Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

O nosso paraíso

O Boletim Estatístico do mês de Novembro, publicado pelo Banco de Portugal, revela que 2009 poderá ter sido o ano em que os portugueses mais investiram em paraísos fiscais. Só nos primeiros nove meses do ano, o saldo entre os valores aplicados e retirados destes veículos foi de 2,8 mil milhões de euros. 2.800.000.000 que, caso fossem tributados, seriam decisivos para tapar o buraco financeiro monstruoso de que se fala. PS, PSD e CDS-PP não o permitem. Portugal quer-se um paraíso fiscal para os interesses por si representados. E que não coincide com o da grande maioria que os elege.

Quem manda aqui

Depois da recusa de visto à concessão do Algarve Litoral (liderada pela Edifer), à do Douro Interior (Mota-Engil), à da Auto-Estrada Transmontana (Soares da Costa) e à do Baixo Alentejo (Edifer), o Tribunal de Contas voltou a negar visto à concessão rodoviária do Litoral Oeste. Para serem adjudicadas legalmente, todas estas empreitadas necessitavam do visto prévio do TC. Avançaram ilegalmente. Hoje, com os vistos negados à posteriori, lado a lado com a questão legal de todos os pagamentos que se façam a partir de agora, está a questão da forma ruinosa com que o Governo negoceia os termos contratuais com os seus “parceiros” privados: em cinco contratos de milhões, sem excepção, o interesse público não foi acautelado. Demasiada coincidência para ser mero descuido. As sanguessugas de dinheiros públicos são clientes preferenciais de um Governo que apregoa rigor e impõe sacrifícios a uma população maioritariamente voluntária para fazê-los. O “se lá estivessem outros, fariam o mesmo” vingou. E continua, simultaneamente, a fazer fortunas e a poupar custos políticos a uma desgovernação que se sente à vontade para reincidir no favorecimento de clientelas bem definidas.

Domingo, 29 de Novembro de 2009

Orelhas de Burro

G Swing – “I'm Crazy 'Bout My Baby (And My Baby's Crazy 'Bout me)”

Sábado, 28 de Novembro de 2009

Um nulo no batatal

Os derbies costumam ser mais entusiasmantes do que o de hoje. Foi um jogo muito equilibrado, mais táctico na primeira metade e (apenas um pouco) mais aberto na segunda, em que as defesas se superiorizaram aos ataques. No plano individual, houve muito poucas excepções à mediania geral: Veloso e Liedson sobressaíram no Sporting, enquanto Ramires e Quim se destacaram no Benfica. Di Maria esteve desastrado, Aimar, Saviola e Cardoso estiveram apagadíssimos. É complicado jogar num batatal como o de Alvalade.

É certo que a partida poderia ter conhecido outro rumo, caso o árbitro tivesse sancionado como devia – com os correspondentes livre directo e segundo amarelo para o defesa leonino – uma mão de Polga à entrada da área a meio da segunda parte. Mas já sabemos como é. Pedro Proença acanhou-se. O nulo acaba por nem ser mau de todo.

Sporting 0 – Benfica 0
FC Porto 2 - Rio Ave 1

Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

A admissão de um salto na escuridão

Teixeira dos Santos: “Não estou em condições de dizer quanto vai custar a nacionalização do BPN”. Para evitar dúvidas que eventualmente a frase possa ter suscitado, Convirá precisar que o Teixeira dos Santos atrás referenciado não é nenhum homónimo do Ministro das Finanças. É o próprio. O tal que repete e repete a expressão "rigor orçamental".

Constâncio dorme descansado

O Banco de Portugal (BdP) teve conhecimento da existência de concentração de risco na Sociedade Lusa de Negócios (SLN) durante o ano de 2000, falhas que na altura mandou corrigir sem verificar se os procedimentos tinham sido de facto alterados. A informação consta da acusação do Ministério Público a José Oliveira Costa - ex-presidente do Banco Português de Negócios, entretanto nacionalizado e que pertencia à SLN - e a mais 23 arguidos, todos eles ligados ao grupo (gestores, quadros superiores e accionistas). Nenhuma acusação para Vítor Constâncio ou para qualquer outro responsável do Banco Central, apesar da sua negligência já ter custado e ir ainda custar uma exorbitância ao país. A mesma exorbitância que consta na acusação a Oliveira e Costa e companhia. Mas Constâncio continua a dormir descansado. Até se diz por aí que vai para o BCE. A justa e merecida promoção, o corolário lógico de uma conjugação feliz que junta numa só pessoa o mérito e a dedicação num grau de concentração que ultrapassa a soma dos ilícitos de BPN, BPP e BCP. os que vieram a público. Nunca saberemos da missa nem pela metade.

Na coluna da direita

Da minha profunda ignorância. Um novo blog de grande qualidade. Gostei bastante.

Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

A investigação ao patrão

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), cuja autoridade emana de uma nomeação política bem determinada, anunciou que vai abrir "um processo de averiguações" para investigar a veracidade das acusações contra aqueles que nomeiam os seus membros de interferências na independência dos media.

O
Público refere ajudas financeiras oferecidas a um jornal em troca de silêncios e fala em publicidade paga pelo Estado em troca de brandura e seguidismo editoriais. E eu republico abaixo uma cronologia que valeu ao seu autor, Pedro Lomba, sem mais explicações, a dispensa do jornal onde escrevia. Está-se mesmo a ver o que é que os senhores da ERC vão concluir sobre a actuação exemplar do melhor patrão do universo.
  • «Acto I.

    Estamos a 3 de Outubro de 2004 e José Sócrates é eleito líder do PS. A 9 de Outubro, Armando Vara regressa à direcção do partido pela mão de Sócrates. A 20 de Fevereiro de 2005, o PS vence as legislativas com maioria absoluta. A 2 de Agosto de 2005, há mudanças na Caixa Geral de Depósitos: Teixeira dos Santos afasta Vítor Martins e Vara integra o“novo” conselho de administração. A maioria dos membros desse conselho é afecta ao PS.

    Avancemos no tempo. Grande plano. No primeiro semestre de 2007, a Caixa financia accionistas hostis ao conselho de administração em funções no BCP. Cresce o peso do banco do Estado no maior banco privado português. Vara e Santos Ferreira são incluídos em lista concorrente nas eleições para o conselho executivo. Os jornais falam no financiamento da Caixa ao empresário Manuel Fino que apoia Santos Ferreira.

    A 15 de Janeiro de 2008, Armando Vara é eleito vicepresidente do BCP. Segundo documento divulgado pelo próprio banco, ficam a seu cargo as competências executivas mais relevantes. Armando Vara coloca-se precisamente no coração dos movimentos de créditos, dívidas, compras e vendas de acções e activos. No centro do fluxo de todos os interesses e influências. Chegados aqui, com os actores certos nos papéis certos nas duas maiores instituições de crédito nacionais (CGD e BCP), tudo se torna possível. O primeiro golpe foi concluído. Começou então o segundo.

