sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Estabilidade, responsabilidade e milhões

Chama-se Wainfleet - Alumina, Sociedade Unipessoal, Lda, tem sede na zona franca da região autónoma da Madeira e ocupa o primeiro lugar no ranking das maiores empresas nacionais por volume de vendas da Associação Empresarial de Portugal, Câmara de Comércio e Indústria (AEP). Em 2007, tendo em conta o relatório de Balanço e Demonstração de Resultados, a que o i teve acesso, teve um volume de vendas superior a 3 mil milhões de euros (cerca de 1,7% do PIB nacional), o que representou um aumento de mais de 100 milhões de euros em relação a 2006. Números que tornam esta sociedade unipessoal por quotas, com um capital social de apenas cinco mil euros e quatro trabalhadores, na empresa com o maior volume de vendas nacional. A isto acresce o facto de não ter pago imposto sobre o rendimento produzido nos anos de 2005, 2006 e 2007 (os únicos aos quais o i teve acesso), visto estar situada na zona franca da Madeira, onde tem acesso a um conjunto significativo de benefícios de natureza aduaneira, fiscal, financeira e económica.

A maior empresa portuguesa em volume de vendas não paga impostos e quase não cria emprego. Ninguém, para além dos seus proprietários e quatro trabalhadores, retira qualquer vantagem da sua existência. O contraponto desta borla, é a sociedade portuguesa como um todo que paga as vias de acesso à empresa, todas as infra-estruturas necessárias ao seu funcionamento, a Saúde dos seus poucos funcionários, a Educação dos seus filhos e os bilhetes de avião mais baratos de que beneficiam. Existem muitas empresas como esta. Estima-se que a receita fiscal que PS, PSD e CDS insistem em continuar a oferecer a este tipo de enriquecimento ascende a quase
8 mil milhões de euros anuais que, se fossem cobrados, reduziriam o défice a cerca de 2 por cento do PIB.

Passos Coelho e
José Sócrates andam numa discussão entretida sobre um Orçamento de Estado onde não cabem nem a tributação das transacções com off-shores, nem a das grandes fortunas, nem a de um sector financeiro que paga proporcionalmente menos de metade em impostos do que toda a restante economia, tão-pouco a tributação das mais valias urbanísticas que resultam da habilidade corrupta de autarcas e governantes em alterar planos de ordenamento do território e em conceder licenças de construção a quem tem o melhor dos argumentos para lhes fortalecer as convicções. Imunes a este espectáculo degradante, viciados em sacrifícios, os felizes contemplados com uma austeridade evitável com políticas e políticos que não subalternizassem o seu bem-estar e o desenvolvimento do país aos de uma acumulação de riqueza com proveniências pouco recomendáveis, continuam a adiar uma mudança cada vez mais necessária: mais de 80 por cento continua a preferir queixar-se da vida e a discutir se quem deve pagar uma crise que não provocou é o vizinho malandro desempregado que descontou para ter protecção no desemprego, o funcionário público do último andar a quem viram carro novo, a criança da aldeia onde encerraram a escola que passou a ter que levantar-se às 6 da manhã, o doente que passou a pagar medicamentos mais caros ou o portador de deficiência a quem retiraram parte dos já parcos benefícios fiscais que lhe eram concedidos para fazer face aos custos decorrentes da sua deficiência. Em democracia é mesmo assim. Quando o eleitorado não quer a mudança, tudo permanece como sempre foi. Estabilidade, responsabilidade e milhões. A Wainfleet – Alumina é uma empresa muito simpática.

1 comentário:

Anónimo disse...

Empresas com esquemas e off-shore, perdoadas este ano pelo PP e PS, bancos com contribuições fiscais minúsculas em relação ás outras empresas e contribuintes como apoiado pelo PSD/PS/PP não são certamente o problema, de certeza que são somas muito pequenas. *sarcasmoComo diz o trio PS/PSD/PP o problema a sério são os 2.5 milhões de euros da fraude do RSI, esses sabotadores da economia, não é verdade? E o povo engole as tretas de que são ciganos a sabotar o país enquanto vota alegremente para ser roubado mais uns anitos por estas peças.