento é do interesse público, quem tem como função informar deve fazê-lo e quem elege e paga impostos, em vez de aceitar os convites para enterrar a cabeça na areia, deve prestar toda a atenção aos detalhes do jogo de papeis em confronto e ao cheiro a podre que paira no ar.

Sejam lá quais forem as conclusões a retirar de todo este lamaçal, há algumas que me parecem líquidas. A primeira é a de que o nosso sistema de Justiça não consegue proteger nem aqueles a quem quer proteger. Outra será a de que há responsabilidades políticas directamente imputáveis a quem deixou o sistema chegar a este ponto de ruptura mas que, se até dado momento, conseguiam retirar vantagens da confusão que criaram, no momento presente, o monstro deixou de lhes obedecer. Finalmente, a de que se há um PM que, a cada estocada, vê a sua credibilidade posta em causa, as duas personalidades de proa do nosso sistema judiciário vêem o seu prazo de validade encurtado de cada vez que acodem em seu auxílio. Cairão, tal como Sócrates, no final deste duelo entre o Sol e a peneira.

Uma boa razão para não controlar nem taxar transacções com off-shores

Um Sol que acorda a Justiça

Os magistrados de Aveiro já extraíram uma certidão com o objectivo de abrir um processo autónomo sobre esta situação, caso que está a ser investigado pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal de Lisboa.

As conversas entre Perestrello e Penedos aconteceram logo após a derrota nas eleições europeias de 7 de Junho e numa altura em que o Partido Socialista estava a preparar a campanha para as legislativas de Setembro, sendo o actual secretário de Estado da Defesa, Marcos Perestrelo, responsável por organizar os tempos de antena na televisão. Paulo Penedos, por seu lado, trabalhava na dependência do administrador executivo da empresa de telecomunicações, Rui Pedro Soares, que tinha o pelouro do Marketing e Publicidade e que era também administrador não executivo no Taguspark.

De acordo com o “Sol”, Rui Pedro Soares aproveitou a sua presença nas duas empresas para obter, através destas, o apoio do futebolista Luís Figo à campanha de José Sócrates para um segundo mandato como primeiro-ministro. Nas escutas feitas no âmbito do processo Face Oculta e divulgadas pela terceira semana consecutiva pelo semanário é possível perceber o suposto esquema de Rui Pedro Soares e a forma como contou com a ajuda de Américo Thomati e de João Carlos Silva, ambos da comissão executiva do Taguspark, para pôr ao serviço dos interesses do PS funcionários, meios e fundos financeiros das duas empresas com capitais públicos.




  • 250 mil euros x 3

    “O meu chefe [Rui Pedro Soares, administrador da PT] vai para Milão, segunda-feira, encontrar-se com o Figo para uma coisa um bocado pornográfica. Conseguiu que o Figo apoiasse o Sócrates. Pediu que eu fizesse um contrato com a Fundação Luís Figo, à razão de 250 mil euros”, disse nas alegadas escutas citadas pelo “Sol” Paulo Penedos a Marcos Perestrelo, que responde: “E isso vale muitos votos! Essa m... dá muitos subsídios de desemprego”.

    Depois Perestrello confessa: “Por acaso não me deram o nome do Figo para os tempos de antena das personalidades para depor”. Ao que Penedos responde: “Pronto, faz-te de novas que o nome vai-te aparecer, só que o apoiante espontâneo e fervoroso primeiro deve querer assinar o contrato, não é?”

    O semanário avança ainda que José Mourinho terá sido sondado para apoiar José Sócrates, mas o contrato não foi avante por “razões desconhecidas”. Luís Figo desmentiu ontem que tenha recebido dinheiro para apoiar a campanha de José Sócrates, reiterando que o fez a título pessoal, sem que ele ou a sua fundação tenham recebido nada em troca.

Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

Descansar sobre a vantagem

Marcar cedo diante de um adversário reconhecidamente acessível, por vezes, traduz-se num adormecimento prematuro da equipa e compromete a sua exibição no resto do desafio. Foi o que sucedeu hoje ao Benfica na partida contra os alemães do Hertha, em Berlim, que terminou, ainda assim, com um resultado positivo para as ambições encarnadas: um empate a uma bola, obtido fora de portas, é sempre um bom resultado. Porém, e sabendo que Março vai ser um mês infernal, Jorge Jesus poderia ter aproveitado a ocasião para rodar jogadores menos utilizados e, dessa forma, dar-lhes ritmo e poupar outros que vão denotando cansaço. São os casos de Aimar, Saviola e Cardozo, sobretudo estes três, mas também de Ramires, Di Maria,
Javi e Luisão.

Hertha Berlim 1 – Benfica 1 (Di Maria)

No tempo exacto

No mesmo dia da entrevista de um dos seus braços direitos do momento à Visão e após uma semana de intensa mobilização interna para o contra-ataque (1, 2, 3) no seio do partido, José Sócrates resolveu dar uma conferência de imprensa onde, esperava-se, daria as explicações que devia ao país sobre o plano governamental para controlar os média de que se fala. Continua a devê-las. Falou, falou, mas nada de explicações. E amanhã, já o sabia, é dia de Sol. A dívida de explicações que hoje não saldou vai seguramente aumentar.