    Acto 2.

    Com as possibilidades que o controlo do BCP oferece, o recém-chegado grupo Ongoing, que entretanto adquirira o Diário Económico e já tinha uma posição no grupo Impresa (SIC, Expresso, etc.), é financiado para novas acções. Com o grupo Ongoing: José Eduardo Moniz sai da TVI e controla-se a Media Capital, depois de uma tentativa de aquisição pela PT abortada pelo Presidente e pela oposição. Em Fevereiro de 2009 torna-se possível ajudar o empresário Manuel Fino a aliviar os problemas financeiros (em parte criados pelo reforço da posição no BCP) junto da CGD prestando uma dação em pagamento com acções suas valorizadas cerca de 25 por cento acima do preço de cotação e com opção de recompra a seu favor. Torna-se também possível ajudar o “amigo Oliveira” a resolver os problemas financeiros do seu grupo de media (Diário de Notícias, TSF, Jornal de Notícias).

    Tudo factos do domínio público que muitos a seu tempo denunciaram. Sócrates respondia com a cassete familiar: “quem tem procurado debilitar os órgãos de supervisão, lançando críticas à sua actuação no BCP, está a fazer ‘política baixa’”. Política baixa, diz ele. Estamos perto do fim desta operação bem montada. Sócrates ganhou de novo as eleições. Mas este encadeamento todo precisava de confirmação. Incrivelmente, nas escutas a Armando Vara no caso Face Oculta, eis que surge a arma do “crime” libertando fumo: “O primeiro-ministro e o ‘vice’ do BCP falaram sobre as dívidas do empresário Joaquim Oliveira, da Global Notícias, bem como sobre a necessidade de encontrar uma solução para o ‘amigo Joaquim’. Uma das soluções abordadas foi a eventual entrada da Ongoing, do empresário Nuno Vasconcellos, no capital do grupo. Para as autoridades, estas conversas poderiam configurar o crime de tráfico de influências”. (Correio da Manhã, 7 de Novembro). Escutas nulas, disse o Supremo. Os factos, meus amigos, é que não são.»

Também nos falta um PR

Em 1994, Jin Guoping, cidadão chinês que vive há 20 anos em Portugal, foi condenado a 15 meses de prisão com pena suspensa. Era o principal responsável de uma rede que se dedicava a passar cidadãos chineses a partir da península Ibérica para os Estados Unidos. Porém, na terça-feira, foi condecorado por Cavaco Silva com a Ordem do Infante D. Henrique. Ninguém se deu ao trabalho de verificar que o seu registo criminal não estava limpo.

A Câmara dos segredos (#2)

(clicar na imagem para aumentá-la)


«A Câmara de Coimbra vai recorrer do acórdão do Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra (TAFC) que considerou ilegais dois lotes do empreendimento imobiliário Jardins do Mondego, junto ao Parque Verde do Mondego. Depois de Serafim Duarte, deputado do Bloco de Esquerda, ter “puxado” pelo assunto, lembrando que, «afinal, sempre tínhamos e temos razão», Carlos Encarnação contextualizou o processo, antes de revelar que «a Câmara vai recorrer». «Não falo, nem devo falar de assuntos que são matéria reservada à justiça. O que faço é dar a conhecer a posição da Câmara sobre as posições judiciais e o que pretende fazer», declarou o presidente do município.

Recorde-se que o colectivo de juízes do TAFC considerou nulas quatro deliberações da Câmara de Coimbra - três do último mandato de Manuel Machado (PS) e uma do primeiro de Carlos Encarnação (PSD) - por violação do artigo 39.º do regulamento do Plano Director Municipal. O tribunal anulou, também, um despacho do anterior director de Urbanismo da Câmara de Coimbra, José Eduardo Simões. Em causa está a edificação dos dois lotes (um deles é para estacionamento público e o outro é para um prédio com apartamentos, lojas e garagens) em zona verde.

Na sessão de ontem da Assembleia Municipal de Coimbra, a oposição questionou o fechar de portas das reuniões do executivo aos jornalistas. «A Comunicação Social é um elemento activo e participativo das políticas autárquicas», lembrou Helena Freitas, do PS, enquanto André Dias Pereira, deputado da mesma bancada, solicitou ao presidente e aos vereadores para repensarem «este apagão». Serafim Duarte, do Bloco de Esquerda, falou numa decisão que «empobrece a expressão democrática». Apesar de se ter dito «jornalista», José Simão, presidente da Junta de Freguesia de Santa Clara eleito pela Coligação Por Coimbra, foi o único a elogiar a expulsão dos jornalistas. Carlos Encarnação voltou a defender tratar-se da «melhor solução para o executivo».»

Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

A Câmara dos segredos

Desde 1980, a presença da comunicação social nas reuniões ordinárias da Câmara Municipal de Coimbra foi uma prática democrática que facilitou a transmissão de informação aos cidadãos sobre as deliberações da CMC, o seu âmbito e o seu espírito, dando-lhes a conhecer os debates que levavam à formação das decisões que, sobre os mais variados aspectos, influenciam o seu quotidiano. ´

Saberão eles as razões que presidiram a tal decisão, porventura não muito difíceis de intuir. O certo é que, no início do actual mandato autárquico, o Executivo da Câmara Municipal de Coimbra decidiu vedar a presença dos órgãos da comunicação social nas suas reuniões ordinárias. Terão descoberto todas as vantagens em reunir com a porta fechada. E sublinho-o, têm toda a legitimidade para assim decidir.

Assim como eu, cidadão e munícipe apologista da transparência e adepto de um poder local cuja razão de ser a encontro na promoção da proximidade do poder político às comunidades locais, tive toda a legitimidade em assinar
esta petição que exige a revogação de uma decisão anacrónica tendente a acentuar uma rota rumo a uma opacidade ainda maior do que aquela que última e repetidamente, na CMC, tem despertado a atenção judiciária. Lamento ambas.

6.000.000.000 para Orçamentos futuros

Quando a melhor solução era a falência, para evitar um alegado "risco sistémico" muito duvidoso, por decisão do Governo, fomos postos a pagar 3,5 mil milhões de euros deste buraco. Mas parece que não foi suficiente. Segundo a imprensa de hoje, o antigo presidente do BPN, Oliveira e Costa, e três outros ex-administradores foram acusados pelo Ministério Público de terem gerado ilicitamente um buraco de 9700 milhões de euros no banco. O restante, ou a falência que deveria ter sido declarada logo de início, ficará para Orçamentos futuros.

