sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Melhores a gritar, piores a votar

\Na passada Quarta-feira, os portugueses quiseram dar um sinal inequívoco de que não estão para aturar mais austeridade e regressão económica e social. E deram-no. Nas gordas da primeira página do El país leram-se as palavras “a maior greve de sempre em Portugal”. Da boca dos dois membros do Governo, os únicos autorizados a comentar o protesto em todo o universo socialista, saiu uma greve pouco significativa e pouco notada. Da boca da Ministra do Trabalho saíram adesões entre os 5,9 e os 95 por cento. Por pouco que o atabalhoamento não gerou o pleno. O Governo abanou ao sentir encurtar a margem política para prosseguir com novos desenvolvimentos do suicídio cozinhado no Orçamento a meias com os parceiros do PSD.

E a palavra é mesmo suicídio. No dia a seguir à greve, ontem, foram conhecidos os detalhes de outro suicídio em fase mais adiantada. Depois de ter adoptado políticas em tudo semelhantes às agora aprofundadas em Portugal, o Governo irlandês avançará com o segundo corte nos salários e um aumento brutal nos impostos. Mais pobreza e mais desemprego geraram – e voltarão a gerar – ainda mais
miséria e mais desemprego. A espiral recessiva contra a qual os portugueses se haviam manifestado na véspera.

Hoje, nova repetição de uma cena que se banalizou nos últimos tempos. As medidas que supostamente iriam acalmar os
antropomorfizados mercados voltaram a enervá-los. Os juros da dívida portuguesa voltaram a aumentar e, tal como aconteceu com a Irlanda há um par de semanas, seguiram-se uma sucessão de rumores e desmentidos de que Portugal já terá pedido ajuda ao FMI, novamente o número de Angela Merkel a ameaçar com falta de paciência, o Parlamento alemão a aprovar um dos maiores endividamentos de sempre, Teixeira dos Santos a dar vida ao fantasma da instabilidade política e Passos Coelho a dizer umas coisas sobre rigor, sentido de Estado e mais não sei o quê. A pressão externa não se compadeceu com o aumento da pressão interna.

Dir-se-ia que governantes e projectos de governantes se encontram entre dois fogos, um disparado do exterior, outro aceso nas ruas. Porém, um deles não será assim tão forte. Uma sondagem realizada antes do dia da greve volta a dar ampla maioria à coligação PS-PSD que hoje aprovou um mergulho mais profundo na crise. Os portugueses são melhores a fazer barulho do que a usar o poder dos seus votos. Vem aí o FMI, vêm aí mais cortes salariais e nas prestações sociais, vem aí mais desemprego, vêm aí mais privatizações e desmantelamento de serviços públicos, pois vêm. Esta espiral não se pára com gritos. As greves não dão nem retiram poder. Pelo menos as que têm lugar fora do dia das eleições.

4 comentários:

Anónimo disse...

Aos Portugueses falta e sempre faltou aquilo que se come nas saladas - tomates.!
Tá visto e mais que visto e diria até, revisto, que esta coisa só lá vai com um novo 25 de Abril.!

Eduardo Miguel Pereira disse...

Há 36 anos a "comerem" porrada e ainda não abriram a pestana !
Pergunto-me vezes sem conta o mesmo ?
Quando é que esta gente aprende a votar ?

Quanto à greve, o sucesso deve ter sido para lá de estrondoso, atendendo à forma como os mais diversos meios de comunicação se mantiveram no mais sepulcral silêncio no "day after".

Filipe Tourais disse...

Uma revolução apenas faz sentido num contexto de ditadura. Não faria sentido uma revolução agora, os portugueses têm na mão um mecanismo muito mais fácil de utilizar e que maioritariamente não usam. Fazer uma revolução para quê?

Fenix disse...

O problema é que os partidos políticos estão a ficar descredibilizados, pois receia-se que o Poder é corruptor!
Como se poderá fazer a transição de uma Democracia Representativa (que a bem da verdade nunca o foi) para uma Democracia Participativa?? Qual o Partido com assento, actualmente no Parlamento que assegure ao Povo mais participação nos seus destinos? Se houver eu votarei nele. Eu conheço um, mas infelizmente ainda é muito pequeno para aparecer no painel parlamentar.