Desta forma, na vez de tudo o que seria importante que dissesse, assistimos a um pack de três ideias, que nada acrescentam ao que Sócrates já havia dito, a que chamou de “verdades”, condensado em menos de 5 minutos que lhe bastaram para adiantar uma terceira versão da mesma história e ainda dizer, sem dizer nada, qual a estratégia do Governo para o país nos próximos tempos. Aspecto positivo, terminou mesmo a tempo de dar a possibilidade aos portugueses de mudarem para o canal que transmitia outro espectáculo muito mais interessante, o jogo do Benfica, gesto que revela um sentido de Estado pouco comum em entretainers com o seu grau de especialização em vitimários.
(editado)

Marketing del polvo

O livro de Gonçalo Amaral está a beneficiar de uma campanha de marketing da mesma tipologia inusitada que conseguiu fazer da edição do Sol da passada semana uma das maiores de sempre. Contudo, desta vez, sem sucesso comercial, porque os potenciais compradores de “A verdade da mentira” vão ter que continuar a aguardar que o livro esteja finalmente disponível. Por hora, ao contrário do pretendido pelos censores, e enquanto continuar censurado, ganham projecção as teses de que os pais da criancinha estiveram envolvidos na sua morte e de que a mesma Justiça que agora censura o livro ajudou – continua a ajudar – a encobrir esse eventual envolvimento.

Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

Hmmmm

Ai foi? Foi. O boy Despegou do tacho? Esse mesmo. Depois duma busca ao seu gabinete feita por magistrados do DIAP de Lisboa e investigadores da PJ de Aveiro? Hmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm. Pois, pá, hmmm. Devem ter encontrado... Então, mas ele não fazia o que o Governo mandava, era? Diz que sim, pá. Foi por isso? Não deve ter sido, pá. Então e quem dava as ordens não se demite também? Parece que não, pá. E o colega boy, também não. Hmmmmmmmmm. Pá! Se calhar o outro não mudava de cuecas todos os dias. Pois, às tantas, pá. Mas o tipo ganhava bem, podia perfeitamente comprar perfumes bons para disfarçar. A mim cheira-me é a financiamento ilegal de partidos.

Tudo dentro da normalidade

2009 iniciou-se com uma taxa de desemprego de 7,8 por cento e terminou com 10,1 por cento: segundo o INE, em média, o desemprego atingiu os 9,5 por cento em 2009. E o Eurostat estima que 2010 tenha começado com uma taxa de desemprego de 10,4 por cento. Seria hora de repensar políticas. De o Governo deixar de andar a brincar às casinhas e eleger o combate à precariedade e ao desemprego e a protecção social no desemprego como as prioridades das suas prioridades. De o PSD, que se absteve na votação do Orçamento e antes havia retirado o projecto que apresentou de prolongamento excepcional do subsídio de desemprego durante seis meses, ter um mínimo de seriedade e deixar de jogar ao empurra, criticando diante das câmaras as políticas com as quais não discorda quando é chamado a votar. E de nos alegrarmos com a vitória nacional de ser portuguesa a voz que faça regressar o emprego, a estabilidade laboral e a melhoria das condições de vida como prioridades nas instâncias europeias onde - há quem o sugira - há vozes que nos representam. Sim. Porque seria a hora, também, de os portugueses deixarem de alinhar no folclore de fazer de conta que as vitórias pessoais de um ou outro português são também vitórias nacionais. Com mais exigência, talvez o fossem. E com menos resignação. Quem governa conta com ambas para se dar ao luxo de poder comentar como "normal" a maior taxa de desemprego das últimas três décadas. Acabam por ter razão. Eleitorados resignados e pouco exigentes têm a capacidade de conferir normalidade à maior das calamidades.

Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010

E agora, o Braille


Vítor Constâncio acaba de ser nomeado para ocupar a vice-presidência do Banco Central Europeu. A partir de Junho, toda a documentação do BCE passará a ser impressa em Braille. Um cão-guia está já a ser treinado para ajudar o novo vice a encontrar os buracos. Para alegria de todos, o cão também é português.

Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

Fosso ideológico

Quem quer ser milionário?

Foram construídas com o dinheiro de todos os contribuintes. Também com dinheiro com a mesma proveniência, 3,5 mil milhões de euros, estiveram, estão ou virão a estar em obras, no âmbito do programa de modernização do parque escolar que tem sido Uma das bandeiras de “investimento público” dos Governos Sócrates.

Mas a necessidade de adaptar as instalações escolares ao uso das novas tecnologias e às novas normas de climatização e ruído foi acompanhada por outra bem mais importante do ponto de vista estratégico: a da transferência da sua propriedade. Assim, as escolas portuguesas passaram ou passarão de património do Estado para património de uma empresa pública, a Parque Escolar EPE, para
tornar mais fácil a sua alienação. São cerca de 350 escolas e respectivos terrenos que farão, primeiro, a delícia daquele tipo de especulação imobiliária geradora de fortunas com origem em actos administrativos e, depois, gerarão as rendas que todos pagaremos pelo uso de património edificado e modernizado com o nosso dinheiro.

Porque será que a maioria PS-PSD-CDS recusou o projecto legislativo, apresentado pelo Bloco de Esquerda, com vista a que todas as valorizações de imóveis resultantes de actos administrativos (tais como alterações ao PDM) revertessem integralmente para o Estado? O modelo de enriquecimento que os três partidos que já foram poder em Portugal desenvolveram desde o 25 de Abril continua a descobrir fórmulas de distribuição de riqueza entre aqueles que lhes estão mais próximos.

Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

Orelhas de Burro

Tindersticks – “Black Smoke”

Sábado, 13 de Fevereiro de 2010

1, 2, 3, desespero

1. O vice-presidente da Comissão Política do PS, Capoulas Santos, desafiou os partidos da oposição a apresentarem uma moção de censura ao Governo. O seu partido também pode apresentar uma moção de confiança, mas essa, tal como as explicações que Sócrates deve ao país, já são outras conversas.

2. Ao mesmo tempo que António Costa aceita discutir um cenário onde é colocado como Primeiro-Ministro, o desespero socialista completa-se na aposta clara de safar o querido líder das explicações que não querem que dê:
uma mensagem anónima está a circular entre os militantes do PS a convocar uma manifestação, no dia 20, para "repudiar esta campanha suja contra o PS e contra Sócrates".

3. E contra o que estão a fazer contra a outra estrela de todo este vitimário, não há manifestação? O
boy Rui Pedro Soares Anunciou hoje que vai processar o “Correio da Manhã” por envolvê-lo numa operação de financiamento da campanha do PS nas últimas eleições legislativas que inclui 750 mil euros alegadamente pagos a Luís Figo para tomar o pequeno almoço com Sócrates no último dia da campanha. Se não foi incluído na convocatória, terá que haver outra manifestação.

Poderia ter-se complicado

Se o Benfica não tivesse marcado cedo, aos 10 minutos, por Cardozo, a recepção ao Belenenses poderia ter-se complicado imenso. Os azuis do Restelo demonstraram que não são merecedores da última posição que ocupam na tabela classificativa. Embora sem chegarem a incomodar a baliza de Quim, apresentaram-se muito disciplinados tacticamente e chegaram, inclusivamente, a dominar em alguns períodos menos bons do Benfica. Do lado encarnado, foi evidente o cansaço de algumas pedras fundamentais do seu xadrez, Sobretudo Aimar, Saviola e Maxi. Uma evidência que se traduziu tanto na dificuldade de manter e recuperar a posse de bola, como também no número diminuto de remates que a equipa conseguiu produzir. Weldon, que entrou ao intervalo, foi uma agradável surpresa. Mostrou muito mais argumentos para voltar a jogar do que os que não vimos às novas aquisições no embate contra o Sporting.

(Cardozo) Benfica 1 – Belenenses 0
Leixões 0 – FC Porto 0
Sp. Braga 2 – Marítimo 1 (Domingo)

A portuguese tale, certainly


(*) Do inglês técnico: “Uma história portuguesa, com certeza”.

Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

Imperdível

“Boys will be... bóis”, por Ana Gomes.

Balanço económico do 1º Governo Sócrates

Segundo uma estimativa rápida do INE, o PIB caiu 2,7 por cento em 2009 face a 2008, ano em que a economia teve um crescimento zero, após crescimentos de 1,9 por cento em 2007 e 1,6 por cento em 2006. O crescimento verificado nestes três anos (2,5 por cento) é inferior ao recuo verificado em 2009. Voltámos a valores de 2005, mas agora com uma taxa de desemprego a caminho dos 11 por cento e um défice de 9,3 por cento.

O mito dos "poderosos interesses corporativos"

Se se vier a confirmar a intenção do Governo de não permitir aumentos reais na função pública até 2013, os trabalhadores do Estado vão registar, num período de 14 anos, 13 em que a sua actualização salarial ficou abaixo da inflação.Comprovadamente, de “poderosos interesses corporativos” há aqui muito pouco. Se, tal como o Governo quis fazer crer, estivéssemos perante “poderosos interesses corporativos”, haveria aumentos de poder de compra pelo menos em mais de metade dos anos. Houve apenas em um e por uma razão conhecida: havia eleições.
Hoje sabe-se que, enquanto os portugueses aderiam à – esta também genuína – campanha negra que foi movida contra os servidores do Estado, o custo de um dos seus entretenimentos preferidos pode medir-se por todos os impostos, que pagaram para ter melhores serviços públicos e melhores coberturas sociais, que acabaram canalizados para pagar a delinquência dos verdadeiramente poderosos. Nem em ano de crise deixaram de ver os seus lucros aumentar. No ano a seguir à sangria, depois do rombo que provocaram nas contas públicas nacionais, continuam poderosos interesses corporativos mantidos à margem da crise (Ler mais abaixo).

O prato do dia


Hoje, há polvo. Não é fresco. É o mesmo polvo que, sem o saberem, os portugueses andaram a comer durante muito tempo. São, por isso, esperadas muitas indigestões, com vómitos e diarreias. Nos mares do PSD, os tubarões excitam-se com o cheiro a poder. Já se ouvem vozes que reclamam a cabeça de Sócrates. Nas águas turvas do PS, reina agora um défice de explicações. Devem um milhão delas. E já todos o sabemos, é escusado repeti-lo, juridicamente, as escutas valem zero. Porém, a questão que se coloca, tal como as suas consequências o serão, não é jurídica, é política. E ninguém está disposto a que quem atente contra a liberdade de expressão e contra o Estado de direito se possa valer da lentidão e se escude atrás da Justiça para fazer valer propósitos contrários ao da democracia que os elegeu.

(editado)

Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010

Operação Caluda: um sucesso publicitário

Uma providência cautelar, interposta pelo administrador executivo da PT para impedir a publicação de escutas na edição de amanhã do semanário Sol, não correu bem: nenhum dos citados estava presente. O jornal agradece a publicidade gratuita. Vai ser uma tiragem de arromba.

