quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Kafkiano, Cavaquiano, anibalesco

Kafkiano, relativo a Franz Kafka, é um adjectivo utilizado para descrever alguma situação real que, por estapafúrdia, mais se parece com um sonho o mais tortuoso e o mais longe possível da realidade. O termo é utilizado para aludir a situações em que um indivíduo, sem o desejar, se sente como sua parte integrante, ficando com a real impressão de que, enquanto essa situação perdurar, está a viver numa dimensão irreal, em estado de perplexidade, podendo, em decorrência, ser levado a uma condição mental totalmente desajustada.

Cavaquiano é um termo relacionado. O adjectivo pode ser utilizado para descrever alguma situação surreal que, por inoportuna e desviante da realidade, mais se parece com o mundo dourado vendido nas revistas cor-de-rosa, o mais bonita e o mais parola que a parolice possa alcançar. Pode ainda ser utilizado em referências a situações em que um indivíduo com grandes responsabilidades por um desastre sobejamente conhecido de todos, com todo o despudor, não só faz de conta que nada tem que ver com o naufrágio, como ainda pergunta o que seria do país sem os seus prestimosos serviços.

Com anúncio na semana anterior pela alcoviteira escolhida para o efeito, o espectáculo que as televisões serviram ontem à noite teve um pouco de ambas. Parecia uma festa de uma dessas revistas ditas “de sociedade”, com os repórteres empenhadíssimos em fornecerem a lista completa dos nomes dos presentes e de chamá-los à fala, ainda que sem dizerem nada. Não vi por lá nenhum daquele vasto grupo de amigos de Cavaco do BPN dos nossos sacrifícios.

Depois, o discurso. Cavaquiano pela inoportunidade habitual da data escolhida, em plena negociação de um Orçamento de Estado do qual já não se discute a substância, apenas se será ou não aprovado. Kafkiano pela pose de grande obreiro de coisas tão boas como um reinado consagrado ao esbanjamento de fundos comunitários supostamente destinados ao nosso desenvolvimento e distribuído pela sua corte de patos bravos, que asfaltou o país em vez de prepará-lo para produzir naquele amanhã que então não existia e que produziu escândalos de corrupção como nunca antes. O mesmo grande estadista kafquiano-cavaquiano que, anos depois, após ter aprendido a comer bolo rei de boca fechada e sem falar, fez do Presidente da República um paranóico por escutas, que interrompia as férias para dizer umas coisas sobre o Estatuto dos Açores, que se assumia como porta-voz de uma Igreja amarrada a preconceitos homofóbicos, um patriota tão pequenino que, por não ter conseguido ultrapassar um ódio antigo, anibalesco e não presidencial, não se dignou a representar todos os portugueses no funeral do único Nobel português da Literatura.

Cavaco disse umas coisas. Lugares comuns, como de costume. Auto-elogios. Fartou-se de reflectir com a família. Poupará na campanha que desenvolve há cerca de um mês com o orçamento da Presidência da República. É de novo candidato a PR. O primeiro PR com reais probabilidades de não renovar o mandato. O país ficará, teria ficado, melhor sem Cavaco.

3 comentários:

Anónimo disse...

Não gostei, muito faccioso....

Eduardo Miguel Pereira disse...

Pois eu gostei, e subscrevo.

Anónimo disse...

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