O Tratado que era a solução

O Tratado de Lisboa que, por ser tão evidente e inquestionavelmente “bom”, colheu a aclamação geral dos partidos que estão ou já estiveram no poder em toda a Europa e foi aprovado sem discussão pública, à revelia das populações europeias, começa agora a ser um problema. Aquele que tornaria a Europa mais forte e coesa começa a revelar-se um foco de tensão entre os executivos eleitos pelos cidadãos europeus e uma autoridade monetária nascida em Maastricht não eleita democraticamente e, como tal, politicamente irresponsável, com poderes que são um corpo estranho que pesa no défice democrático da União e está acima dos dos próprios Governos.

Quando a crise rebentou, registava-se uma coincidência entre os objectivos do Banco Central Europeu e os dos Governos: era preciso travá-la a todo o custo. Porém, assim que apareceram os primeiros indícios de retoma, embora tímidos e inconsistentes, as prioridades das duas partes começaram a divergir. Apressadamente, as autoridades monetárias realinharam o discurso à mesma ortodoxia monetarista que ajudou a cavar a crise e o fantasma das tensões inflacionistas de longo prazo, que se alimenta de estímulos e défices públicos, regressou em força. Embora a procura continue bastante deprimida e a crise esteja longe do fim, apesar dos preços estarem em queda, o BCE zela para que a inflação não se aproxime dos míticos 2 por cento.

Do lado dos Governos, com o desemprego a bater recordes e a pressão social a aumentar ao mesmo ritmo, o objectivo principal tende a ser o da retoma. Porém, para além da crise, os Governos têm agora que lutar contra o espartilho orçamental imposto pelo PEC, tão imensamente bom como o Tratado que o consagrou como a política económica oficial da União Europeia. O mesmo Tratado que teve o cuidado de afastar o combate ao desemprego das atribuições do BCE e, simultaneamente, preservar uma irresponsabilidade política potenciadora da irresponsabilidade económica patenteada na decisão de subida de taxas no Verão de 2008, quando os sinais de crise eram já por demais evidentes. A inflação vinha aí. Seria o caos se os preços crescessem acima de 2 por cento. O caos chegou, mas entrou por outra porta. A que o BCE escancarou ao manter as suas taxas directoras elevadas durante tanto tempo e que o PEC desenhou ao ditar tectos orçamentais que travaram o investimento público, logo, o crescimento económico e a criação de emprego, e fizeram recuar o Estado social. Vão continuar a fazê-lo. Por quê? Porque sim. Di-lo o Tratado. E será de todo aconselhável não esquecer aqueles que, por serem tão responsáveis, lhe apregoaram as virtudes e tiveram a irresponsabilidade de aprová-lo sem o questionar.

Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Saiu a fava

Dois jogos fora, contra o Vitória de Guimarães e contra o Rio Ave, e um em casa, contra o Nacional. Sorteio pouco risonho para o Benfica na Taça da Liga.

Cócegas

O bispo do Porto, D. Manuel Clemente, defendeu ontem que questões como o casamento entre homossexuais “não podem ser resolvidas rapidamente, exigem reflexão”, e considerou que um referendo “é uma das hipóteses” para que esse debate aconteça. Tal como o seriam os referendos sobre o impedimento que veda às mulheres a possibilidade de celebrar missa, um tipo de discriminação proibida na restante sociedade, que inexplicavelmente continua a ser permitida à Igreja, e sobre o celibato dos padres, caso a sociedade civil se metesse em tais assuntos. Ambas são questões mal resolvidas internamente pela mesma que foi contra o casamento civil quando este, há mais de um século, foi instituído em Portugal e, posteriormente, usou de todo o seu poder sobre o regime que, durante anos, fez coincidir o casamento católico "para toda a vida" com o casamento civil, fechando todas as portas ao enquadramento legal da figura do divórcio. Voltam agora À carga. Pelo visto, a felicidade humana faz cócegas a esta organização que professa o "faz o bem, não olhes a quem".

O oásis do optimismo

As encomendas à indústria subiram na Europa e desceram em Portugal. Na zona euro, as encomendas à indústria subiram 1,5 por cento em Setembro relativamente a Agosto (já haviam subido 0,6 por cento em Agosto face a Julho), mas Mantiveram-se 16,5 por cento abaixo do verificado em Setembro do ano passado. Pelo contrário, em Portugal, as encomendas à indústria caíram 4,9 por cento em Setembro relativamente a Agosto e a variação homóloga foi de -26,8 por cento.

Assim, enquanto na zona euro e na UE a tendência de Setembro foi de recuperação, com as quedas homólogas a apresentarem valores substancialmente menos negativos do que em Agosto (tinham sido de respectivamente -23,2 e -22,4 por cento), em Portugal a dinâmica foi inversa, com a queda homóloga a acentuar-se face aos -23,1 por cento de Agosto.

O primeiro de três passos

O primeiro passo está dado. Uma auditoria externa, realizada pela consultora Deloitte a 14 contratos assinados entre 2004 e 2009 entre a REN e a empresa O2, do sucateiro de Ovar Manuel Godinho, num valor próximo de 14 milhões de euros, identificou várias falhas, como sejam “insuficiências dos procedimentos internos de contratação, em particular no plano dos critérios de selecção das modalidades de adjudicação e dos processos de tomada de decisão interna”, que terão resultado no benefício da segunda e no prejuízo da primeira. Falta agora que as conclusões desta auditoria tenham consequências sobre quem utilizou o poder conferido por um mandato de representação dos interesses público e privado da empresa que lhe pagava um salário compatível com as responsabilidades inerentes à função que deveria ter desempenhado com outro rigor, nomeadamente responsabilização criminal, disciplinar e financeira. E faltará depois a responsabilização política de quem procedeu à sua nomeação para o cargo em questão. Caso contrário, esta auditoria, que não terá custado tão pouco como isso – por que desígnios do oculto não foi o Tribunal de Contas a fazê-la? –, será mais um desperdício de dinheiros públicos e privados a suportar por quem, tudo aponta nesse sentido, por ter financiado este emaranhado de ilícitos, à partida já havia sido sobejamente prejudicada.

Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Os sacrifícios dos outros

Vítor Constâncio admitiu hoje que o aumento dos salários reais para 2010 deverá situar-se na ordem de 1 a 1,5 por cento. Salários reais, atenção, não se referia a aumentos nominais. Estes, caso se verifique uma inflação negativa, até podem ser nulos e haver, pelo menos em teoria, um aumento dos salários em termos reais. Constâncio já foi dizendo que as actualizações salariais da função pública deverão situar-se abaixo do limite mínimo daquele intervalo. E referiu-se à necessidade de aumentar impostos, que não entram nestas contas sobre o poder aquisitivo dos outros feitas por alguém que aufere um salário anual aproximadamente igual ao auferido por 40 portugueses que recebam o salário mínimo. Há que fazer sacrifícios. Pois que os façam aqueles que já se habituaram a fazê-los. E que, a avaliar pelo sentido dos seus votos, maioritariamente até o fazem com gosto.