Assalto ao Banco de Portugal

O líder do CDS-PP, Paulo Portas, assegurou hoje que “tudo” fará para manter a abstenção na votação final global do Orçamento do Estado, mas colocou como condição a discussão "séria" do Programa de Estabilidade e Crescimento, o debate do Orçamento na especialidade e… a eventual nomeação do novo governador do Banco de Portugal.

173 milhões em IRC pelos ares

Como é sabido, a taxa de IRC que é aplicada à banca é aproximadamente 12 por cento inferior à que é aplicada à restante economia. Aplicando este diferencial aos 1,44 mil milhões de euros que, em plena crise, traduzem o crescimento de 10 por cento verificado nos resultados líquidos dos quatro maiores bancos privados a operar em Portugal, obtemos a bonita soma de 172,8 milhões de euros. Grosso modo, este é o valor das receitas fiscais de que o Governo abdica ao não taxar a banca em IRC à mesma taxa que é aplicada a uma pequena empresa. Daria para financiar aumentos salariais na função pública em que percentagem? Para alargar a protecção social no desemprego a quantas pessoas? Para baixar o IVA em quantos por cento?

Às malvas com a criação de emprego

Segundo o Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) que o Governo apresentará dentro de duas semanas em Bruxelas, a política salarial a adoptar para a função pública terá actualizações, na melhor das hipóteses, iguais à inflação no período que vai até 2013. O objectivo de atingir um défice de 3 por cento até esse ano será prosseguido à custa do emprego que o poder de compra dos salários dos servidores do Estado poderia criar. AS isenções fiscais às mais-valias bolsistas e imobiliárias, a protecção em sede fiscal do sector financeiro, a não tributação das grandes fortunas são três exemplos de opções políticas que, embora não criem emprego, são para manter. Ao abdicar de fontes de receita com o impacto orçamental destas três – há outras -, o Governo demonstra que nos próximos anos o seu objectivo principal não será, portanto, o combate ao desemprego.

Proibição sem dor

Romper latex

Já não basta mudar, é preciso romper” seria uma frase que faria todo o sentido dita pela boca de alguém que não defendesse a utilidade da aprovação de um Orçamento que, ao mesmo tempo, classifica de mau. Pela boca de Paulo Rangel, até porque também disse sermos um país sem esperança, muito mais do que uma expressão tonitruante para fazer um bonito em frente às câmaras e microfones , soa a slogan de campanha de natalidade idealizada com base em apelos ao rompimento de contraceptivos em látex.

Gostei de ler: "Que espaço resta à direita para se afirmar?"

«Perante os comportamentos erráticos dos mercados financeiros, que num dia condenam um país à insolvência irreversível para logo a seguir o considerarem uma fonte de risco residual, foram muitos os comentadores e ‘analistas’ locais que alinharam na histeria, precipitando-se a acusar o actual governo de ser a fonte da desconfiança dos ‘mercados’. Apontaram ao governo o crime da sempre mal explicada ‘ausência de reformas estruturais’. Alimentaram a especulação (e o negócio de quem vive dela) afirmando que a proposta de orçamento para 2010 não dava ‘garantias suficientes’ [embora a aprovassem incondicionalmente, sem negociar sequer]. Esta parece ser a estratégia que boa parte da direita quer seguir para se afirmar como alternativa de poder. Eu sugiro que mudem de estratégia. É que as acusações não são sustentadas pelos factos. (…) A oposição de esquerda pode acusar o governo de não taxar as mais-valias bolsistas, de não ter a coragem de aumentar a justiça fiscal através do impostos directos (e, de pelo contrário, apostar em impostos recessivos como o IVA para controlar o défice), de manter e reforçar situações de precariedade laboral inadmissíveis em sectores como a educação ou a saúde, de atribuir demasiada importância à pressão exerecida pelas agências de ‘rating’ reduzindo as medidas de estímulo à economia e de apoio ao desemprego antes de tempo, ou de proceder a privatizações e a parecerias com privados que alimentam interesses particulares sem garantias de benefícios públicos.
Enfim, o governo deixa muito espaço à sua esquerda. Já a direita vai continuar a ter muita dificuldade em encontrar espaço para se afirmar.» - Ricardo Paes Mamede, para ler na íntegra
aqui.

Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

Aperta-se o cerco sobre o comissariado político-judiciário

Com o argumento de que o presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), por sugestão sua, que teve o cuidado de omitir, declarou nulas as 11 intercepções que apanharam José Sócrates a falar com Armando Vara, ouvimos ontem o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, numa tentativa desesperada de justificar a decisão de ter escondido as escutas de Paulo Penedos e de Armando Vara que levaram os magistrados titulares do processo a extraírem uma certidão do processo Face Oculta e que levantam suspeitas fortíssimas de um crime de atentado contra o Estado de Direito.

Hoje,
é notícia que Pinto Monteiro omitiu ainda que nas certidões que lhe chegaram estavam também incluídas escutas telefónicas, cuja validade é juridicamente incontestável, entre Paulo Penedos e Rui Pedro Soares, o administrador executivo da empresa para quem o advogado trabalhava, relevantes para as suspeitas que envolvem o primeiro-ministro. E que havia ainda outras escutas envolvendo Armando Vara e outras pessoas, que não José Sócrates. A autorização de todas elas é da exclusiva competência do juiz de instrução do processo, António Gomes, que as validou de acordo com as formalidades legais.

