terça-feira, 9 de novembro de 2010

Fortunas à moda da casa

O enriquecimento como direito adquirido vive momentos de glória. Hoje, temos mais um exemplo. A redução das deduções à colecta assustou as ramificações do sector financeiro no sector da Saúde. Haveria, como tal, que compensar estes protegidos do regime. E a compensação lá apareceu, com naturalidade, sob a forma de anúncio: a partir de Janeiro, o sistema de saúde dos funcionários públicos (ADSE) deixará de ser obrigatório e passará a ser voluntário e alguns actos médicos deixarão de ser comparticipados.

Convirá recordar que os cortes salariais na Administração pública incluíram um aumento nos descontos para a ADSE em 1 por cento para todos os trabalhadores, de 1,5 para 2,5 por cento. E bastará perceber que, se os 12,50 euros que desconta um trabalhador que aufira um rendimento de 500 euros mensais apenas dão para pagar um seguro de saúde com coberturas mínimas, já os 50 euros que desconte outro com um salário mensal de 2000 euros chegam para pagar o seguro de saúde com as melhores coberturas oferecidas no mercado (recorri ao simulador desta página e introduzi 45 anos no campo idade).

Desta forma, a partir de 2000 euros mensais, é cada vez mais compensador deixar de descontar para a ADSE e optar por um seguro de saúde. Por exemplo, alguém que aufira 4500 euros mensais deixa de descontar 112,5 euros e passa a pagar os mesmos 50 euros de prémio de seguro que paga aquele que recebe 2000. Ou seja, poupa mensalmente 62,5 euros. Anualmente, a seguradora aumenta o seu pecúlio em 600 euros. E o Estado, a ADSE, um sistema a abater, perde anualmente 1350 euros por cada trabalhador com este nível salarial. Como sempre, perde o Estado e ganha o mercado. Um mercado nascido à sombra de um poder político empenhadíssimo na defesa do Estado social. Vai ser uma surpresa geral quando for anunciado que a ADSE se tornou insustentável. Será uma janela de oportunidades que ficará escancarada graças aos milhares e milhares que se verão obrigados a comprar um produto que não comprariam de outra forma. A fortuna anda por aí à solta. Decreta-se.

2 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

CAro Filipe,
Faço link :)
Obrigado.
Abraço.

Anónimo disse...

O prof. de Coimbra, irá colocar no seu "causa nossa" qualquer coisa como: "Mais vale tarde que nunca. Há quanto tempo vinha eu defendendo a extinção da ADSE...."

Concordo com o blogger. No entanto, uma boa parte dos portugueses acha que sim senhor, os f.p. se querem ter saúde à parte que a paguem etc etc esquecendo que quem, de facto, vai ganhar são as seguradoras e interesses associados. Não tardará que a ADSE sufoque financeiramente e o governo reconhecer o a sua inviabilidade, os f.p. de menores rendimentos irão sobrecarregar, funcional e financeiramente, o SNS a que também se augura um futuro risonho.
LG