4 anos de burro

O país do Burro
2005 - 2009

Domingo, 22 de Novembro de 2009

Atitude, sem golos, não chega

O Benfica foi esta noite eliminado da Taça de Portugal. Apresentou-se em campo com um jogo lento, abafado pelo esquema táctico 4-5-1 dos minhotos, que neutralizou o seu meio campo, embora se notassem peças em sub-rendimento noutros sectores.

Começando pela defesa, e pelo golo vimaranense, obtido a meio da primeira parte, na sequência de um canto, sentiu-se a falta da voz de comando do seu patrão, Luisão, a recuperar de uma intervenção cirúrgica extra-futebol: toda a defesa assistiu, estática, ao cabeceamento que originou o golo da vitória. E o Vitória não teve mais que um par de oportunidades para marcar no tempo que restou da partida.

Porém, ao mesmo tempo que hoje era dia não para alguns jogadores do Benfica, voltou a ser noite sim para o guarda-redes adversário. Pablo Aimar foi uma sombra de si próprio e passou ao lado do jogo, assim como o também desaparecido Saviola, no ataque. Di Maria esteve absolutamente desastrado no capítulo do passe. E, bem lá na frente, no centro da área minhota, o Benfica não tinha uma referência de ataque. Keirrison, mais uma vez, esteve igual a si próprio. Uma nulidade.

O Benfica melhorou bastante de rendimento com as substituições do primeiro, Aimar, e deste último, o nulo, que, mais uma vez, demonstrou não ter estaleca para jogar na equipa. Falta no banco um substituto de Cardozo.

Assim, na segunda parte, progressivamente ao longo desta e com as substituições, o Benfica foi encostando o Guimarães à sua defesa, criando várias oportunidades claras de golo, sempre negadas por um Nilson em grande, a registar um punhado de defesas impossíveis. Apesar da atitude que sempre demonstrou, a equipa de Jesus não marcou. E está fora da Taça.

Orelhas de Burro

Shawn Mullins "Beautiful Wreck"


shawn mulins - "Lullaby"

Sábado, 21 de Novembro de 2009

Mais pobres

Politicamente, divergíamos, diria que a maior parte das vezes. Mas era alguém de quem gostava. Pela sua frontalidade, pelo seu dinamismo, pela sua bonomia, pelo trato fácil e pela enorme simpatia que sempre o acompanhava, foi alguém que me habituei a admirar e respeitar. Soube, há pouco, que nos deixou. Fiquei chocado. Sobretudo, fiquei perplexo ao saber que estava gravemente doente e, ainda assim, continuava a escrever como sempre fazia. O Jorge Ferreira era um homem de fibra. Bem sei que, nestas horas, as palavras nunca alcançam, mas aqui fica a minha pequena homenagem ao Jorge e ao seu "livre de condecorações presidenciais". Sinceras e sentidas condolências à sua família.

Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

"El pesetero" nega tudo

Se um elefante incomoda muita gente

O PSD aprovou sozinho a sua e chumbou todas as demais propostas de resolução relativas à suspensão, que acordaram com o PS chamar de “substituição”, do modelo de avaliação dos professores e alteração do estatuto da carreira docente. Tempos houve em que tínhamos uma maioria autista e arrogante composta por um só partido. Agora, temos uma maioria com as mesmas características da anterior, mas composta por dois partidos que negoceiam protagonismos entre si.

"Distributivo", mas mesmo "distributivo"

Na segunda proposta de orçamento rectificativo deste ano, que ontem aprovou em Conselho de Ministros, o executivo alargou de 10.107,9 milhões de euros para 15.012,5 milhões de euros, de 6.2 para 9,2 por cento do PIB, o limite máximo do endividamento líquido que, assim o entenda a AR, poderá vir a estar autorizado a assumir no decorrer de 2009. É um aumento de quase 50 por cento relativamente às previsões iniciais que teimosamente manteve até agora, apesar dos reparos de toda a oposição. Fica à vista de todos a dimensão do "erro": quase 5 mil milhões de euros. E há pontos negros neste buraco da mesma cor.

O Governo diz agora que a necessidade da rectificação se deve a uma diminuição das receitas fiscais causadas pela “tempestade perfeita” que lhe tem servido como argumento universal para todos os seus fracassos, “garantindo” ainda que nada tem que ver com a mais que evidente derrapagem da despesa que, segundo eles, tão rigorosos que são, até diminuiu. Porém, os números dizem o contrário: as estimativas revistas pelas Finanças apontam para uma diminuição na cobrança de impostos de 13,2 por cento relativamente à sua previsão de Maio, ou seja, a perda de receita em relação ao que estava anteriormente previsto será "apenas" de 1450 milhões de euros. As aspas do “apenas” devem-se à diferença entre este valor e os 4904,6 milhões que constituem o tamanho do “erro” da previsão inicial, mantida até agora porque entretanto houve eleições: 3454.6 milhões de euros. Um número aproximado de outro que nos é bastante familiar, os 3,5 mil milhões de euros do buraco do BPN que o Governo tapou com o dinheiro de todos os contribuintes. A ele se devem as aspas que utilizei para emoldurar a palavra “erro” e também o “distributivo” com o qual o Governo baptizou este segundo Orçamento Rectificativo. Resulta evidente por quem distribuíram. E confirma-se o que escrevi
aqui, no dia 4. Garanto que não sou bruxo.

Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Vantagens de não haver governação com maioria

Valeu a pena que a oposição tenha feito pressão, questionando a legalidade da cobrança de taxas em operações de levantamento, depósito e pagamento de serviços feitas em caixas automáticas. O Governo foi obrigado a decidir-se pela sua proibição. Mas atenção: o diploma legal que suporta a proibição foi aprovado apenas na generalidade. Na especialidade, eles às vezes transformam o preto no branco e o branco no preto. Os pára-quedistas dourados, por exemplo, sabem bem ao que me refiro (ler aqui).

neologia Orçamental: para lá da demagogia

O Governo aprovou hoje, na reunião do Conselho de Ministros, uma proposta de alteração ao Orçamento do Estado de 2009 que prevê uma redistribuição dos limites do endividamento. E recorreu ao humor. O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, recusou a designação de orçamento rectificativo, preferindo denominá-lo de “orçamento redistributivo”. Um Orçamento rectificativo que mudou de nome porque o Governo, para rechaçar argumentos de uma oposição que clamava pela rectificação do Orçamento, sempre disse que as contas públicas estavam perfeitamente controladas e, como tal, era completamente desnecessário. Esta palhaçada é que era necessária.