Não admira, pois, que,
ontem, Pinto Monteiro tenha sentido a necessidade de dizer ter “tantas condições para continuar no cargo” como tinha quando tomou posse. A questão nem se colocaria se não sentisse que fez batota e que deve um milhão de explicações ao país. As magistraturas devem servir a Justiça e não o poder político. E o poder político, pela voz do próprio José Sócrates, por pelo menos duas vezes, já admitiu a veracidade das escutas publicadas ao referir-se a elas como um crime de violação do segredo de Justiça aproveitado pelo PSD. Nunca como calúnias, apesar da poeira que vai tentando levantar.

Não há fome que não dê em fartura

Primeiro, em dia de discussão do Orçamento, ao princípio da tarde, Paulo Rangel confirmou a infame “intriga” de há quinze dias que o apontava como candidato à liderança do PSD. Depois, ao final da mesma tarde de Orçamento, Aguiar Branco coincidiu quanto a não haver melhor oportunidade para anunciar o anúncio da sua também candidatura. Até ao final da discussão do OE, quantos mais, após longuíssima ponderação e consultas à família, não conseguirão resistir ao dever pátrio de fazer a vontade aos milhares e milhões de vozes que lhes suplicam pela salvação?

Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Goleada em jogo-treino

Jorge Jesus bem fez o possível para facilitar a vida ao Sporting na meia-final da Taça da Liga, ao poupar jogadores influentes como Quim, Fábio Coentrão, Cardozo, Saviola, Aimar e Maxi Pereira. Todavia, o Sporting não se quis ficar neste duelo de amabilidades, apostando numa estratégia “canela até ao pescoço”. E a táctica deu frutos logo aos seis minutos, com João Pereira num dois em um perfeito: expulsão e golo, na sequência do livre correspondente à falta.

Depois de aberto o marcador, o jogo-treino prosseguiu compassado pelos olés que vinham das bancadas, quase sempre no meio campo defendido pelos donos da casa. Um período que, apesar da falta de referências de ataque do Benfica (Kardec e Eder Luís apenas alisaram a relva), culminou no segundo golo encarnado.

O Sporting jogava então deliberadamente mal para desconcentrar e despertar a comiseração do adversário. Conseguiu-o. Logo a seguir ao segundo golo, o Benfica começou a brincar e, numa das várias perdas de bola em zona supostamente proibida, um dos muitos defesas centrais leoninos, Liedson, serviu um frango da Guia (pequenino) a Júlio César. O verde das bancadas voltava a ser esperança-milagre. E, apesar das evidentes dificuldades de locomoção da maioria dos jogadores da equipa, a seguir ao intervalo, a torcida verde continuava a sonhar com um honroso 1-2. Mas só até ao 1-3, que lá apareceu sem demasiado suor. Depois, até ao 1-4, rezaram pelo fim do jogo. Jesus é grande. Foi logo a seguir.

Sporting 1 – Benfica 4

Diz que é uma espécie de consenso

Não reinasse na Europa dos consensos um estranho comodismo emoldurado por verdades feitas à sua medida, nem só da substituição da Comissária búlgara, afastada pela sua consagração no mundo da corrupção, dependeria a paz podre que pairou na aprovação parlamentar da nova equipa de Barroso. Aqui, por exemplo, diz-se que a dita “não levanta dúvidas”, num artigo que começa com um “a inacção a que Durão Barroso, saberá quem escreveu por quê, se “viu forçado” e que, entre os incontestáveis, se destaca Joaquín Almunia, um espanhol merecedor de “largos elogios”. O mesmo que, ao invés de protegê-los, como era seu dever, expôs três Estados, Portugal, a Grécia e o seu próprio país, à ganância da especulação. E isto sem que o subserviente Governo português, ao contrário do espanhol, esboçasse qualquer protesto oficial. As despesas da casa estiveram a cargo do deputado Miguel Portas, a quem ouvi voltar a justificar a eleição. Não encontro o link para a notícia respectiva. Passou na rádio e já não foi mau.

Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Welcome back

É com enorme satisfação que verifico que o Henrique Fialho está de regresso com um novo projecto blogosférico. Seja muito bem-vindo.

É preciso ter lata

Para anunciar um aumento das margens de lucro do seu sector, o presidente da Associação Portuguesa de Bancos teve a distinta lata de pedir cortes na despesa pública e aumento de impostos, quando a banca continua a ser taxada em IRC a cerca de metade da restante economia. E não estava a pôr-se a jeito para que o Governo acabe com esta aberração fiscal que, caso acontecesse, teria um peso enorme no equilíbrio das contas públicas. Não. A banca sente-se com direitos adquiridos. De pagar menos impostos, de praticar os preços que lhes dê na real gana, de gerir o risco dos seus activos ao sabor da ganância e não dar um cêntimo sequer quando a coisa corre mal, apesar de terem sido os maiores beneficiados com os milhares de milhões gastos com a minimização do baptizado “risco sistémico” em que resultou a delinquência banqueira da última década. O preço a pagar, incluindo o das disponibilidades de liquidez, mais caras também pelo efeito BPN, que fique para quem já está habituado a ser espremido. Eles,coitadinhos, são obrigados a aumentar os spreads que, apesar dos milhões em ajudas que receberam, aumentaram em mais de 300% no último ano: o fisco marginaliza-os, o que faz o dinheiro ficar mais caro.

