Tão grande e tão prolongada foi a sua indecisão quanto à escolha, difícil, entre o pai biológico e o pai afectivo, que o título “pequena Esmeralda da política portuguesa” assentar-lhe-ia que nem uma luva. A pequena Esmeralda bem se sentou ao colo daquele que seria o pai adoptivo, mas lá acabou por decidir-se pelo pai biológico. Segundo ela, era a “esquerda possível”. O pai biológico rejubilou com a decisão. A pequena fazia-lhe falta. Na casa ao lado, conhecida a predilecção da pequena por meias tintas e o seu gosto por colher as melhores flores de cada jardim, o pai afectivo nem reagiu à não surpresa que, contudo, lhe mereceu o maior respeito. Na família, desde pequeninos, todos são educados numa cultura de liberdade segundo a qual todos devem decidir em consciência e ninguém é obrigado a fazer opções contra a sua vontade. E esta foi a história da pequena Esmeralda da política portuguesa até Sexta-feira passada.
Um dia em que tudo mudou. Foi o dia escolhido para o anúncio das segundas núpcias da emancipação da pequena. Manuel Alegre decidiu anunciar que é candidato a Presidente da República. E, imagine-se, sem pedir licença ao papá. Por isso, os manos Lello e Vitalino, duas das reservas morais de uma família com uma moral muito própria, vieram imediatamente a terreiro exibir o seu desagrado. A família biológica fez saber que ainda iria decidir se acompanharia ou não o seu rebento na aventura anunciada. Um tiro no pé, uma vez que a família adoptiva não regateou o apoio que na família biológica será decidida pelo patriarca. Alegre é agora o candidato do Bloco. Se o PS o apoiar, apoiará o candidato do Bloco. Andará a reboque. Se não o apoiar, fará aquilo de que está sempre a acusar o Bloco: a dividir a esquerda e sempre a obstar ao consenso. Apoiando ou não Alegre, o PS terá sempre qualquer coisa a perder.
Obterá a pequena Esmeralda o apoio da sua família biológica? Que dirá ao respeito o avô Soares? Optará o PS por dividir a esquerda, boicotar uma candidatura unitária e, dessa forma, garantir a reeleição do patriarca da família que outrora viveu à sua direita? Arriscará o Bloco de Esquerda ver um candidato seu ser eleito Presidente da República? Escreverá a pequena Esmeralda uma espécie de”Os Lusíadas” dos tempos modernos inspirada na sua própria desgraçada história de vida? Não perca, nas cenas do próximo capítulo.