No futebol, tal como na política


E foi assim que a França se qualificou para o mundial de futebol de 2010, com uma jogada que inclui um fora de jogo e mão na bola por duas vezes. Aposto que, caso o fizessem, se o resultado de um primeiro referendo sobre a justiça ou injustiça do afastamento da sua selecção nacional de futebol do mundial do próximo ano fosse um “Sim” injusto largamente maioritário, com jeitinho, um segundo referendo mostraria um povo convencido de que não foi merecedor do lugar conquistado pela França. Na Irlanda, há quem se diga "enojado", mas a realidade é que os irlandeses andam a habituar-se à batota. Por isso, Nada de dramas. O mais importante desta página negra do futebol é se o Paint of the Coast põe os olhos nesta vergonha com o selo da FIFA e começa com ideias.

Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Só pode ser boa

Uma selecção desorientada por alguém como Carlos Queiroz que se qualifique para um mundial é a prova provada de que é mesmo boa. E lá terão que levá-lo à África do Sul.

Começam bem

O PS já começou a colocar obstáculos às propostas legislativas de combate à corrupção que o Bloco de Esquerda apresentará no próximo dia 3 de Dezembro na AR.

Quanto mais lenta, melhor


Apesar de suspenso, Armando Vara vai continuar a receber um salário de cerca de 30 mil euros brutos até ao apuramento final do seu envolvimento no caso face oculta. Comprovadamente, aquela história da flexigurança não era treta, era mesmo a valer.

Terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Obra feita

A taxa de desemprego em Portugal disparou, durante o terceiro trimestre deste ano, para 9,8 por cento, o que representa o valor mais alto registado desde pelo menos 1983. O máximo de então, 9,2 por cento, foi agora batido durante a governação daqueles que prometeram que criariam 150 mil empregos durante o seu mandato. Superaram largamente os empregos que não criaram com o emprego que ajudaram a fazer desaparecer: em apenas três meses, foram destruídos 40 mil empregos e, da mesma forma, 178 mil postos de trabalho foram perdidos durante os últimos doze.

Mas os feitos heróicos na área do emprego da governação Sócrates não se ficam por aqui. Graças à sua flexibilização, que nos iria tornar mais competitivos, sete em cada oito pessoas contratadas há menos de 12 meses e sem experiência de trabalho anterior encontram-se numa situação precária: a maioria está a prazo, mas também há quem esteja com recibos verdes ou noutro tipo de situações instáveis não especificadas pelas estatísticas do INE. E, no final dos mesmos doze meses, apenas um em cada dez passou a ter um contrato sem termo certo.

Em 1998, menos de dois terços (65,8 por cento) dos primeiros empregos (com menos de 12 meses) eram precários. Em 2005, ano em que José Sócrates assumiu o cargo de primeiro-ministro, esta proporção superava já os três quartos (76,1 por cento). E, no segundo trimestre deste ano, chegou aos 84,4 por cento. A aposta foi clara. E ganha.

Que maravilha

Uma das líderes nacionais do trabalho precário, a PT, obteve um resultado líquido de 371,9 milhões de euros, 1.37 milhões por dia, nos primeiros nove meses do ano, o que representa uma queda de 14,2 por cento face aos lucros de 433,5, 1,60 milhões de euros diários, do período homólogo do ano anterior. Embora esta variação não seja perceptível pela, nem tenha qualquer significado para a maioria dos que se encantam com os milhões dos outros, ela poderá “forçar” a empresa a engendrar novas formas de exploração que devolvam a glória aos seus resultados. E pode fazê-lo à sua vontade. A legislação laboral permite-o, a variação nas vendas é infinitamente inelástica relativamente à exploração laboral e, ainda que entre os clientes estivesse enraizada uma cultura de penalização das empresas que recorrem a tais práticas, quer porque a PT opera num quase monopólio, quer porque as suas concorrentes anãs a imitam nos padrões de respeito que dispensam a quem para e nelas trabalha, seria impossível fazê-lo. E, sem alterações no paradigma de acumulação de riqueza que vigora actualmente, fica completamente fora de cogitação que um ou dois meses de lucros de uma empresa monopolista e exploradora como a PT, de cuja manutenção no sector privado apenas resulta a prosperidade de muito poucos, seriam suficientes para cobrir a abolição das taxas moderadoras de todo o Serviço Nacional de Saúde ou que apenas uma semana de utilização da mesma prerrogativa de acumulação de riqueza seria suficiente para financiar integralmente as despesas de funcionamento anuais de uma instituição do Ensino Superior de média dimensão.

Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Sobre as taxas sobre o uso do multibanco

O olho da tempestade

Hoje, as taxas euribor registaram novos mínimos históricos e, inversamente, o ouro conheceu novos máximos. Os primeiros traduzem o défice de consumo e de investimento de uma crise que, diz-se por aí, já terminou. O segundo é a tradução da desconfiança e da falta de alternativas de aforro que se verificam um pouco por todo o mundo. E ambos são dois dos mais que muitos sinais claros de que, ao contrário do ouvido nos pregões do optimismo militante, a bonança não deve confundir-se com o olho da tempestade.

De regresso

Quando, há uma semana, interrompi as postagens no PB, a actualidade nacional era dominada pelo caso face oculta. Então, em foco estavam todos os corruptos e corruptores em potência que terão enriquecido na sombra de esquemas sobejamente retratados por toda a imprensa. Porém, sorte a sua, bastou uma semana para que o indesejado estrelato os abandonasse. Nos dias que se seguiram, a abordagem alterou-se e as atenções foram de todos eles desviadas.

Coincidência, talvez, durante a mesma semana, José Sócrates foi visto a ser injectado com uma substância misteriosa, alegadamente uma vacina contra a gripe dos porcos. Os efeitos secundários não se fizeram esperar. Quase imediatamente, imagine-se, ele, o impoluto Primeiro-ministro de Portugal, que, salvo raras excepções como, entre outras, os casos FREEPORT, Independente, casas na Beira Alta e aterro da Cova da Beira, nunca antes tinha visto o seu nome manchado com qualquer associação a negócios de pocilga, foi colhido de cernelha nas escutas realizadas no âmbito das investigações ao caso em conversas com um dos seus protagonistas, cujo apelido quis o divino que fosse o substantivo colectivo que identifica um grupo daqueles animais que o mesmo criador quis também associar ao líquido injectado.

Vai daí, das escutas estalaram duas guerras: uma, entre alguns dos mais destacados membros daqueles que beneficiaram de mais um caso ocorrido antes e conhecido depois das eleições e o tudo e o todos que, segundo os próprios, está novamente a promover uma campanha negra, desta feita denominada de “
espionagem política”, contra alguém tão insuspeito como o seu mais que tudo; e outra, ao mais alto nível, entre as duas magistraturas, que, entre salpicos de porcaria, incluindo um esforço branqueador na forma de ordem de destruição de vestígios do chiqueiral, aproveitaram para ensaiar uma disputa pela primazia na condução da brincadeira em que transformaram a investigação criminal.