Recordando o futuro

Depois de ter valido quase cinco por cento do Produto Interno Bruto português no início da década, o PIDDAC deverá chegar ao final deste ano a pesar somente 1,6 por cento. Este valor inclui a verba que corresponde a co-financiamento comunitário. Sem ela, a sua expressão reduz-se a um por cento. Quanto às PPP, sabe-se através da proposta do OE 2010 que, para as três grandes áreas, os encargos do Estado na saúde duplicam este ano, na ferrovia crescem 60 por cento e na rodovia ainda não chegam à duplicação, mas é para lá que caminham.

De acordo com uma comparação dos orçamentos do Estado desde 2003, ano a partir do qual o PIDDAC evidencia uma tendência de quebra, o investimento da administração directa do Estado (PIDDAC) cairá, em 2010, para o valor mais baixo dos últimos oito anos, apesar do desemprego estar em máximos de décadas. Em contrapartida, crescem os contratos de investimento de associação do Estado a alguns privados e a respectiva desorçamentação, com a repetida dificuldade de fiscalização parlamentar dos compromissos do Estado nos contratos assinados com os “parceiros” privados, repetidamente apontados pelo Tribunal de Contas como lesivos do interesse público. Ao mesmo tempo, o PIDDAC vai-se esvaziando, fugindo o Governo ao seu impacto na dívida pública, mas aumentando os encargos plurianuais extra-orçamentais que pesarão no défice de orçamentos futuros, reduzindo a margem de manobra de quem governe quando os milhões e milhões, que no presente fazem a fortuna das clientelas do poder, começarem a ser pagos pelos adormecidos que há 36 anos elegem, à vez, sempre os mesmos fazedores de fortunas. Já seria hora de accordarem.

A Corte

Desde que assumiu funções no final de Outubro., o segundo Governo de José Sócrates ainda não teve tempo para aprovar o OE 2010, mas já nomeou 1361 pessoas, das quais 323 sem qualquer vínculo à Administração Pública. Entre os 1361, há 167 adjuntos, 265 assessores/colaboradores/consultores, 265 administrativos, 132 secretárias e 114 motoristas. A avaliar pelos despachos de nomeação em Diário da República, a maioria omissos quanto aos curricula dos agraciados, Cada um dos 55 membros do actual Governo já nomeou, em média, 18,2 pessoas para os respectivos gabinetes, ultrapassando as 1094 do primeiro Governo Sócrates e batendo os records de Santana Lopes (1034 nomeações) e Durão Barroso (1260).

Sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Não eram favas contadas

Apesar de avisado de que o Vitória de Setúbal está muito melhor do que a equipa que goleou em casa, o Benfica abordou a partida no Bonfim como se algum dos oito golos da primeira volta valessem na conquista dos três pontos em disputa esta noite.

Na primeira parte, durante a qual ambas as equipas marcaram na própria baliza, foi gritante o desacerto encarnado, aproveitado por um Vitória muito mais objectivo e esclarecido tacticamente. Dominou durante largos períodos e criou várias oportunidades de golo.

Já a segunda metade foi um pouco diferente. O Benfica entrou a todo o gás e poderia ter marcado, logo a abrir. O Vitória foi quebrando fisicamente e desaparecendo à medida que os minutos iam passando, ao mesmo tempo que o Benfica, embora atabalhoadamente, ia assumindo o comando dos acontecimentos. No último minuto, Cardozo falhou a marcação de um penalty, o único de três que poderiam ter sido assinalados por um árbitro que também anulou um golo limpo aos sadinos. Fraco no jogo colectivo e sem uma única exibição que se destacasse pela positiva no plano individual, o Benfica de hoje talvez tenha sido dos piores que vi esta época. Empatou. Menos mau.

Sporting 1 – Académica 2
V. Setúbal 1 – Benfica 1
FC Porto 3 - Naval 0 (Domingo)
Belenenses 1 - Sp. Braga 3 (Segunda)

Um seleccionador com perfil governamental

Com os dois socos que deu a Jorge Baptista, Carlos Queiroz mostrou ao país que Liedson se encaixa na perfeição no modelo de jogo da selecção nacional. Mas não só. Tratando-se Jorge Baptista de um jornalista, Carlos Queiroz mostra ainda que seria útil a este Governo. Não é preciso ter um PGR e um presidente do STJ na mão para que a relevância criminal de escutas telefónicas se transforme em pó de gaveta e a sua divulgação em jornalismo de “buraco de fechadura”. Se querem abafar vozes desagradáveis, o Ministro Queiroz pode ser a solução para assegurar o “interesse nacional”. E, então, sim, com os ânimos serenados pelo “corram que vem aí o Queiroz”, demos uns empurrões ao respeito pela liberdade de expressão. Que olho à Belenenses se atreveria a espreitar através de um buraco de fechadura, digam lá?

Orelhas de Burro

Phontaine - "Bush Fire"

Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Definição de "governabilidade"

Um por todos, todos por um



Um único Juiz, Carlos Alexandre, vai decidir sozinho quem vai ou não a julgamento nos casos Portucale, Universidade Independente, submarinos, Freeport, BPN e Operação Furacão. E, segundo noticia o Expresso, Carlos Alexandre "já manifestou em privado a ideia de que, num cenário de colocação de mais um magistrado, a sua opção seria bater com a porta", por entender que a nomeação de outro juiz condicionaria a sua "capacidade de acção". Por seu lado, Noronha do Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e presidente do Conselho Superior da Magistratura (CSM), órgão competente para acabar com a solidão de Alexandre, veio hoje a terreiro dizer que não tem qualquer indicador que lhe permita avaliar o estado da corrupção em Portugal.

Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Produções ®Sócrates apresenta... Carnaval 2010

Hoje, diz-se que Cavaco Silva terá convocado o Conselho de Estado por ter percebido que a ameaça de demissão de José Sócrates e do Governo, por causa da lei das Finanças Regionais, era um cenário para ser levado a sério. Nestas condições, para minimizar os custos políticos de uma estratégia de vitimização com resultados contrários aos pretendidos, o Gabinete do Primeiro-Ministro fez sair uma nota de imprensa a dizer que “é totalmente falso que o primeiro-ministro tenha dito ao Presidente da República que se iria demitir, assim como é totalmente falso que o Presidente da República tenha informado o primeiro-ministro de que iria convocar o Conselho de Estado por essa mesma razão”.

É de realçar que a nota não diz expressamente que o Primeiro-Ministro nunca ameaçou demitir-se, ou seja, a intenção não é a de pôr um ponto final à questiúncula. E também que nunca, nem esta noite, houve qualquer desmentido oficial categórico da versão que circulou na imprensa sobre as ameaças de demissão de José Sócrates e Teixeira dos Santos, que despoletaram a
instabilidade presente. Finalmente, para sublinhar o absurdo que subjaz a todo este carnaval, há que perceber que as alegadas ameaças de demissão se devem a uma proposta de alteração à lei das finanças regionais que o PS Madeira votou favoravelmente. O PS vota e depois crispa-se consigo próprio. E que, em Dezembro passado, o mesmo Governo que agora apresenta publicamente a postura que se vê transferiu para o Governo Regional da Madeira 79 milhões de euros por debaixo da mesa. Denuncia-o Francisco Louçã. A tal "responsabilidade" do auto-proclamado Governo mais responsável do mundo resulta eevidente para quem não abuse dos inibidores de visão.

"1) O PS votou na Madeira, ao lado do PSD, CDS e PCP (só o Bloco não a aprovou), a lei que agora considera que é inaceitável e que poderia provocar a demissão do governo. A lei era mesmo inaceitável (com o voto do PS), porque levava a disparar a despesa e o défice, beneficiando o incumpridor (por exemplo, se o défice era ilegal, a dívida seria transferida para o país inteiro no mesmo montante da ilegalidade... Alberto João Jardim ganharia duas vezes). O Bloco conseguiu impedir esse disparate, retirar mais de 150 milhões desse despesismo, impor regras e conseguir transparência.

2) O Governo, que agora contesta esta lei (que o PS aprovou na Madeira), deu 79 milhões de euros ao governo regional da Madeira em aumento de dívida, em Dezembro deste ano. Foi Sócrates quem decidiu essa benesse, contra o parecer do ministro Teixeira dos Santos, que terá mesmo pedido a demissão. O governo que deu 79 milhões de euros debaixo da mesa não está disposto a impor uma lei que de controlo das contas e da dívida."

Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Folgada e sem suor

O Benfica não teve que suar muito para bater folgadamente a União de Leiria na partida antecipada da 20ª jornada para esta noite. O quinto classificado apresentou-se em campo com uma formação bastante defensiva, mas um golo obtido cedo e a inspiração dos desinspirados da última jornada Cardozo, Saviola e Aimar proporcionaram uma partida tranquila, disputada em ritmo lento e salpicada com algumas jogadas de fino recorte técnico. O que conta é que rendeu mais três pontos e agora o Benfica é primeiro.

Benfica, 3 – U. Leiria 0
Marcadores: Cardozo, Saviola e Ruben Amorim

Pois, não há dinheiro

Com os votos contra de toda a oposição, a maioria socialista que governa a Câmara de Lisboa aprovou hoje uma despesa de mais de 350 mil euros destinados a financiar a realização da corrida de aviões Red Bull Air Race.

Já há dinheiro para os desempregados

Até agora, em Portugal, há apenas 98 óbitos a lamentar causados directa e indirectamente pela gripe A. Nunca antes uma doença tão inofensiva havia sido objecto de um investimento tão elevado no seu combate como esta. Falava-se muito no H1N1 e o Governo apressou-se a encomendar 6 milhões de vacinas. Entretanto, comprovada a natureza virtual da sua perigosidade, factor que determinou o fracasso de uma campanha de vacinação que, apesar de bastante mediatizada, obteve uma adesão muito abaixo do esperado pelo Governo, este decidiu seguir uma sugestão da OMS e cancelar 30 por cento da encomenda inicial. Já haverá dinheiro para combater o problema bastante real vivido por 170 mil portugueses que, sem vacina contra o desemprego, não têm direito a receber qualquer prestação social. Poupar num combate virtual para gastar noutro bem real seria uma decisão acertada. O tempo o dirá se exageradamente acertada.

Definição de taxa de desemprego "aliviada"

Sem a vaga de emigração actual, apenas comparável à verificada na década de 60, qual seria a taxa de desemprego actual? Contas por alto, em quatro anos, o contingente de imigrantes portugueses na Suíça aumentou 13,2 por cento, de 173.278 em 2004 para 196.186 em 2008. No ano passado, o número aumentava à razão de 1000 por mês. Nos mesmos quatro anos, o número de pessoas nascidas em Portugal a residir em Espanha aumentou 91,5 por cento, de 71 mil para 136 mil. Em Inglaterra, 22 por cento, de 68 mil para 83 mil no mesmo período. Somando os acréscimos do contingente de emigrantes portugueses de apenas três países, e sem contar com os que emigraram em 2009, chegamos a um total de 102908 portugueses que, caso tivessem permanecido em Portugal, se somariam aos 550 mil desempregados que fazem dos 10,4 por cento da nossa taxa de desemprego “aliviada” a terceira mais alta da zona euro. Com 660 mil desempregados a taxa de desemprego portuguesa seria de 12,3 por cento. Considerando todas as saídas verificadas em 2009 para todos os destinos, qual seria a verdadeira quantificação deste aspecto importante da nossa vigorosa retoma?

