segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sejamos felizes na república do tem que ser

Dá gosto acender a televisão ou a rádio e folhear o jornal. A coerência assombra-me. Parecem todos pertencer ao mesmo dono e que as notícias foram escritas todas pela mesma mão. Gosto desta comunicação social que entrevista sardinhas felizes com as visitas, agora mais frequentes, dos novos submarinos comprados pelos nossos piratas mais ilustres e dá tempo de antena a Medinas Carreiras que comentam com comoção apocalíptica as dívidas do Serviço Nacional de Saúde sem questionarem o modelo de gestão empresarial que lhe acelerou o enterro. Quanto custaram os submarinos? Mil milhões de euros. Se fossem empregues para pagar as dívidas do SNS, estas desapareceriam. Um SNS sem dívidas? Lá poderia ser! Os portugueses têm que ser informados de que não ter submarinos capazes de fazer das nossas sardinhas as mais felizes do mundo tornar-nos-ia um alvo demasiado fácil para carapaus e alforrecas. As dívidas do SNS são um animal em vias de extensão.

Da mesma forma, gosto muito de declarações,
como a de ontem, do Ministro das Finanças que enterrou 5 mil milhões de euros no BPN e se prepara para enterrar mais 2,5 mil milhões, a distribuir por cortes salariais e nas prestações sociais. Dizem que os mercados se acalmam com aparições públicas destes focos infecciosos que tentam convencer o seu mercado de pagadores de sacrifícios de que o caso português é muito diferente do irlandês. A Irlanda não vai contagiar Portugal diz quem continua a contagiar-nos com a austeridade purificadora de todos os seus pecados. Os deles.

Mas vamos lá aguentar caladinhos, para não inquietar os mercados. A greve da próxima Quarta-feira
pode custar 280 milhões à pátria, contabiliza-se, com alarido.

E quanto terá custado a Cimeira da Nato do último fim-de-semana? Se exceptuarmos os custos correspondentes à tolerância de ponto, ao condicionamento de trânsito em Lisboa, aos negócios que estiveram parados e aos milhões da compra de blindados e demais material “
essencial”, que não chegaram a tempo para serem utilizados no evento que serviu como justificação para a sua aquisição por ajuste directo, fica o prestígio do festival de repressão num país onde a liberdade de expressão pelos vistos tem como limite a indignação suscitada pela recepção a uma organização que prossegue fins tão nobres como invasões a países justificadas com mentiras do tamanho do mundo, guerras feitas ao sabor das oportunidades de negócio que geram e apoios dados incondicionalmente a Estados criminosos capazes de cúmulos como o muro que Israel construiu ao redor da Faixa de Gaza.

Que orgulho para todos nós podermos receber com honras de Estado tão ilustres personagens. Angela Merkel e Nicolas Sarkozy têm ajudado muito os portugueses a conseguirem salários mais baixos e desempregos mais baratinhos. E Berlusconi não é um mafioso, é um grande estadista. Quem sentir os joelhos sujos, pode agora limpá-los, se assim o entender. Afinal, ainda somos um país livre. Sejamos felizes nesta república do tem que ser.

2 comentários:

João Ricardo Vasconcelos disse...

Porque um bom espectáculo ajuda à reflexão e pode ser também uma forma de protesto, eis o Espectáculo da Greve Geral :: 24 Nov, 17:30h no Rossio (Lisboa) :: Algumas presenças confirmadas: Jorge Palma, José Mário Branco, Camané, Peste & Sida, Zé Pedro, Janita Salomé, Alex.

Aparece, traz um amigo e sobretudo divulga por favor.

Mais info aqui: http://www.facebook.com/event.php?eid=132374053483256

Ab

Anónimo disse...

E será que nós podiamos passar bem sem esta corja de burlões e vigaristas.?

Ora, nós poder podíamos mas não era a mesma coisa.!