Finalmente, em jeito de desodorizante de mais esta história pestilenta,
o Bloco de Esquerda recuperou alguns dos projectos legislativos anti-corrupção por si apresentados e chumbados pela maioria socialista durante a última legislatura. A aprovação – ou rejeição – da criminalização do enriquecimento sem causa conhecida, do levantamento do sigilo bancário, da retenção fiscal dos lucros obtidos por alterações de PDM e do fim da distinção entre corrupção para acto lícito e corrupção para acto ilícito vai novamente permitir verificar quem é quem no combate à corrupção. Teremos que esperar pelo resultado da votação que decorrerá na AR no próximo dia 3 de Dezembro. Não tenho grandes expectativas. Há demasiados anos que maioritariamente os votos dos portugueses têm dado força à profecia orweliana segundo a qual os recos triunfam sempre. E em Setembro passado fizeram o ciclo de triunfos renovar-se mais uma vez. Se quisessem um país diferente, teriam votado diferente. Este é o país que querem. E este é o país que temos. Há é que saber chafurdar. No pasa nada. Safa-se quem melhor o fizer.

Domingo, 8 de Novembro de 2009

Até já


Esta semana serei forçado a ausentar-me por motivos profissionais, pelo que o Burro estará parado durante os próximos dias. Até já.

Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Os carris do interesse público

A administração da Refer - Rede Ferroviária Nacional precisou de mais de três anos –esperou pela prescrição – para intentar uma acção cível contra uma empresa do universo de Manuel José Godinho, embora estivesse em curso um processo movido contra uma das suas empresas por roubo de carris e travessas de cerca de dois quilómetros da Linha do Tua, do seu conhecimento desde Fevereiro de 2004 (serviram para isto).

Ainda ontem escrevi sobre esta estratégia de silêncio que é adoptada por muitos dos ocupantes de cargos de topo do aparelho de Estado, cuja missão, em teoria, seria zelar pelo interesse público. Na grande maioria, são principescamente pagos para o fazerem. Mas, ao contrário de outros países em que são funcionários (no topo) de carreira, em Portugal são nomeados políticos. Movem-se nas teias do poder. E enquanto assim for, enquanto se mantiver o actual sistema de distribuição de cargos públicos entre os acólitos do partido que esteja no poder, apenas em casos extremos, quando não reste outra alternativa, é que esse mesmo poder deixará de compactuar com condutas irregulares de apaniguados zelosos dos seus próprios interesses.

E, pese embora todo o atrás referido não ser novidade para ninguém, ao invés de uma inversão de marcha, nos carris por onde circula a defesa do interesse público foi colocado um código do trabalho e uma revisão das carreiras da Administração Pública que reforçam poderes a quem já detinha demasiadas prerrogativas para poder agir - ou não - ao sabor da sua - ou alheias - conveniências. O primeiro, aplicável ao pessoal de empresas participadas pelo Estado, promoveu a precarização dos vínculos laborais daqueles que, por razões óbvias que incluem o fantasma do despedimento, deixaram de ter qualquer interesse em alertar para tudo aquilo que os seus superiores não vejam ou não queiram ver. O segundo, com o mesmo sinal, aplicável ao pessoal da Administração Pública, para além da referida precarização e respectivas consequências, foi ainda mais longe ao consagrar prémios para as cegueiras mais cómodas e obedientes. O país não podia ficar parado, repetiu alguém. Andou bastante.

®Dranguilidade

Bento XVII, no Vaticano, sempre deu o seu melhor no sentido de velar pelo sono eterno de Jesus, transmitindo a sua palavra. Outro Bento, em Alvalade, sempre trabalhou para que Jesus descansasse “dranguilamente” sobre as suas vitórias. Parecia ser o mesmo franchising, mas não era. O Bento de Alvalade deixou de dar “dranguilidade” a Jesus. E está desfeito o equívoco. Mas a "dranguilidade", palpita-me, vai manter-se mesmo sem Bento -IX.

Um passeio ao Goodison Park

Apesar da derrota doméstica do fim-de-semana, que poderia influenciar negativamente o desempenho da equipa, e das dificuldades que os confrontos com formações inglesas sempre oferecem, a deslocação de ontem a Liverpool foi um passeio. O Benfica nem teve que esforçar-se demasiado para vencer o jogo contra o Everton, que nunca incomodou a baliza de Júlio César, conforme haviam sugerido quando prometeram desforrar-se da cabazada que sofreram há quinze dias na Luz. Os encarnados limitaram-se a controlar, acelerando na última meia hora, na qual marcaram dois golos sem resposta. A equipa soube colocar-se em campo muito bem e responder anímica e fisicamente ao revés da derrota em Braga, regressando às vitórias e isolando-se na liderança do Grupo I.

Destaques para o homem que fez aquecer um jogo que nunca deixou de ser morno, Pablo Aimar, e para a preocupante lesão de Ramires, substituído ainda na primeira metade. Ainda para a notória falta de confiança que Jorge Jesus deposita em Shaffer, novamente deixado no banco, fazendo alinhar David Luís na posição que ocuparia na asa esquerda da defesa encarnada. Esta posição é uma forte candidata às prendas de Natal do mercado de Inverno.

Grupo I – 4ª Jornada
AEK Atenas 2 - BATE Borisov 2
Everton 0 – Benfica 2
Marcadores: Saviola e Cardozo

Classificação: 1º Benfica (9), 2º Everton (6) e 3ªs AEK e BATE Borisov(4)

Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Os proactivos

Depois de ter sido forçado a apresentar um pedido de suspensão das suas funções de vice-presidente do BCP, imediatamente aceite pelos accionistas, Armando Vara vai ser hoje ouvido pelo Banco de Portugal (BdP) no quadro do inquérito preliminar a um eventual cancelamento do seu registo como vice-presidente daquele banco. Tudo indica que José Penedos, outro arguido no mesmo processo, seja também forçado a abandonar a presidência da REN. E o rolar de cabeças promete não ficar-se por aqui.

Os indícios são claros quanto às proporções deste caso. Habitualmente, ser arguido num qualquer processo não costuma forçar destituições, exonerações ou demissões de quaisquer cargos. Tem mandado o politicamente correcto actualmente em vigor entre nós que eventuais arguidos em processos-crime despertem solidariedades tão inusitadas como consensuais na condenação das vozes que se insurjam contra a sua permanência em cargos cujo exercício, num país civilizado, tenha associada uma responsabilidade incompatível com suspeitas que impendam sobre o seu titular. A quem o faça é-lhe tradicionalmente colado o rótulo de “radical” ou “extremista”. E conversa encerrada.

