quinta-feira, 29 de abril de 2010

Regime de ubiquidades

Apenas quem tem o poder de legislar não se preocupará com a notícia. Uma profissional de saúde de um hospital público desviou uma doente com um tumor no olho para ser operada uma clínica privada, onde também trabalhava. Em toda a Administração Pública existe um apertado regime de incompatibilidades. Menos na Saúde. É negócio. Mau para o Estado, bom para quem consegue ser pago pelo trabalho executado em simultâneo em dois locais e, num deles, complementar a sua actividade principal com a de angariador de clientes para o outro. Serão tantos mais quanto mais descuidarem a actividade principal, fazendo aumentar a fila de espera no primeiro. O regime em vigor na Saúde é o das obiquidades. No privado é que é bom.

2 comentários:

Helena Ferro de Gouveia disse...

Recordo-me de um episódio semelhante que se passou com um familiar.
Num hospital público de Lisboa o médico perguntou "tem 400 contos disponíveis (foi antes do euro)se sim operamos já na próxima semana"...
Uma pouca vergonha é o que é!

Francisco Tavares disse...

De facto, o sistema hoje em vigor - poder trabalhar-se no público e privado em simultâneo - permite casos como o mencionado. O que indica que deve haver exclusividade. Ou se trabalha no sector público ou no privado. Neste momento há mesmo casos inacreditáveis. Que é haver profissionais de saúde que saem para o sector privado e depois são contratados pelos hospitais públicos auferindo elevados honorários que não tinham quando estavam no sector público. Estes casos passam-se sobretudo nos serviços de urgência. Se o processo continua, qualquer dia não há médicos no SNS.
A sra. ministra da Saúde tem-se queixado. Não tem razão. Tem a faca e o queijo na mão. Quem trabalha no privado não deve, em caso algum, trabalhar no público.
Nós sabemos que o sector privado é limitado, pouca gente tem capacidade para se tratar em clínicas privadas. Se não forem contratados serviços privados pelo sector público, muitos médicos vão ser obrigados a regressar ao SNS, pois ficarão sem trabalho.
Há ainda outra anomalia nestas questão sector público/sector privado. É darem-se licenças, ainda que sem vencimentos, a profissionais que são necessários no SNS. Querem sair, pedem demissão. Podendo, é evidente, regressar se o desejarem. Mas não é aceitável que se concedam licenças a profissionais que são necessários no SNS.