Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

O manifesto da regressão

O PSD tornou pública a aprovação, por maioria, em Conselho Nacional, do seu projecto de revisão constitucional. Contudo, com alterações importantes que constituem um recuo imposto pelas reacções negativas que o documento despertou, tanto fora, como também dentro do próprio partido. A liderança de Passos Coelho tenta agora emendar a mão e disfarçar o indisfarçável. Para além da irresponsabilidade que lhe é transversal, o documento trouxe à luz do dia a loucura completa que seria ter Passos Coelho como Primeiro-ministro. No seu manifesto ficou escrito em letras indeléveis que dar-lhe o poder seria comprar um bilhete de regresso àquele tempo em que não havia nem presente, nem futuro. Li por aí que a proposta foi inoportuna. Discordo em absoluto. Será sempre oportuno poder comprovar que um vendedor de esperança não passa afinal de um destruidor de conquistas em potência. Assim tivesse acontecido com Sócrates. Disfarça melhor.

(editado)

1 Puxões e esticões adicionais:

Anónimo disse...

Moralismo é o oposto de moralidade. Uma abordagem moral dos problemas económicos começaria por questionar os mecanismos económicos que produzem tão gritantes desigualdades nas capacidades dos indivíduos para atingirem funcionamentos genuinamente humanos, para retomar os termos de Amartya Sen, bem expostos no seu último livro – “The Idea of Justice”. A seguir proporia mudanças nas instituições de forma a remover as injustiças que causam sofrimento social evitável – desemprego num lado e horários de trabalho demasiado longos no outro, por exemplo.

Em vez disso, a abordagem moralista, com amplo eco televisivo, procura incutir o choque e o pavor, para depois avançar com uma agenda de regressão social com efeitos perversos naquilo que os indivíduos podem ser e fazer com as suas vidas. Esta abordagem é hipócrita, estreita e equivocada. É hipócrita porque os economistas que defendem reduções das despesas sociais, reduções dos direitos laborais e correspondentes cortes salariais tendem a acumular pensões e outras sinecuras públicas ou privadas. É estreita porque estes economistas falam como se os nossos problemas pudessem ser compreendidos fora dos problemas de uma zona euro totalmente disfuncional. E é, claro, equivocada: o Estado não é uma família e o estado das finanças públicas quase só depende do andamento da economia.

A abordagem dos balanços financeiros sectoriais ajuda a entender isto: a soma dos saldos dos sectores externo, público e privado, tem de ser igual a zero. Num contexto de crise, com o saldo do sector externo mais ou menos constante, é evidente que o esforço dos privados para reequilibrar os seus balanços, com cortes no consumo e no investimento, tem de gerar inevitavelmente um aumento do défice público. Inevitavelmente. Sabendo que o cenário macroeconómico aponta para uma redução necessariamente ligeira do défice externo, então o contraproducente esforço para reduzir o défice público tem como contrapartida um aumento do endividamento do sector privado. E este dificilmente ocorrerá. Por algum lado a corda vai ter de partir.

Aqui chegados, entendemos melhor os objectivos do moralismo económico. Não se trata de criar as condições para uma sociedade civilizada. Essa é a economia moral, entre outros, de Keynes, que exigiria uma política económica assente no investimento público para gerar emprego, coordenada e financiada à escala europeia. Trata-se simplesmente de aproveitar a crise para transformar a provisão pública em negócio privado para grupos económicos desesperados. Quem diria que a hipótese motivacional do Homo economicus, o egoísmo racional que Sen e Keynes tão bem criticaram, se aplicaria a tantos economistas portugueses com monopólio televisivo?