Desta vez, porém, está a ser diferente. Os apoios são negados. A criatividade que costuma acompanhar casos semelhantes a este não produziu nenhum quejando de “campanha negra”. Talvez porque as actividades em causa sejam há muito conhecidas nos meios onde se movem os habitualmente solidários e criativos, até agora estrategicamente calados e a partir de agora também estrategicamente demarcados de qualquer apoio dado àqueles que sempre contaram com o seu silêncio. Não será difícil imaginar a conversa entre Armando Vara e o seu interlocutor do Banco de Portugal: a um “então, Armando, dizem para aí que andaste a meter-te em sarilhos?” suceder-se-á o anúncio da beatificação de alguém que, nem à progenitora, nem à Justiça, daria outra resposta. MAS a chamada de Armando Vara ao Banco de Portugal não é uma ridicularia. Longe disso. Traduz a necessidade de uma demonstração pública da mesma proactividade com a qual contaram os negócios escuros dos ex-administradores de BPN e BPP. Sem consequências para os proactivos, então vítimas de inveja social, de tentativas de linchamento público e outras que tais. Mantiveram os lugares.

Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Tempos de vacas gordas

As remunerações dos administradores da SAD do Porto no exercício fiscal 2008/2009 totalizaram 1 915 815 euros, mais do dobro do auferido conjuntamente pelas administrações das SAD do Benfica e Sporting. Em qualquer dos casos, todos se fazem pagar bastante bem.

No FCP, apenas Pinto da Costa recebeu mais do que os administradores das SADs do Benfica e do Sporting juntas: 700 mil euros durante aquele período. Adelino Caldeira e Fernando Gomes receberam um total de 420 mil euros e Reinaldo Teles 375.815 euros.

Na SAD do Benfica, o presidente e vice-presidente não são remunerados, mas Domingos Soares de Oliveira recebeu 291.641 euros, Rui Costa 235.777 euros) e Maria Teresa Claudino 145.848 euros.

Finalmente, na SAD do Sporting, Rita Corrêa Figueira é a única administradora executiva remunerada e recebeu 165.620 euros no exercício 2008/2009.

Minudências

O Governo sabe que, para avançar para a fase da adjudicação, qualquer contrato público necessita de obter um visto prévio do Tribunal de Contas. Porém, mesmo sem visto, o contrato de concessão da Auto-Estrada Transmontana foi adjudicado há quase um ano, por 700 milhões de euros, a um consórcio liderado pela Soares da Costa e, também sem visto, a subconcessão da auto-estrada do Douro Interior, que está a ser executada por um consórcio liderado pela Mota-Engil, foi adjudicada por 826 milhões de euros. O Visto prévio chegou depois. Ou melhor, não chegou. Ambos os contratos foram chumbados pelo TC. E agora? Alguém será responsabilizado? Haverá alguma consequência? Obviamente que não. Há muito que a legalidade dos negócios públicos é uma minudência sem qualquer relevância. Os portugueses nem ligam nenhuma. A receita é para repetir.

3500 milhões, o número mágico

Não deixa de ser curioso verificar que, em termos absolutos, a diferença entre as previsões do Governo e as da Comissão Europeia quanto ao défice que se verificará no final deste ano é de 3500 milhões de euros. 3500 milhões de euros é um número mágico na História de Portugal. Corresponde ao valor do buraco financeiro do BPN que o Governo decidiu que todos pagaríamos.

Porém, coincidência ou não, e apesar do reduzido peso do plano anti-crise de cerca de 1000 milhões que a incompetência do Governo apenas executou pela metade, tudo aponta para que, neste e nos próximos anos, venhamos a bater o record de desequilíbrio das nossas contas públicas. Há que recuar até 1985 para encontrar um défice orçamental semelhante ao actual. E em 1985, recorde-se, o investimento público tinha um peso muito superior ao que actualmente tem no OE. Construíam-se e tapavam-se buracos nas estradas. Hoje, os buracos são outros. Aumentam a cada dia que passa.

Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Respeito por quem trabalha

Se constasse que um dos empregados do merceeiro cá da rua era visto dentro da loja a receber 10 euros por um trabalhito menos limpo, o patrão não hesitaria em despedi-lo na hora. Mas tudo mudaria de figura caso se tratasse de alguém ligado a um partido, colocado como alto funcionário de um banco graças aos seus méritos mensalões e se a verba em questão fosse multiplicada por mil. Por alguma razão o merceeiro cá da rua nunca chegou a rico. Acontece a todos os quadradões que não sabem acompanhar os desafios laborais de um mundo globalizado. Ganha-se pouco, há que fazer pela vidinha.

A escolha

Vêm aí tempos ainda mais difíceis. A par com um desemprego a níveis monstruosos e um crescimento económico raquítico que nos coloca a divergir da média europeia, a CE estima que o défice orçamental em Portugal fique bastante acima da previsão do Governo de 5,9 por cento do PIB deste ano: 8 por cento em 2009, repetidos em 2010 e aumentados para 8,7 por cento em 2011. As previsões foram elaboradas para um cenário de manutenção das actuais políticas, pelo que, a breve prazo, o Governo terá que optar entre ser o “bom aluno” que tudo faz para cumprir o PEC ou ser um aluno reivindicativo que questiona o PEC e reclama mais ajudas da UE. Nada contra qualquer das duas.

Quanto a mim, o ideal seria uma conjugação de ambas. Defendo que Portugal deveria ser mais reivindicativo com Bruxelas. E entendo que Ser “bom aluno” não significa necessariamente sacrificar invariavelmente os mesmos de sempre. Para tal, bastaria que as grandes fortunas fossem tributadas, que a banca pagasse tanto em sede de IRC como a restante economia, que as transacções com off-shores fossem controladas e taxadas como deviam e que fossem nacionalizados os lucros dos vários monopólios, actualmente apropriados por ricos rendeiros que sobrecarregam toda a economia com as margens que combinam entre si. É porque a política teima em não responder à injustiça que resulta da conjugação de todos eles que os serviços públicos definham e não há subsídio de desemprego para todos. A política orçamental não se confina à contenção da despesa. Pode equilibrar-se o orçamento também através da receita. E esta crise demonstra bem que não há margem para manter durante muito mais tempo o modelo, até agora seguido, segundo o qual se promove o sacrifício de uma maioria para assegurar o enriquecimento de uma elite minoritária de bem relacionados com o poder político. A escolha é clara. Urgente. Entre mais sacrifícios da maioria já tão sacrificada ou menos privilégios para essa minoria que tem sido poupada a todas as crises. Assim haja pressão. Um dia, isto rebenta.

Irresponsabilidade e ingovernabilidade

Dizia-se por aí que José Sócrates iria governar aos ziguezagues, reunindo apoios à esquerda e à direita, consoante as matérias e as oportunidades. O Governo apresentou ontem o seu Programa. E esta ideia esfumou-se. Resulta claro que não pretende governar nem à esquerda, nem à direita. Antes pelo contrário. E o contrário de tudo.

