quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Intervalo

Há quase cinco anos, quando o Burro começou a andar e estava naquela fase de escolher qualquer coisa para colocar no cabeçalho do blog, saltou-me a que ainda aí se lê: “histórias de um país adormecido para ler no intervalo da telenovela”. O tempo não lhe perdeu o sentido. Hoje, é mais um dia em que, sem grande esforço, num olhar de relance pelas notícias da manhã, é facilmente constatável como o disparate continua a poder passear-se por aí em paz.

Aqui, lê-se pela centésima vez sobre o resultado de uma estratégia errada que condiciona decisivamente quer a competitividade da economia portuguesa, quer um poder de compra já sobejamente rarefeito pela aposta secular de fazer dos portugueses uma reserva de mão-de-obra pouco qualificada e mal paga: somos um dos países da Europa onde os combustíveis são mais caros e estamos a subir no ranking. Nem de propósito, no mesmo dia, aqui, lê-se que a privatização de mais 7 por cento da GALP avança na próxima semana. Em vez de corrigir as ineficiências decorrentes da ausência de concorrência num sector estratégico, que condicionam o desenvolvimento do país, em vez de manter – e já nem digo aumentar – uma posição no capital da empresa que garante lucros colossais também ao accionista Estado, transfere-se para mãos privadas essa renda maximizada pela cartelização de preços que um regulador capturado se tem recusado a regular, ainda por cima através de uma venda ao desbarato, num momento em que as bolsas vivem dias de saldos.

Virando a página, porém, sem sair do tema grandes fortunas ganhas sem fazer nenhum e proporcionadas por um poder político ao serviço de interesses facilmente identificáveis,
aqui lê-se que, nos próximos dez anos, a “crise da dívida” vai custar aos contribuintes portugueses mais 850 milhões de euros em impostos, cortes nas prestações sociais, degradação dos serviços públicos e outros quejandos de sacrifícios. Os juros cobrados pelos especuladores, a quem os fazedores de notícias chamam de “investidores”, ultrapassaram pela primeira vez a barreira dos seis por cento. É reconciliador dizê-lo assim, sem referir que, em vez de comprarem directamente as dívidas aos Estados, os poderes de Bruxelas preferiram colocar o BCE a emprestar dinheiro aos bancos a 1 por cento e que é essa a liquidez que os bancos depois vendem aos Estados a um preço fixado ao sabor da sua ganância. A versão que é apregoada serve na perfeição para criar um cenário de inevitabilidades geradoras de retrocessos civilizacionais desejados por quem decide e por quem é pago para condicionar eventuais reacções. Mas vão mais longe ainda. Se a omissão anterior é um insulto à percepção da realidade, que dizer deste “Bancos portugueses ajudam Estado”? Fala sobre financiamentos de curto prazo a taxas de juro mantidas no segredo dos deuses porque a lei não obriga à sua divulgação.

Escola premiada pela Microsoft fechou”. Este pequeno passeio pelo absurdo não poderia acabar sem passar por mais este exemplo de defesa do Estado social e de promoção da excelência. Termina aqui mais este intervalo da telenovela "resignação". Se ainda estiver por aí, muito obrigado pela preferência. A segunda parte é já a seguir.

6 comentários:

Ana Cristina Leonardo disse...

parabéns por ter resistido 5 anos. mesmo resignado.

Filipe Tourais disse...

Obrigado, Ana, mas ainda não são cinco, muito menos de resignação. Não teria pachorra e existe muita concorrência. Os intervalos da dita seduzem-me bastante mais.

Pseudo-livreiro disse...

Faça o favor de continuar. Nós precisamos de si.

Rui Maio disse...

Caro Filipe:

ao longo dos últimos 2 anos (talvez um pouco mais) tenho acompanhado o seu blogue (umas vezes mais frequentemente que outras) mas não queria deixar de lhe dar os parabéns pela belíssima "primeira parte" que tem vindo a realizar.
Espero sinceramente que o intervalo seja breve e que a segunda parte venha já a seguir!

Um abraço

Filipe Tourais disse...

Peço-lhes desculpa mas, pelo que vejo, não fui feliz na escolha da expressão. Com o "intervalo" não me referia a nenhuma pausa no blog e sim a uma pausa nesta realidade forjada que nos é vendida a granel. Amanhã, se tiver tempo, conto não me baldar outra vez às postagens. Obrigado e um abraço a todos.

Pseudo-livreiro disse...

E foi isso exactamente que se entendeu! Portanto, faça o favor de continuar. Nós precisamos de si.