Um apelo

Primeiro, os peros de Sá Pinto. No fim-de-semana passado, comeram em Braga e ficaram a 15. E, (veremos se) finalmente, ontem, a cabazada de 5-2 do Porto. Deixo aqui um apelo: não batam mais nos meninos.

Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Quem disse que as catequeses não são úteis?

À partida, por fomentar o debate, por potenciar o alargamento de horizontes e encontrar soluções, uma conferência sobre “o Estado e a competitividade da economia portuguesa” é um evento que sempre se saúda. Mas um fórum, sobre o que quer que seja, para o qual sejam convidadas personalidades todas da mesma área política, deixa de ser fórum para ser catequese. De um tipo que pouca serventia tem. A menos que o painel da catequese tenha como cabeças de cartaz José Sócrates, Teixeira dos Santos, Vieira da Silva, Vítor Constâncio e… Cândida Almeida. Sim, a própria. A do Freeport do Sócrates. A mesma senhora que, por exigência do PGR e à revelia da lei, foi reconduzida por votação por braço no ar à frente do DCIAP, apesar das avaliações negativas dos seus pares sobre o seu desempenho. Comprovadamente, há nomes capazes de tornar uma catequese tão útil como qualquer outro evento. Se entre os objectivos deste estava algum diagnóstico, graças ao mix explosivo de convidados escolhido, pelo menos um dos nossos maiores problemas ressalta tão demasiadamente evidente que se torna para mim fastidioso maçar-vos com a palavra que melhor o identifica.

São opções

Na América, face ao objectivo de retoma e ante um défice monstruoso, a minimização do desequilíbrio das contas públicas também se faz do lado da receita. Mas não através de um aumento dos impostos da classe média, tanto por serem essenciais para assegurar um consumo a níveis capazes de criar emprego, como também por ter sido uma promessa eleitoral. Assim, entre as novas receitas, a Administração Obama encontrou quase cem mil milhões de dólares anuais do programa de benefícios fiscais de ajuda aos mais ricos idealizado por Bush, prestes a expirar e que não será renovado, no corte de 39 mil milhões de dólares anuais em benefícios fiscais até agora concedidos às empresas petrolíferas e 150 mil milhões de dólares em novos impostos e taxas a aplicar ao sector financeiro.

E não é previsível que nenhum dos afectados pelos cortes abandone a América. Essa conversa fica para países onde os verdadeiros privilegiados, mantidos fora das listas oficiais de privilegiados a abater, são poupados à custa de cortes nos direitos de quem trabalha operados por Governos conhecedores de um eleitorado cuja tendência de voto não se altera demasiado com as consequências sobre si das escolhas de quem manda.

Não quero com isto dizer que os americanos sejam um exemplo nas escolhas políticas que têm feito ao longo da sua História. Lá, como cá, como em todo o mundo, a má ou a não utilização do voto tem-se traduzido em benefícios duma minoria que, não tendo votos, tem o poder de condicionar as escolhas da maioria e no prejuízo desta última que, tendo votos em abundância, não é capaz de se mobilizar para que esse poder reverta a seu favor. Quis, tão-somente, enaltecer três medidas de elementar justiça social tendentes a colocar aqueles que mais podem a pagar uma crise que por cá continua a ser paga pelos mesmos de sempre, maioritariamente votantes nos mesmos de sempre. São opções.

Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Definição de governabilidade

Como vimos, esta manhã, Teixeira dos Santos admitiu que as proporções gigantescas do défice se deveram a um erro do mesmo tamanho. No mesmo dia, Sócrates garantiu que o aumento do défice para 9,3 por cento não resultou de "descontrolo", mas sim de uma decisão do Governo que está em linha com as principais economias mundiais. Afinal, em que ficamos?

Ler em silêncio, para não incomodar

Mário Crespo denunciaria, hoje, na sua coluna no JN, conversas tidas num restaurante em Lisboa no dia da discussão do Orçamento entre José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e um executivo de televisão. Na conversa, ele, Mário Crespo, é referenciado como louco, mentalmente débil e a necessitar de internamento, "mais um problema que tem que ser solucionado". O problema foi solucionado no alinhado JN. O artigo não saiu na edição de hoje, como seria suposto. Mas foi publicado no site do Instituto Francisco Sá Carneiro. Vale a pena lê-lo. Em silêncio, para não incomodar.

A incompetência inimputável e a estabilidade do erro

O ministro das Finanças assumiu hoje na Assembleia da República que se enganou nas previsões das contas públicas, mas negou que houvesse a intenção de enganar o público. Acreditando no que diz o Ministro, o pequeno lapso terá sido, então, fruto da mais pura incompetência. E a incompetência conduziria inevitavelmente à demissão do incompetente respectivo. Porém, havendo que assegurar a "governabilidade" e sendo este um Governo "responsável", a responsabilidade política dos incompetentes é um múltiplo da sua nulidade: zero. Até ao próximo erro, continuaremos com um Ministro incompetente e irresponsável aos comandos da ingovernabilidade irresponsável do país. Avé, estabilidade.