Não se vislumbram no documento mais do que meras generalidades sobre as políticas que pretende implementar no combate à crise. Nada sobre o alargamento da protecção social no desemprego. Nada sobre se pretende ou não fazer cumprir o compromisso assumido relativamente à subida progressiva do salário mínimo até aos 500 euros. Nada sobre as actualizações de salários e de pensões. Nada sobre quantos milhões quer continuar a canalizar para o BPN. E nada sobre o modelo de avaliação dos professores e revisão da carreira docente que, apesar de ser uma das bandeiras da sua derrota eleitoral, pelo visto, quer manter.

O Programa de Governo é, sem tirar nem pôr, um decalque do o programa eleitoral que apresentaram a sufrágio, sustentam. Mas que não obteve votos suficientes para que, como até aqui, o PS possa impô-lo sem restrições, esquecem-se. O Governo quer continuar a governar ensimesmado, como se não tivesse havido eleições e como se os portugueses não tivessem retirado a maioria absoluta ao PS. Mas retiraram. E agora o número de deputados de que dispõe não é suficiente para continuar com as suas imposições. Nem com os “responsabilidade” e “governabilidade” da moda. Cada partido da oposição também assumiu compromissos perante os respectivos eleitorados. Cada voto que receberam foi-lhes confiado em função desses compromissos. São votos seus. Pertencem-lhes. Não ao PS. E é ao PS que cabe a responsabilidade de assegurar a governabilidade indo ao seu encontro, procurando conciliar a sua vontade com a de todos os portugueses e portuguesas que lhe deram um sinal claro de que rejeitam a continuidade dos fracassos acumulados ao longo dos últimos quatro anos e meio. Fora disto, o demais será pura estratégia de vitimização com vista à antecipação de eleições para o momento que mais lhe convier. Irresponsabilidade e ingovernabilidade. O contrário dos seus pregões.

Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Puf!


Parece que as eleições fazem mesmo o desemprego “baixar”. Ler aqui.

Natais BPN


Em Dezembro de 2006 e de 2007, tal como já acontecera em anos anteriores, Oliveira e Costa deu indicações para enviar presentes ao Presidente da República, ao primeiro-ministro e aos ministros e secretários de Estado mais poderosos (Finanças, Obras Públicas, Ambiente, Economia, Saúde e Desporto). A lista contemplava ainda os líderes do PSD e membros do grupo parlamentar. Mas não só. Aos supervisores que tutelavam as empresas financeiras da SLN, como o BdP ou o Instituto de Seguros de Portugal, o então CEO mandava prendas. E o mesmo com gestores públicos e privados, advogados e jornalistas. (…) No BPN a lista de presentes destacava-se pela abrangência e diversificação dos produtos: perfumes, vinhos do grupo (Raposeira, Tapada de Chaves, Murganheira), até prendas mais caras, como grandes e pesados baús contendo produtos, ou caixas e taças de prata. O valor das ofertas era tanto mais elevado quanto o cargo ocupado por quem os iria receber. Isto, se os recebesse de facto, pois as prendas podem ter sido devolvidas.

Um parêntesis

O jornal Público anunciou ontem um “novo começo”. De saída, José Manuel Fernandes, tornado famoso pela repugnância suscitada pelos seus editoriais, não faz parte do novo projecto. Estaria a prejudicar as vendas do diário. Em sua vez, o anonimato. Os ditos Serão agora simplesmente editoriais ®Público. Como naqueles blogs anónimos em que quem manda as pedras esconde a mão. Estranho caminho para a credibilidade. O mesmo escolhido nos propalados isenção e rigor de opiniões pretensamente neutras da nova aposta, como se houvesse opinião isenta e políticas neutras. Não há.

O Público só teria a ganhar se, de uma vez por todas, tal como acontece com os grandes jornais de referência de todo o mundo, assumisse a sua mais que evidente tendência política. Este seria um caminho possível de reconquista da reclamada credibilidade. Outro seria apostar na pluralidade, fazendo como o seu concorrente “I”, que convidou colunistas de reconhecida qualidade de todos os quadrantes políticos e, assumidamente, não tem uma tendência política definida. Mas nenhuma de ambas foi a opção do Público, que preferiu manter um cinzento aparente e deixar os leitores, uns agradável e confortavelmente a reconfirmarem-lhe uma cor que há muito sabem qual é, outros paulatinamente a sentirem-se defraudados com a descoberta de uma cor que lhes venderam como neutra. Será uma fase. Tenho para mim que este “novo começo” será apenas um parêntesis. Antes do verdadeiro recomeço.

Domingo, 1 de Novembro de 2009

Orelhas de Burro

Waldeck – “Memories”

Futebol e futebóis

Hoje defrontavam-se os dois líderes da tabela classificativa e, naturalmente, esperava-se um jogo empolgante. Porém, tivemos, não um, mas dois jogos. Um disputado com bola entre dois onzes e outro jogado com apito, cartões e sabe-se lá mais o quê. E nenhum empolgante.

O Braga entrou a todo o gás e dominou nos primeiros dez minutos. Materializou a sua superioridade num golo obtido através de um livre magistralmente executado por Hugo Viana. Depois, foi a vez do Benfica dominar até ao intervalo, embora sem o fulgor evidenciado nas últimas jornadas. Materializou a sua superioridade num golo obtido por Luisão. E anulado, apesar de limpo.

O segundo jogo prosseguiu no intervalo. Soube-se no reatamento da segunda parte que dois jogadores, um de cada lado, viram o cartão vermelho no túnel de acesso aos balneários. Ninguém viu ao certo o que se passou, apenas que Leone, do Braga, e Cardozo, do Benfica, não regressavam ao relvado. O Benfica perdeu a sua principal referência de ataque, não se sabe agora por quantas jornadas. Escolha bastante acertada de Jorge Sousa, o árbitro que saiu na rifa.

E o primeiro jogo lá prosseguiu, com aquele interesse que despertam todas as partidas com forte cheiro a batota. O Benfica melhorou. Dominou durante toda a primeira metade da segunda parte, embora sem chegar a encantar. Jorge Jesus arriscou tudo e retirou Javi Garcia, que não estava a jogar no seu melhor, e fez entrar Keirrison, que nunca mostrou qual é o seu melhor. Não se entende a sua entrada, estando Nuno Gomes no banco. Não é neste tipo de jogos que se lançam jogadores e Nuno Gomes quando é chamado à equipa até tem marcado golos. Naturalmente, a aposta foi perdida. O Benfica desguarneceu o seu jogo defensivo e o Braga marcou em contra-ataque. A partir daí, a equipa de Jesus partiu-se em cacos. O Braga venceu por dois golos sem resposta e isola-se na liderança. O Benfica conheceu a derrota pela primeira vez e queda-se em segundo lugar, com menos três pontos que o seu opositor de hoje e mais dois que o FC Porto, que empatou ontem.

FC Porto 1 – Belenenses 1
Sp. Braga 2 – Benfica 0
Sporting 1 – Marítimo 1