terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O voo dos abutres

Seria aceitável que os mesmos Estados que se empenham em proteger os seus cidadãos contra os malefícios do tabaco fizessem o mesmo relativamente ao crédito. Entre nós, porventura, dado o nível de endividamento do país e conhecida que é a ignorância da maioria dos consumidores na matéria, seria mesmo recomendável.

Ontem, o Banco de Portugal poderia tê-lo feito. Utilizou o mecanismo certo, a fixação de um tecto máximo, mas, ao colocá-lo ao nível da média das taxas praticadas no último trimestre majoradas de mais um terço, o que fez foi estimular ainda mais a usura e transmitir a mensagem da possibilidade, legítima e legal, da cobrança de juros ainda mais absurdamente elevados : a partir de Janeiro,
os juros máximos que poderão ser cobrados no crédito pessoal serão de 19,6 por cento, no crédito automóvel de 16,1 por cento e nos cartões de crédito de 32,8 por cento.

Na base da fixação de juros tão elevados, aos quais a maioria nem presta atenção, preferindo olhar para o valor em euros da prestação mensal respectiva, estará aquela lengalenga da remuneração crescente do risco associado a cada tipo de operação. Prevalece uma lógica que demonstra bem o que a actual crise não ensinou: que a concessão de crédito não se resume a uma questão de preços e que o crédito deve ser vedado a quem, porque aufere rendimentos baixos, não tem capacidade para se endividar (ler aqui). Comprovadamente, caso este não seja o princípio seguido, para além das réplicas perfeitas de amontoados de incobráveis que, por todo o mundo, foram resolvidos com o dinheiro dos contribuintes, o resultado é, no melhor dos cenários, o da oneração daqueles que têm capacidade de endividamento com a remuneração do risco daqueles que não a têm.

E nem vou aqui detalhar questões de ordem ética ou relacionadas com os custos sociais do fenómeno dos cada vez mais novos pobres, presas fáceis dos abutres da pobreza que graça no país. Com toda a certeza que não foi a pensar neles – nos primeiros, bem entendido – que o Banco de Portugal fixou estes limites e o objectivo deste post não é o de, eventualmente, despertar a acusação de “superioridade moral” com a qual aqueles que não têm outro argumento costumam brindar quem se insurja contra as suas vergonhas de estimação. Não serão, contudo, abordagens despropositadas.

4 comentários:

Gi disse...

32,8% nos cartões de crédito? Se isto não é roubo, não sei o que é.

E não entendo, mas deve ser por causa das madeixas louras: se as pessoas precisam de recorrer ao crédito é porque têm algumas dificuldades em pagar; qual o interesse de lhes dificultar a vida e os pagamentos com juros deste tipo? Qual o interesse em acabar com a galinha dos ovos de ouro, isto é, exigir pagamentos tão exagerados que o devedor acaba por não conseguir pagar?

Filipe Tourais disse...

Quem se endivide em 1000 euros a 32,8 por cento pagará juros de 328 euros no primeiro ano e, caso não pague e deixe acumular este valor com a dívida inicial, vê-la-á aumentar 435,58 euros no segundo ano, 578,45 no terceiro, 768,18 no quarto e 1020,15 no quinto, ano em que a sua dívida mais do que duplicará. Diariamente, ao longo dos mesmos cinco anos, aquela aumentará respectivamente 0,91€, 1,20€, 1,60€, 2,13€ e 2,83€. E bastará multiplicar os 1000 euros iniciais pelo total de crédito concedido por estes amigos do alheio e do Banco de Portugal para obter uma aproximação ao balúrdio que acumulam diariamente, tributado em IRC a metade da taxa que paga a restante economia.

Gi disse...

Pois é, Filipe, mas é preciso que as pessoas paguem. E a continuar assim, só podem deixar de pagar, e os "amigos" espantam-se - ah, é o subprime!

Anónimo disse...

Vão-se habituando... é que agora com o Tratado de Lisboa, podem fazer tudo o que lhes apetecer, para nos "limparem" o dinheiro. Esta Nova Ordem, vai ser um vê se te avias!
Limpinho!