quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A toque de trombeta

Torna-se cada vez mais curioso o tipo de argumentação daqueles entendidos que lêem um espirro de Barack Obama na evolução dos mercados. Fazem-no à posterior, o que lhes facilita a tarefa. Se Obama espirra, o seu espirro tanto pode fazer com que os mercados “animem”, afinal um espirro é a evidência de um sistema imunitário em boa forma, como “deprimi-los” o mais possível, afinal um espirro pode indiciar uma gripe daquelas que dizem para aí serem fatais. E, se alguém disser um “quererão lá saber os especuladores dos espirros do Obama”, é porque não entende o mercado. Talvez seja o meu caso.

Isto a propósito de duas notícias.

Uma, de ontem, a do leilão de mil milhões de euros em obrigações do Tesouro português, à taxa média ponderada de 3,498 por cento,
cuja procura quase duplicou a oferta. Ora, segundo a tal teoria da oferta e da procura em mercados perfeitos, quando a procura excede a oferta, tal significa que o preço está acima do preço de equilíbrio que faria com que ambas se equivalessem. Não foi essa a interpretação dos trombeteiros do mercado, que, em vez de observarem um preço exagerado que poderia evitar-se se o Governo decidisse remunerar melhor os certificados de aforro que assassinaram, preferiram replicar aquela lengalenga – que serve na perfeição a especulação – da penalização da situação financeira das nossas contas públicas pelos mesmos mercados e agências de rating que se esqueceram de penalizar países como a Inglaterra ou os Estados Unidos, ambos a braços com números ainda mais medonhos do que os nossos.


A segunda trombetada,
já de hoje, faz alarido sobre a ameaça de mais descidas na classificação de risco da dívida grega por parte das mesmas agências de rating que continuam a ser levadas a séro, apesar de não terem tido a capacidade prever nem a explosão da bolha do sub-prime, nem o colapso do final de 2008 e de darem classificação máxima ao risco de países com situações financeiras muito piores do que a nossa, ., e as implicações dessa descida no aumento dos custos da dívida grega, os efeitos de arrastamento sobre as dívidas portuguesa, espanhola e irlandesa e sobre uma descida da cotação do euro que, embora só nos beneficie, é misturada com as anteriores e com os confrontos entre polícias e manifestantes na Grécia para aumentar a catástrofe que tentam vender como iminente.

Lições a retirar: os portugueses devem portar-se muito bem, não protestar as medidas de austeridade que vão poupar aqueles que não precisam de trabalhar para enriquecer, não arranjar cá confusões com a polícia e aceitar tudo o que seja imposto de cara alegre. É que os mercados, esses papões que sabem tudo e castigam, onde a maioria dos portugueses nunca ganhou um cêntimo, podem não gostar. Quando a política não sabe ou não quer, mandam os mercados e prosperam os seus lacaios da trombeta, que também mandam um bocadinho-muito. Eles existem para dar o alerta a todos aqueles que, embalados pelas suas cornetadas, preferem que se governe para os mercados e não para as pessoas.

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