segunda-feira, 25 de outubro de 2010

"Comprar" ou "vender" pobres, that is the question

No Público online de hoje, lê-se um dos maiores elogios que, em determinado contexto, um político pode receber: “comprou os pobres”. O laureado é Lula da Silva. Contrariando a tendência dominante em todo o mundo, as suas políticas de combate às desigualdades foram um sucesso com reflexos na criação de emprego e no crescimento económico do Brasil. Em menos de uma década, Lula conseguiu reduzir o número de pobres de 77,8 milhões (42,7% da população) para 53,7 milhões (28,8%) e reduzir em 62% a desnutrição infantil. O consumo gerado por estas políticas – e recorde-se que a propensão marginal a consumir é mais elevada em escalões de rendimento mais baixos - criou 14 milhões de postos de trabalho. Os resultados falam por si e não serão as acusações de corrupção, umas mais, outras menos infundadas, que poderão esbatê-los. E nem sequer como argumento meramente eleitoral servem. Num país onde a corrupção é uma prática generalizada, é difícil descobrir santos em qualquer das facções em disputa: ambas já foram poder e a corrupção não é bicho que se mate com um só tiro.

Mas voltemos um pouco atrás. Quem leia fica com a sensação inequívoca de que o pecado de “comprar” pobres parece ter inúmeras desvantagens relativamente a virtudes como as de fabricar novos pobres ou de os “vender” a intocáveis interesses económicos super bem instalados, impondo-lhes salários reais cada vez mais baixos, impostos indirectos cada vez mais elevados, racionando e deteriorando serviços públicos e reduzindo-lhes o já fraco consumo. Esta é a tendência geral que se verifica em todo o mundo ocidental onde se aposta forte na improbabilidade de exportações para espaços onde a ditadura orçamental também vende e também fabrica novos pobres, uma tendência com especial incidência em Portugal, imune a todos os resultados desastrosos que tem tido, quer nas taxas de crescimento raquíticas, quando não negativas, quer na destruição de emprego. Adorava que, por cá, também "comprássemos" pobres. Sem excepções, teríamos todos imenso a ganhar. Sucessos e fracassos, os resultados estão bem à vista. Para quem queira ver.

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