segunda-feira, 27 de julho de 2009

O voto inútil

O Verão vai quase a meio e, com eleições marcadas para Setembro, a campanha eleitoral vai aquecendo. Porém, sem sair do morno, com as atenções viradas para os crónicos e inevitáveis responsáveis pelos destinos do país nos últimos 35 anos.

O PSD esforça-se por apontar os fracassos, muitos, contabilizados pelo Governo PS ao longo dos últimos quatro anos e meio. Mas sem dizer o que fará caso seja Governo, como se o seu anti-socratismo militante bastasse para convencer quem quer que seja. A muitos, convencerá.

O PS faz trabalho semelhante e vai-se definindo também pela negativa. É uma tarefa mais difícil: a sua é dupla. Caso vença as eleições, o PS promete ser um anti-PSD, salvando-nos de todo o mal que o PSD nos possa vir a fazer caso seja Governo, mas também um anti-PS do primeiro mandato, capaz de nos salvar da repetição de todos os fracassos e disparates acumulados pela sua incompetência. A muitos, bastar-lhes-á.

E não será difícil antever o que serão PS e PSD no Governo. Mais do mesmo. Resumem-no, muito bem, João Rodrigues e Nuno Teles nos dois excertos que republico abaixo.

A opção PS

« (...) Quem é que à esquerda, mesmo sendo «liberal», pode querer mais quatro anos deste plano inclinado? Quatro anos de neoliberalização da provisão pública, quatro anos de política que trucida funcionários, quatro anos de austeridade assimétrica, quatro anos de consolidação do Estado predador, quatro anos de amputação da segurança social pública, quatro anos de código de trabalho empresarialmente correcto, quatro anos de aumento da precariedade. A memória é uma arma. Contra o medo. Esperança assente em políticas socialistas alternativas.»

A opção PSD

«A campanha eleitoral está aí. As hostes do PS mobilizam-se na captação dos votos perdidos à esquerda. A tarefa é simples. Afinal, não defende Manuela Ferreira Leite a redução do Estado às suas funções de soberania (justiça, defesa, segurança pública)? Bem, a tarefa é mais complicada. MFL não vai fazer campanha apoiada na revolucionária privatização total dos serviços públicos. Seguirá uma estratégia mais «reformista». Ainda assim, é fácil prever o que será o seu neoliberal hipotético governo:

- Na economia, voltará a obsessão do défice e a defesa cega da ortodoxia monetarista do BCE. As ruinosas parcerias público-privadas serão promovidas como forma de desorçamentação e, ainda assim, o mais provável é o investimento estagnar (com um ligeiro aumento em período pré-eleitoral). As sobrantes participações públicas em indústrias estratégicas, onde a competição é impossível, como a energia, serão privatizadas. A legislação laboral será «flexibilizada» e o governo fechará os olhos aos abusos e ilegalidades (ex. recibos verdes) que proliferam no nosso mercado de trabalho.

- Na protecção social, um governo PSD promoverá o modelo assistencialista. A protecção dos desempregados será reduzida em nome do incentivo à busca de trabalho. As prestações sociais serão condicionadas ao entorno familiar dos potenciais beneficiários. A segurança social transferirá competências e recursos para o “terceiro sector”, numa espécie de «outsourcing social», promotor da concorrência entre prestadores, resultando na degradação de serviços e aumento da precariedade laboral.

- Na educação, a democracia será eliminada das escolas. Escolas municipalizadas, geridas como empresas por um director todo poderoso, competirão entre si e o sector privado, cada vez mais subsidiado pelo Estado. No ensino superior, o mais provável é a introdução de um modelo de gestão privada das universidades ao mesmo tempo que se reduzem as transferências do orçamento e se aumentam as propinas.

- Na saúde, um governo do PSD introduzirá preços em todos os serviços e promoverá a empresarialisação dos hospitais. Num gesto ousado, poderia mesmo introduzir vouchers neste sector para serviços actualmente inexistentes no SNS. O sector privado florescerá, com a consequente sangria de recursos humanos do sector público.

Em suma, MFL procurará mimetizar ou introduzir tout court o funcionamento de mercado nos serviços públicos. O núcleo neoliberal. Como certamente o PSD argumentará em sua defesa, a despesa social não diminuirá. No entanto, esta servirá sobretudo para encher os bolsos de uns tantos grupos económicos.

Face a este cenário, não será difícil ao PS captar o voto útil. Ninguém de esquerda quer um governo assim, pois não?»

João Rodrigues e Nuno Teles, no
Ladrões de Bicicletas.

Este é o último post que escrevo antes de ir de férias. O PB regressará em meados de Agosto. Até lá, desejos de boas estiagens.

6 comentários:

Anónimo disse...

Caro Filipe,

Sou leitor quase assíduo. Muitas vezes não concordo com algumas coisas que diz. Mas tem a honestidade intelectual de expôr os seus pontos de vista.

Boas férias.

antonio disse...

O que são politicas socialistas alternativas? Governar um país não é propriamente governar um quintal.

Governar um país é responder às necessidades de muitos sectores da sociedade, criar confiança nos mercados para que a economia funcione etc.

A não ser que se queira governar por decreto e voltar ao "orgulhosamente sós".

Antonio

Aristes disse...

Mais opção PSD:

Uma sociedade de ricos e lacaios, defende Manuel Ferreira Leite.

Filipe Tourais disse...

No quintal continua a governar-se seguindo o modelo do “orgulhosamente sós”. Fazem o que querem. É precisamente por isso que as políticas socialistas alternativas se tornam necessárias. Para que a governação resulte no benefício de todos e não apenas em acumulações de riqueza conseguidas à custa de quem, por ser pequeno, não tem voz. E todos teríamos a ganhar com elas e com um modelo de repartição de riqueza que a todos beneficiasse.

JRV disse...

Viva,

Premiozinho para o País do Burro no Activismo de Sofá:
http://www.activismodesofa.net/2009/08/comprometidos-y-mas-2009.html

Cumprimentos,
JRV

Filipe Tourais disse...

Muito obrigado, JRV. Vou lá ver. Abraço.