terça-feira, 19 de outubro de 2010

Um bom trabalho

Dia após dia, minuto a minuto, cresce a vozearia em torno de um Orçamento que vai sendo passado para a opinião pública como “necessário” em face das necessidades de financiamento do Estado português. “Há que transmitir confiança aos mercados” é a premissa que se repete à exaustão como forma de coagir a aceitação geral de sacrifícios mal distribuídos e sem garantias de, por insuficientes, virem a conhecer reedições num futuro próximo. Para completar o quadro, os privilégios de uma classe de rendeiros do país são para manter intactos porque, segundo se repete, da acumulação de riqueza resulta “inevitavelmente” criação de emprego. O debate condiciona-se à partida, com os destaques e as omissões mais convenientes para a prossecução dos objectivos de desmantelamento social impostos pelos detentores também do poder de condicionar a informação que se faz.

Outra realidade, outro tipo de reacções e outras exigências resultariam de uma comunicação social menos instrumentalizada e mais plural. A “pressão” e a “confiança” dos mercados são questões que apenas existem porque quem comanda a agenda mediática trata como neutra a decisão política dos poderes de Bruxelas de colocarem o BCE a vender liquidez a 1 por cento a especuladores que depois revendem o mesmo dinheiro aos Estados a 6 por cento ou mais. É aqui que reside a questão central. Não haveria “crises de confiança” se o BCE emprestasse esse dinheiro directamente aos Estados. Todo o mais é consequência desta fórmula arquitectada para impor uma agenda política de cortes e desmantelamento do Estado social, velhos objectivos de um neoliberalismo que se apoderou da Europa e que encontrou na crise a oportunidade de ouro para acelerar a sua consumação num processo em espiral: num dia corta-se para acalmar mercados, no dia seguinte a sua ganância retrai-se de forma a demonstrar que se fez “o correcto” e, pouco tempo depois, porque as medidas impostas têm impactos recessivos inevitáveis, essa mesma ganância regressa em força com o argumento de que “afinal os cortes iniciais não foram suficientes”, reiniciando-se todo o processo de cortes e mais recessão.

Segundo as últimas sondagens, apesar das evidências, mais de 80 por cento dos eleitores portugueses continuam a confiar em três forças partidárias a quem não se ouve uma palavra contra este caminho sem regresso. Quando acordarem, se alguma vez o fizerem, será demasiado tarde. O que durou gerações a conquistar demorará pelo menos outro tanto a reconquistar. A pobreza generalizada será o prémio para quem não vale mais do que um encolher de ombros.

1 comentário:

Anónimo disse...

Já reparam no controlo e censura da comunicação social!? Quando em França está a haver uma revolução dos trabalhadores, aqui na televisão e nos jornais Portugueses, controlados pelos Lordes cá do sitio, mal se fala no assunto! Já na ditadura foi assim, tem medo que o Povo e se revolte. Hoje temos a internet e a TV por satélite mas mais uma vez estes meios só estão ao dispor de muito poucos! Temos uma ditadura encapotada e mandatada pelos banqueiros e especuladores!